narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Wednesday, 17 March 2010

The Big Hit!

Eduardo é um -big hit!-, um sucesso entre as mulheres, um produtor fantástico de dito sucesso com o seu festival de bandas em território brasileiro. Em um jogo de RPG, sua descrição seria: 51 anos, branco, calvo, flácido, encantador, de voz baixa e ouvidos atentos, permissivo e mão aberta. Fumava vários baseados por dia, pois adorava acordar 'perturbado'. Ainda segundo ele, a vida e o estresse eram o câncer do cotidiano e seriam insustentáveis sem essa ajuda contra a dor. Como já tinha chegado a um patamar profissional no qual dava ordens, e nunca as recebia, preferia somente comandar e empregar mulheres. Dificilmente, confiava em homens, provavelmente daria em briga. Sua lábia e seu jeito sorrateiro somente seriam entendidos em um ambiente de trabalho composto por suas irmãs e suas diversas namoradas; ele tinha várias amantes ao mesmo tempo. Todas eram muito pacientes com aquele pau mole que subia 55 graus apenas, pois o achavam o homem ideal e brigavam para ter a chance final de serem congratuladas com o prêmio de ser sua 'mulher'. Esforçavam-se em posições sexuais mirabolantes em busca do próprio prazer já que um marido seria mais importante do que o sexo em um relacionamento. Ele tinha noção do seu corpo em decadência e em contrapartida jogava duro com elas elaborando silêncios em meio aos encontros com cada uma das asseclas. Ele entendia que uma mulher fica atônita ao receber silêncio ou desprezo, e na verdade, perdia a paciência com muitas todas as vezes que era cobrado a atenção devida. Mas, ainda assim precisava delas para obter informações de cunho pessoal sobre os seus concorrentes, ou sobre as atuais verbas de governo disponíveis, ou sobre a educação dos filhos que deixou por aí. Então, tinha que comer muitas ao mesmo tempo, como forma de controle, uma em cada porto. Sua preferência era pelas nordestinas na faixa dos 30 anos, na faixa do florescer físico porém não mental de uma mulher. Era mestre na arte de jogar com o complexo de inferioridade escondido dessas lindas mulheres igualmente permissivas, de pele morena, hálito embriagado e quadris deliciosamente largos e polpudos. Ganhava todas as partidas com um carinho de 5 horas apenas. Era o seu cala-boca ao feminino: uma trepada e um jantar pago ao final. Mas, não esperava ficar deprimido por não ter nada de concreto ou novo que produzir na vida. O sentimento de derrota veio com força, destruiu até na sua própria mente o mérito pelo que ele próprio construiu no passado: o seu grande festival. Achava, silenciosamente, todas as bandinhas uma uníssona merda fedorenta e flutuante, e contratou mais mulheres para aturar o fardo de lidar com esses pedidos de shows em seu grande espaço. Acabou cansado de ter que comer tantas mulheres ao mesmo tempo, em busca de apoio fiel na sua empresa e estava exausto. Mudou-se e voltou a viver com a mãe podendo fugir de onde estava com mais frequência apesar de pagar pensões alimentícias, pela recente economia de aluguel. Por fugir com frequência, sua aparência em eventos tem status redobrado e conseguiu aumentar o mito do que sempre foi e será, atraindo mais mulheres: the big hit!

Tuesday, 16 March 2010

O jogo dos olhos

Eram 3h15 da manhã, e a noite tinha sido um fracasso. Aliás, ela ainda não tinha acabado, então, estava sendo um fracasso. Aquela tentativa falida de encontrar prazer entre amigos numa noite regada ao àlcool não funciona quando não se bebe mais. Tonino pensou até em ter uma recaída: seria até mais fácil justificar aquela noite se uma recaída na bebedeira fosse o motivo. Não havia na realidade motivo para estar ali, nem utilidade. Apenas quis sair de casa, e a única opção foi uma festa repleta de bêbados. Mas, pela primeira vez naquela noite inteira, e dentre as várias novas noites acompanhadas de amigos bêbados na sua sobriedade, encontrou um olhar direto em seus olhos. Olhos igualmente sóbrios que lhe disseram atirando em voz alta: 'você está me perseguindo desde ontem. isso é um jogo?'. Tonino não respondeu... na verdade, nem entendeu quando alguém disse: 'ela também não bebe, como você. dois estranhos!'. Tonino foi ao banheiro e voltou recuperado da súbita euforia que obteve ao notar que alguém como ele saía pela noite, em meio à bêbados, somente para observar os mesmos. E foi isso que fizeram: observaram o grau etílico de todos aumentar e riam sem palavras para que ninguém os condenasse de sobriedade e caretice repressora. De repente, os olhos sumiram... Tonino perguntou ao alcóolico mais próximo qual era o nome daquela figura que não estava mais ali. Responderam: 'Areia!' E pela primeira vez, ironicamente, com Areia nos seus olhos sentiu que observar era o propósito daquelas várias noites sem sentido. Observar o que não queria mais ser. Continuou sóbrio e entendiado, e só pensava em ter Areia nos olhos mais uma vez para suportar o convívio com os outros idiotas alcoolizados.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com