narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Friday, 30 April 2010

O Vício Da Palavra

Qualquer palavra. Qualquer uma que expresse o vibrar e detenha o catatonismo universal. Nada tem mais víscera, imagem é tudo. Somente a palavra salva. A música morreu, a performance morreu, todos morreram. Mas, se a palavra for diferente ou fizer vibrar, ela salva. Salva o ato, a expressão, a lentidão dos movimentos. Uma só palavra salva o dia de alguém. Uma simples salutação original prende a atenção. É apenas uma palavra. Quando bem dita, bem curtida, repetida, refeita, em sotaque distinto, ou em progresso, ativa ondas cerebrais ditas mortas. A palavra é um vício. Pensasse em palavras todos os dias, seria homem. Não pensasse palavras, seria som. A palavra é o contrário do silêncio. Vai contra o foco. E quando se entra em foco, a primeira coisa que procura-se para expressar a sensação são palavras. Palavras são só palavras? Sim. Têm a função de conectar mentes com a tal linguagem, o meio, o médium, a mensagem, o que seria de tudo isso sem a palavra. Palavras somente podem ser substituídas por notas musicais. E todos falariam através de um instrumento, ainda que esse fosse a voz. E a voz, com o tempo, inventaria a palavra, uma vez mais. A palavra é inevitável. E quem fica sem uma palavra sofre tanto, tanto mais. Silêncio mata!

Thursday, 29 April 2010

O Que É O Amor?

Alguém são, e não poeta ou zen, poderia justificar de maneira sensata o que é o amor? Como se confia no amor? Como se encontra o amor? O amor vai embora? Fica lá, mesmo, longe? Ou volta? O amor fica? O amor é feminino ou masculino? O amor dura quanto tempo? O amor dura? Existe mesmo o amor, ou é uma ilusão? Como se mede o amor? Como se sabe que se está amando? E o que se faz? Segura-se a tal emoção, ou deixa fluir? Se fluir é melhor, será que o amor algum dia enjoa? Amor irrita? Amor é especial? Que cor tem o amor? Amor morre? Amor é eterno? O amor é perigoso? Amor trai? O amor gosta de ser cultivado? O amor faz bem? Ou te cega? E como se cultiva um amor? Amor sente falta? Amor cuida? Qual é o símbolo do amor? Que língua fala o amor? Qual é a altura e o peso do tal amor? Todos sabem amar? E se você pensa que amou e na verdade não o fez? Como sabe? E se não souberem? Como descobrem o amor? Qual a diferença entre amor e generosidade apenas? O que significa 'amo você'? Você pode procurar o amor? Ou o amor procura você? O amor avisa antes de chegar? Ou chega sem avisar? O que é o amor? Disseram que ele faz uma falta... Mas, se você não sabe o que realmente isso é, como é que isso faltou? O amor fala? Que se defenda, então... A partir de agora, com a palavra, o amor. A escutar. Somente escutar.

A Verdade

É a seguinte: não se dorme mais, não se come inteiro, não se sente por muito tempo isso, e quando sente-se é uma intoxicação plena, uma injeção de adrenalina sem sentido, e busca-se um sentido na entrada dessa pessoa porta adentro, já que essa casa nova era de uma pessoa somente, e de mais ninguém, esse pensamento repetitivo, e 'pra quê Deus me deu essa ciência toda?', para acabar nisso?, nesse vício de ouvir esse peito batendo que nem carro da McLaren e essa boca tremendo de falta, nessa abstinência que exarceba a excitação, e é preciso todo o leite desse mundo para acalmar essa loucura, calma?, quem falou em calma?, tomar no cú quem disse isso, não tem ninguém calmo aqui, pode bater a cabeça nessa parede para ver se racha, passa a gilete nessa ferida para ver se abre de novo e esquece-se esse cheiro de suor, que ficou aqui nesse edredon difícil de lavar, lavar?, quem quer lavar?, tomar no cú quem disse isso, que todos morram, que já anda-se muito e sem parar por esta cidade, todo dia, de novo, chorando dentro de vagões de metrô, enquanto todos olham fixamente com pena esse rosto molhado e descontrolado, piscam os olhos em solidariedade, e quem sente pena não é digno de merda, tão superiores são estes tais cidadãos, querem ajudar, como se pudessem curar vício, excitação, memória olfativa, intoxicação, suor impregnado em tecido, loucura, tudo que se traduz em uma só palavra: paixão. Não tem cura, não. A verdade é que fodeu e pronto!

Os Semáforos

Confundiam o traseunte. Eram tantas encruzilhadas, que a mente cosmopolita embaralhada trocava o sentido das ruas, e sentiu tontura. Não foi a terceira buzina alta contra o seu corpo, no terceiro cruzamento seguido, que alertou a mente embaçada. Foi uma senhora dizendo: 'Êeepaaa! Cuidado, pelo amor de Deus!'. Foi a vergonha de ser chamado à atenção, vergonha de voltar a sua atenção ao verbalizar na voz daquela senhora com medo. Notou que devia parar. Tinha um bar na esquina. Alguém bebia uma cerveja... mas pediu, em contrapartida, um suco de laranja. Uma voz suave chegou, carinhosa: 'Eu vi você, por favor, senta! Respira um pouco antes de continuar'. Obedeceu à voz calma. Sentou. Respirou. E olhava de longe a ordem: verde, amarelo, vermelho... verde, amarelo, vermelho... verde... Do vermelho não se podia voltar ao meio termo: ao amarelo. Seria verde. Tinha que ser verde. Ficou sem entender quem eram os homens verdes, ou homens vermelhos que ajudavam os em espera. Porquê não haviam homens bondosos e amarelos para alertar uma espera?! Achou uma sacanagem. Que merda, que cú isso! Não inventaram homens amarelos para quem espera. Homens amarelos remediariam o perigo de um pára-choque dianteiro contra um corpo. O traseunte olhou para a voz calma, ao final barulhento e sugado no copo de suco, e perguntou se ele era o homem amarelo. Ele retrucou com a pergunta corriqueira da massa, de todos, do povo: 'você está bem mesmo, mesmo?'. Afirmou que sim. E atravessou os sinais olhando os homens contrários e obedecendo às suas ordens. O vermelho leva ao verde. O verde leva ao vermelho. E aceitou a falta do amarelo reclamando em voz alta que ainda assim, se não fosse uma filhadaputice, seria no mínimo uma grande sacanagem a falta de homens amarelos ao cruzar uma via larga e perigosa.

Wednesday, 28 April 2010

A Felicidade Do Tomar No Cú

Iracema, índia, voltou à vida para tomar no cú. Ou, assim esperava. Vivenciar tudo em seu mais cru sentido para saber se dessa maneira iria tomar no cú mais uma vez. E se aguentaria isso estando lúcida do perigo. Iracema tinha sido até os tempos de hoje uma personagem imortal, de longos cabelos, olhos desconfiados, reserva interminável, a conquista mais desejada. Hibernando em seu sono de morte como personagem fantástica resolveu, subitamente, acordar. Tirou a palha tapa-sexo e o cocar de realeza tribal e andou nua com os cabelos negros ao vento em meio ao cemitério repleto de tristes olhares. Saiu do local e atravessou a rua andando pausadamente, sem medo, alerta, plácida e nua. Decidiu desnudar-se e vez por outra, quando alegre ou sorrindo, tocava a própria buceta para sentir-se molhada e notar se estava realmente viva, ou se ainda era uma personagem fria e morta. Esperava tomar no cú nessa caminhada nua, porquê estava transparentemente em amostra. Tão transparente que se movimentava com um holofote sobre o corpo, e todos a notavam. Sabia que poderia voltar ao túmulo da personagem que foi, mas queria verdadeiramente ser uma mulher nova com um singular nome forte. E para ser nova ou sentir-se viva, talvez, não precisaria tomar no cú. Vara alguma entraria em seu corpo impunemente. No seu caminhar nua, sob a luz, encontrou um caminho, uma estrada sem sinais ou avisos, cheia de arbustos que poderiam esconder, em hipótese, vários perigos. Seguiu adiante, destemida, e lidaria nua com os entraves do longo caminho proposto pelo casual destino. Queria no futuro encontrar a esquina aconchegante, mas seria antecipar demasiadamente o percurso. Por hora, estava feliz em ter se disponibilizado apenas em sair do seu túmulo, rasgar a fantasia da sua personagem e estar disposta a tomar no cú: já era a felicidade presente na consciência de uma ex-morta. E era suficiente.

Saturday, 24 April 2010

A Amante Da Roosevelt

Era até uma mulher letrada. Não era uma propensa a ciladas.
Diplomada, especializada, treinada, viajada, vivida, sofrida e recosturada, falava línguas e conversava muitos assuntos muito bem com muitas pessoas, absorvia histórias e as traduzia de outra maneira que parecessem ao longe serem originalmente suas. Era uma intérprete.
Até seu pai, tão exigente com mulheres, orgulhava-se dela por ser uma mulher de muitos 'recursos'. Sua mãe transmitia que ele dizia escondido: 'ela é inteligente, pode fazer o que quiser! só tem que abandonar essa timidez. que merda...'.
Todos, e até seus inimigos, sabiam que ela era uma mulher interessante, inclusive ela mesma. Com esmero, ela se construiu assim: digna de interesse. Talvez, por isso a usassem. E ela se sentiu por muitos anos usada, ainda que os que a usassem a dissessem que ela 'não tinha tanto assim a oferecer'. Contanto, ela já tinha passado da fase do abuso mental. Ou, pelo menos, assim pensava...
Entrou em um curso de interpretação para libertar-se de suas amarras, conheceu pessoas interessantes e apaixonou-se pelo professor em meio minuto. Reflexo da sua disponibilidade física e mental, vontade de dar amor, e receber. Sabia que o amor tinha ordem inversa para ser assim, puramente amor: você recebia e tinha vontade de dar. O contrário para ela sempre gerava o uso. Então, incumbiu-se de descobrir se aquele homem franzino e de estatura média, de cores fortes iguais às dela, olhar sério igual ao dela e olheiras sedutoras à distância tinha alguém a quem dedicar sua intenção de amor.
Sim, tinha. E ela o admirou ainda mais por ser um homem completo emocionalmente. Não iria nunca interferir na fonte daquela força.
Anna, a filha tímida e oprimida, voltou à disponibilidade emotiva, e abriu-se ao seu propósito de dar-se emocionalmente e aposentar a couraça de guerra.
Sabia que corria o risco da manipulação, assim que acenasse a bandeira de cor vermelha bruta do seu coração. Corria perigo como a cor indicava, e aceitou o seu destino.
Só restava achar um homem crível, e que a fizesse acreditar em algo.
Não demorou muito e um vampiro de aventuras achou a cor acenando, viu muito sangue e sofrimento ao redor, e achou a sua vítima ideal. Ninguém clamaria aquele corpo sozinho quando ele já estivesse morto. Já estava em idade avançada e precisava renovar-se como homem viril, ativo, criativo e ágil. E Anna ouviu o seu discurso de conquista mental por dias...
Anna, facilmente, chegou ao ponto de querer dar. Dar. Desde que o viu interpretando aquelas cenas sexuais pseudo-chocantes na praça Roosevelt esse era o próposito: dar.
O vampiro cerceou seu terreno e o ritual de abatimento da vítima se fazia com plena consciência da mesma. Anna sabia que ele não a poria nunca em primeiro lugar. Ela o ouvia falar do amor que já sentiu por outras mulheres e essa era a sua tática de venda de si mesmo: provar que ele amou alguém e já sofreu. Ele não era um vampiro.
Porém, ele já tinha a estabilidade do seu castelo fantástico. E não sairia em busca de uma aventura por muito tempo. Avisou muito, e da maneira mais ética que um vampiro canastrão italiano poderia fazê-lo, que amava a sua mulher, nunca iria deixá-la, mas que estava separado. Separado sem coragem de deixar o hábito da sua união.
Queria a liberdade de Anna, e saia com ela pelo bairro confortável para a vítima, pois a faria se sentir mais solta, mais familiar. O vampiro deu mais alguns vários avisos à Anna. O aviso principal era o que mais a incomodava: a praça Roosevelt era o domínio dele e da sua mulher, e o casal ali faria vítimas que nunca abalariam a sua estabilidade de poder ou o seu pacto de devoção eterna. Ela nunca entraria naquele lugar público sem ser olhada de alto a baixo. Ali, eles eram intocáveis, e vários cães de guarda os protegeriam.
Anna viraria a amante da Roosevelt, à distância, e só restaria isso a ela.
Ele a avisou que nunca a poria numa peça teatral naquele lugar, pois nunca prejudicaria a sua relação com a sócia-cúmplice-mulher principal e ideal, provedora do castelo mais sensível e do trono mais alto que ele poderia ter.
Anna era apenas uma bandeira vermelha, uma poça de sangue a ser sugada e não teria no vampiro o grande homem revolucionário que procurava.
Ela então pensou por longos dias se haveria vantagem em dar sem receber, em restringir os seus passos de liberdade, e se tinha vindo realmente a esse mundo para ser usada tão somente. Pensou por um segundo que não era a revolução, e sim, o instrumento da revolução dos homens.
E desse papel ela estava cansada. Não se renderia a este papel.
A amante da Roosevelt teria que libertar-se dos estigmas de auto-crucificação que ela mesmo criou e pensava no propósito de ter um vampiro em sua vida. Mais um exercício de libertação.
Só queria que ele sugasse todo o seu sangue, e assim as bandeiras vermelhas de convite ao perigo não existiriam mais.
Ele seria o último vampiro e ela reporia o líquido em seu corpo com água.
E fluiria adiante.
E voltaria ao propósito da sua vida: fluir.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com