narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Saturday, 14 August 2010

Você ainda por aqui?

Vai para lá, ver alguma coisinha nova, ou velha...

.rubrica_diálogo_escaleta.

Tuesday, 27 July 2010

SAI DESSA CADEIRA

para Telles do Rosário e o http://apartamento902.blogspot.com ...

E VAI AMAR! Vai tomar em um cú qualquer, vai se estrepar. Vai para rua, vai ouvir, vai viver! Vai pra lá, vai amar, vai embora, sai daqui!
Sai dessa internet, sai desse twitter, sai desse blog!
E VAI, VÁ
VA-ZA!

Saturday, 24 July 2010

Afe, Que Saudade...... Afe!

De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. Afe, que saudade..... Afe! De antemão. Pelo fim do final. Pulou para outro. Destilou, dissolveu, evoluiu, recomeçou, renovou. Versão 3.2, folha de papel reciclada com caneta vazia, salivando de gosto de escrever. Obrigada pela leitura. E releitura!

para 'The End'....

Thursday, 22 July 2010

Abraçou As Costas Daquela

Longíqua pessoa e disse 'chora que eu seguro'. Segurou com efeito. Segurou sem suspiro e colocou todas as vértebras no lugar. Prometeu a vinda e chegou. Segurou as costas, pelas costas, enquanto um tomate era cortado, não uma cebola. O choro era verdadeiro, não era um choro de cebola. 'Segura essa onda, neguinha, que eu cheguei. Bota aquela argola que eu te dei, vamos sair', ordenou. Deixou o tomate e foi para a argola. Voltou e uma taça de vinho tinto esperava ainda sem equilíbrio de horizonte, vinho recém posto na taça. 'A gente vai e ninguém mais vai, fique tranquila. Pode vazar a emoção! Ninguém vai estar lá', acalmou. 'Bota aquele vestido bonito e acende esse olho. Quero ver os olhos pegando fogo!', delegou. 'Tem gente bondosa vindo aí, não vai precisar se defender mais! Confie!', anunciou. 'Deixa esse tomate, pega cinco uvas e pensa que teu nome é Isadora!', continuou. 'Fecha a porta, deixa uma luz acesa, e olha sempre para os lados ao caminhar na rua', completou. A tranca deu duas voltas. Logo, iria voltar. Bem melhor. Ou não.

Quando A Turma Reunia, Alguém Sempre Pedia

para 'Dinorah, Dinorah'...

'Canta uma pra mim?'. A nova turma achava-a guerreira, emocionante. Com R$31,56 na conta bancária popular, ela pensou o inevitável e perverso futuro do 'tenho que voltar para noite'. Se o que vingava era o encantamento fácil, a beleza irritante, então que isso virasse dinheiro com urgência. Entrou em bares bairro do centro afora, noite adentro, e começou a caça aos aliados. Sentava no balcão, e observava a dinâmica dos grupos musicais sentindo de antemão se eles seriam agregadores ou oponentes sob os holofotes. Os bateristas sempre tão felizes em falar com as belas, os baixistas e tecladistas desconfiados, os saxofonistas seriam os últimos a se falar. Dividir solo não era para qualquer um que emitisse ar de diafragma como instrumento. Todas as noites enquanto não conseguia um suporte competente de notas múltiplas e vindouras, ela encarava o fardo no quarto. Dançava solta para o espelho com o pedestal sob a sua chave de braço, dominado, e com os lábios sob a teia de reverberação do som. Acordava todas as manhãs de R$31,56 intocáveis com a sensação derrotada do nulo e ao entardecer já buscava a sua rota de procura dos aliados, um pouco mais recuperada. Todas as vezes que sentava no balcão um malandro qualquer, mais velho e com um copo de uísque em punho oferecia uma bebida. Protegia-se com a sua caneta no papel, elegantemente, e nenhuma oferta de um motel de classe seria evidentemente bem-vinda. Malandro por malandro, todo dia haveria outro, descrevendo-a como musa da boêmia, e deixando-se ver como com óculos de grau recém-comprado de alívio o fascínio latente. Os que gostavam do que viam e não eram malandros de nascença, levavam um tapão na orelha da acompanhante. O lembrete da acompanhante de que o ensaio da briga poderia virar até espetáculo. E após várias noites de busca, conseguiu dois grupos competidores que a pediam um repertório sofisticado, para agradar os mesmos malandros solitários de uísque em punho em mesas de bares para duplas porém com uma eterna cadeira vazia. Logo, logo, soube que as cantoras do bairro cantavam uma canção do seu repertório. Algumas usavam até, repetiam o mesmo vestido vermelho de Iansã, pensando que aquele manto também ficaria tão bem nelas quanto na de beleza irritante. E para tão pouco, achou o pior aquela repetição. A repetição era o pior. O pior!

Wednesday, 21 July 2010

Se

para E....

A minha idéia for a tua idéia, e se a nossa idéia pertencer a uma terceira pessoa, quem seria o dono da idéia? Se você morrer, a idéia continua sendo sua, você seria respeitado? Ou vira nossa, da dupla restante? E se a teoria das cordas for comprovada e virar a lei das cordas? E se eu puder multiplicar essa tal idéia, através do meu clone, que vive em altitude e latitude mundial oposta à minha, em outra parte do mundo? E se o meu clone executar a idéia de maneira medíocre porém mais exponente que a minha mesma idéia? Eu estaria imitando o meu clone? Se eu dobrar todos os meus pensamentos no ser mais próximo a mim, e ele for embora? Quem seria esse ser a quem eu dei o meu pensar? E se pensamentos não se dão, como poder-se-ia realizá-los em silêncio? E se com calma e em silêncio alguém ouvisse o outro até que ele se hiptinotizasse a si mesmo com a sua própria voz, e ele até pensasse que tudo que ouviu da voz induzida foi fruto da sua mente, exclusivamente? Quem seria o hipnotizador, o ouvinte ou o falante? E se ele continuasse hipnotizado até que se sentisse, por silêncio e apenas voz própria sem dissidência, capaz o suficiente de ser o maior de todos? E se quando não hipnotizado o ser de voz ativa e preponderante notasse que enquanto esteve hipnotizado com suas próprias palavras outros seres já falavam outras coisas mais relevantes? E se ele sentisse o defasar do seu pensar? E se ele notasse a falta de renovação mental por falta de movimento físico? E se ele parasse de se falar e por dez dias fosse abnegado o bastante para apenas escutar, sem falar? E se ele não tivesse esse tempo? E se amanhã fosse o seu último dia de vida? Você executaria a tal idéia ou procuraria o banho de mar mais próximo? E se as idéias não existissem, somente a ação e o movimento consequencial que levaria ao improviso do acontecimento, puramente no presente atual? E se você tivesse que estar constantemente alerta, por não haver plano? E se as oportunidades fossem todas chupadas naquele momento com rapidez? E se não houvesse planejamento e o instinto primordial fosse o executor da ação sem pensamento? E se houvesse um vencedor, quem seria, o mal ou o bem? E se eu pudesse dobrar toda a minha ação em ida e volta, como um bumerangue? E se nessa volta do bumerangue todos se matassem sem saber, apenas por movimento consequencial impensado? E se todos se matassem qual seria o animal que reavivaria a espécie humana? E se depois de reavivada, a espécie humana tivesse o primeiro ser humano com uma idéia dissidente, o que aconteceria? Internariam ou interditariam a idéia dissonante por desordem da união da espécie. E qualquer idéia não mais seria sua. Por incapacidade mental. De pensar pensamentos. Você morreria pobre e iniputável. E a próxima geração o resgataria como gênio incompreendido, exemplo de ultrapassamento da geração anterior. E você seria grande, como deveria ser quando pensava.

Sunday, 18 July 2010

Já Que Não Foi O Dia

Iria esperar outra noite. Para tentar de novo. Para começar tudo outra vez, com um novo 'oi, você é daqui dessa cidade?'. Aí, quem sabe, faria uma escolha melhor outro dia, de noite. Sabendo que apesar de não ser a melhor escolha, seria a que mais perduraria, a de pedra bruta. Tentaria conquistar pela boca, pelos olhos, aceitando a face mais convencida daquele ser tão inexperiente, e ao mesmo tempo tão curioso e experimentado para aquela insignificante pequena vivência. Diria coisas poucas, com voz doce, somente para surrupiar o momento e levar para um escuro que calasse aquela boca falante. E aí, quando sentiria o inteiro, sim, a partir de então, fixaria o olhar sem balbuciar textos de preenchimento falso, vazios como os pastéis de feira. Somente porquê sentiu o que queria, e notou que aquela baboseira toda não levava a nada. Iria calar! Calar toda aquela góga babada. Bem calado, sentado, moreno, de dente torto arrancável com um dedo, metido a besta fera, queijudo e esperando, realmente, quem calasse aquela boca grande. E chegaria. Para mostrar quem seria teu mestre. Mas, iria chegar somente outra noite. Tudo de novo.

Friday, 16 July 2010

O Bilhete De Angústia

'É, para os que não sabem dizer aquela outra palavra. Quatro horas de angústia, e a continuação da mesma na 'lonjura', quiabo. O forro do assento estava duro, sim. Irene riu! Ha! Viramos os quilômetros, a guitarra chamou, sim... Mas, não fui! Me dá mais treze, por favor? Ainda na angústia. Aquele chá não adianta, não. A jarra feita acabou! 61, rola? E amanhã, pode? Angustia, mí amor! É angústia para quem não sabe dizer saudade! Queimo no corpo 40 graus de angústia! Me banha frio? Logo! Perfeito. Angústias e esfregações. Tua. Pour tout toujours.'

Wednesday, 14 July 2010

'É Assim, Mesmo...Paciência'

Disse ele, aceitando a despedida. Afirmando que vai ser diferente, vai ser duradouro. Seriam eternos como nos dias em que tudo esteve no mais devido lugar. Tudo equilibrado e preenchido. A parceria acontecerá, sabiam agora que podiam confiar um no outro, teriam os melhores interesses próprios e alheios em mente. Queriam crescer, e cresceriam. Eram dois machos em progresso, somente um deles estava disfarçado de mulher, uma mulher que ficava doce e amável na presença do outro, alimentada de confiança. O porto de açúcar estaria sempre aberto para o encontro dos dois, dos dois homens que zarpam e voltam. O que se despediu foi primeiro com um dever a cumprir na cidade planalto, e jurava uma admiração eterna. O que ficou e ia para a cidade dragão era um rebatedor de luz do admirar àquele 'homem foda'. Deram-se impulso na ida e brincaram com o 'vai na fé, selvagem'. Cada um falou por tempos das qualidades alheias, fizeram o exercício do impulso de potência, prometiam um encontro em uma divisa do Piauí com o Ceará, próxima ao litoral. Abraçaram-se e choraram de saudade prévia. Não precisaram falar em amor. Ele já era assim, assim. Dos dois. Para sempre.

Tuesday, 13 July 2010

Descansou

Com a marola batendo na sola dos pés, com a pequena reflexologia marítima. Com a exfoliação da pele feita pela areia, com a descarga de energia corporal feita pelo iodo do sal. Deitou no colo do sol para receber um cafuné violento de uva e uvb. Limpou os olhos de água salina. Sorriu de satisfação sob a página de um livro molhado aberto. E descansou.

Sunday, 11 July 2010

Duas Mãos

Entrelaçaram-se com tanta emoção, que transmitiram ao que assistia um prazer em dizer 'poxa, tão bonito isso! fiquei emocionado'. Saíram para falar da estória futura, imaginar quem seria ele e quem seria ela. Olharam-se e deram-se as mãos, sussuraram concordando que seriam mudos a partir daquele momento e até chegarem em casa. Comunicavam-se por gestos, suavam dançando a cumbia e a guaracha cubana. Mordiam a orelha alheia e cheiravam-se contentes por ambos estarem presentes. Sem voz, havia o cheiro do duo e o toque esperto ágil do corpo, o entrelaçar das mãos, das pernas na dança, o contato das braguilhas frontais, roçando em ritmo solto. Costelas, ombros, cintura, bunda, pescoço e as mãos não sabiam onde repousar, queriam pegar tudo, pegar geral. Estavam unidos pelos umbigos. A música mudava, eles iam e continuavam, absortos um no outro, concentrados no movimento do corpo. Ele tentou falar e a mão agitada em frenesi freou, negou o som da voz. Agarrou-a pelas bochechas e olhando-a fixamente voltou a concentrar no pensamento de ligação. Sem palavras. Silêncio e movimento e dança. Entre as canções menos instigadoras, comunicavam-se por gestos de um quase cansaço do corpo. Tinham como vantagem o entendimento dos vários sinais de comunicação da malandragem e da linguagem dos sinais. Outros sinais eram somente complementos criativos que provocavam o sorriso espirrado e prazeroso dos que se entendem muitíssimo bem. Voltavam a entrelaçar os corpos com frequência e puseram-se em um nível de entendimento profundo. Sem voz alguma. Largaram do turno do silêncio com afeição às sete e meia da manhã, rumo ao apartamento, porém não falaram. Ela pôs o dedo indicador pressionado contra os lábios e nem emitiu o som do 's'. Era uma ordem explícita e sem som. Apreciaram o caminho e seus detalhes notando a cidade. Chegaram, e após um copo de água corpo adentro, tiraram a roupa e puseram uma última balada lenta. Dançaram nus até que o entrelaçar virasse naturalmente o começo de um encaixe de corpo, com o pau pressionado entre coxas e a dança contida e roçada com cuidado para não sair do lugar ou perder o ritmo, e o transe chegou. Fazendo eles desprezarem o final da última música com urgência. O novo som restante era somente do ar condicionado que acalmava o suor insistente dos que esfregavam-se e encaixavam-se, ainda plenamente presentes um no outro, em silêncio. O encaixe fruto da dança.

Friday, 9 July 2010

Do Mercado De São José

Saiu em direção reta rumo à banca de ervas na rua. O vendedor tinha uma conversa maravilhosa, Ana Paula já conhecia, mas o que ela queria era dar uma fungada profunda e sentir o cheiro do mato. O vendedor olhou e ofereceu um banho de sete ervas, preparado por sua mulher, e ela aceitou com uma sacudida vertical de rosto e comprou uma garrafa de refrigerante grande cheia da tal cura da mulher índia do vendedor. 'Isso é muito bom para tirar olho grande, mau olhado, tudo que é impedimento, viu, moça? Agora é do pescoço pra baixo somente, vú? Na cabeça nunca! Proteja a cabeça! Separe do corpo!', falou ele rindo. Ana Paula mais uma vez acenou em silêncio, verticalmente movimentando o rosto, em um indicar positivo. Saiu da banca de ervas, seguiu costurando o bairro do centro entre as pontes, sob o sol, sempre com uma mão no corrimão dos arcos das mesmas fazendo carinhos na cidade. Em silêncio, continuou andando e parou nos lugares menos prováveis, como no quiosque do sapateiro, na loja de artigos militares, na escadaria da igreja de São Francisco e no pé de uma ponte próxima a um pescador que tentava pegar um guaiamum de mangue. Todas as vezes nas quais parou só disse uma frase que justificaria todo o seu estado. 'Tô tão cansada...', dizia lentamente. Em todas as vezes nas quais disse isso, só precisou olhar para baixo e descansar. Uns traziam água, outros perguntavam o 'a senhora tá bem?', uma moça ofereceu o seu bebê de 3 anos e meio ordenando que o menino desse um beijo na moça 'para ela ficar contente' e forçando um sorriso, o sapateiro providenciou uma cadeira e pediu que tirasse os sapatos para respirar um pouco antes de voltar a andar e o pescador disse o que ele sabia sobre o cansaço.. 'É moça, têm uns dias que a gente cansa, mesmo. é tanta luta, né? tem dia que o mar, ou esse mangue não trazem nada, mesmo. mas, eu já pensei que como dizem por aí que o mar vai avançar, eu que entendo de mar ruim, revolto, seco ou afoito, eu acho que vou me dar bem e vai ser bom é para mim. o que me resta é essa esperança, sabe? de que o mar vai avançar e minha luta de não ter vai acabar. tô doido para ver a água! sente aí e descanse, depois a senhora anda de novo', disse ele catucando o único mini guaiamum dentro do balde e continuando o trabalho. Ana Paula perguntou o nome de cada um que lhe ofereceu água, cadeira, beijo, cuidado e palavra e agradeceu. Seguiu em frente desde a última ponte que cruzou, acariciando a Rua da Aurora pela calçada com sua pisada agora mais leve, conseguiu o ônibus que queria e foi em direção ao seu refúgio tomar o banho que lhe cabia, de renovação de proteção para andar mais no dia seguinte. Foi tomar o banho.

Thursday, 8 July 2010

http://twitpic.com/2373rt/full

E o nojo de ser brasileiro está quase nisso... Triste!

Wednesday, 7 July 2010

Dunga E Eliza

Foram decapitados, esquartejados, mortos e descartados. Um viu o pós-morte e sacode a poeira, e a outra ainda não teve seus ossos achados entre a areia. Um tentou defender a nação com seu temperamento de esforço e pouco sorriso, outra tentou defender o seu amor e filho com exacerbado sorriso e oferta de corpo e vida. Ambos tinham ambições no País da genteboazice, dedãolegal, humildade e resiliência hierárquica. Os dois não sabiam que mesmo em posto de direção ou sendo mãe do filho não eram os que mandavam, e foram cortados dos seus postos. Os homens odiavam e julgavam o Dunga que não obteve vitória. As mulheres odiavam a Eliza mariachuteira que teve o que mereceu por ser gananciosa. A pátria mãe gentil gosta de filhos obedientes, sem ambição, prontos a aceitar com resignação seja o que Deus quiser. Dunga e Eliza são a prova de um País de mentalmente deficentes que anula pessoas competentes sem sorriso, reservadas e com poucos amigos ou mulheres sozinhas que não são mulheres oficiais. O importante é um dedo de legal, quem você conhece e sua capacidade de não pensar, calar a boca, amar ficando em segundo plano e apanhar calado. Dunga e Eliza são ilustrações mortas da vergonha que é a pátria amada intolerante, nepotista, machista e julgadora.

Emma

De Leeds, encantou-se com Olinda. 'Você veio da minha terra, e eu na sua? Que mágico!', soltou entre as baforadas do cigarro. A cantora inglesa fazia shows de jazz nos bistrots da cidade e ofereceu 'os seus músicos, eu te dou! canta em português para mim!'. A cantora inglesa dividiu o palco em plena segurança. Quem dançou na platéia foi o diretor bacante de teatro grande de São Paulo, com sua trupe em turnê pelo Brasil e há duas semanas em Recife. Olinda mágica sempre trouxe os momentos de união artística fantástica com a estética punk igualitária. Os músicos não se deslumbraram, todos estavam compostos. A trupe de teatro foi embora pela metade, e ficou a banda da trupe para trocar, tocar, dividir palco, fazer música. O amigo próximo a olhou com olhos baixos e disse que se 'orgulhava da sua postura, da sua voz e presença agregadora, da sua falta de deslumbre de mulher linda e forte que puxava muitos para ficar perto por muito tempo'. Emma teve o show roubado por muitos outros, mal cantou. Não se abalou e foi namorar, beijar o seu moreno, deixando a briga para quem queria e orgulhosa de ter uma nova amiga 'linda' que a entendia na levada pirada do jazz bêbado que ela sabia que podia fazer de maneira nata. Segura, despreendida, viajante, apaixonada e musical como as reais cantoras devem ser.

Tuesday, 6 July 2010

'Meu Amor... Eu Acho Que Entendi A História, Eu A Li Toda...'

'... mas custa entender que você se envolveu com um babaca?', falou o novo sábio, ao lado dela. Ela parou e chorou. Chorou e chorou, e chorou mais e continuou a escrever com ele como testemunha, ao seu lado... 'Fica, olha...Escreve comigo, me dá um beijo e escreve...'.Doía dar e nada receber, somente fel. Ela amava e tinha vergonha. 'Vamos embora daqui, vamos para sempre, vem comigo?', ela pediu. Ele leu a frase no computador, ao seu lado, e disse que iria até onde desse. Ela chorou mais ainda. De falta antecipada. 'Eu amo você! E você tem que se amar, linda, independente de todos! Isso não é novidade! Mesmo que eu te deixe', e ela chorava. 'Não me deixa, eu preciso de você!', admitiu. Ele a beijou, e a deixou escrever.... Na verdade, ele não confiava ainda... era muito pouco tempo... Todos iam embora. Babacas.............................. Ao ler isso, ele a pegou pelo braço, disse um 'assim, não!' e provou que a pegava com ardor corredor adentro..............

Foi Castigo!

para o repentista do Marco Zero...

Foi água oxigenada no olho. Tirou a visão. Foi falta de atenção. Arrependimento não traria contento, solução. Foi castigo. Pra quê fez isso comigo? Extendeu a mão, deu um encalce para pular do precipício. Castigo. Só podia ser isso. Estava prometido aquele fracasso. E tudo bem, silêncio eu faço. É assim. Tem jeito, não. Se dá-se a regalia, nego vem, pisa, judia. É melhor não dar a mão. Foi castigo. Não sei se novo ou antigo, mas paguei com exatidão, ansiosa para largar a mão. Gritei que tinha dinheiro. Gritei! E paguei logo para me livrar. Livramento foi. Eu nem devo, não sou culpado, tiro a minha conclusão. Foi castigo. De uma encruzilhada fêmea, e nem mesmo valeu a pena. Nego, fecho, não dou perdão a nenhuma falta de mão. Nem adianta amizade, isso tudo é bobagem, coisa dos com cú na mão. Amigo é outra coisa comigo, não alisa o cabelo para dar um nó na mão e arrastar pelo chão. Teve saldo negativo, conta feia, muito zero, energia de ludibriação. Castigo. Profunda vergonha, nem teve assim tanta manha, foi pura exposição para verem que é viril. Admito: nem admiro, não acho original, é uma cópia barata, não levou à evolução. Erro sem aprendizado, texto maçante, conto mal contado, imitado, sem orgulho de feição. Nó trançado na soberba, moralismo de palavra bêbada, cheirada, para agradar aos que esperam devoção. Tudo bem, não tem controle, então, guie essa charanga para outro lugar, vaidoso, índole podre disfarçada de boa intenção, querendo ser percursor do teatroverdade, desdenhando os 'coitadosquehorror!' que o procuram para um aprendizado, planejando churrasco por dois meses para ganhar uma nordestina, enquanto treina com outra, e ter um contrato novo em mãos, mesmo nem acreditando no talento de uma mulher mais poderosa porém 'não pronta e entregue à bebida'. Foi castigo. Frágil para pedir dias de abrigo. Forte para dar um grande sumiço. Não merece atenção. É esquecível, e vai lembrar de tudo um dia quando estiver completamente só. Com humildade, eu desejo que tenha em dobro tudo o que me deu.

Prece Do Livramento

Obrigada, Senhor, pela lição
Obrigada, Senhor Todo Poderoso, que és
Por ser o mais leviano deste ano e usar minhas histórias contra mim mesma

Obrigada por sair carregando pelas mãos junto ao teu peito tuas armadas protetoras pesadas
Obrigada pela jusficativa tardia da falta de esperma
Obrigada por me deixar a cidade mágica intacta sem as suas pegadas
Obrigada por me dar um fracasso de relacionamento transponível no início da volta

Obrigada por visivelmente não entrar na dança
Por nem saber dançar
Por odiar a música
Por amar e dedicar-se à sua dependência química, emocional e financeira
Por ser superior e inventar todas as minhas mais desprezadas mortes

Obrigada pelas irresponsabilidades e pelo moralismo
Pela difamação pessoal e por destratar a dedicação
Pela mentira insistente do 'abandonar tudo por você' e pela falta de memória logo em seguida
Por mentir para ela que estava 'no trânsito'
Pela mesquinhez do último telefonema para pedir o pijama que fazia muita falta

Obrigada por provar sua incompetência em ser algo melhor
Pela covardia ao fugir do 'jogo' que você mesmo esquematizou para ir ao hospital que cura viroses de mentira
Por não mais acordar minha vizinha com o interfone da minha parede entre as duas e cinco da manhã
Por, enfim, deixar o andar inteiro dormir

Obrigada por não me aceitar em nenhuma maquiavélica, inventada e bêbada 'audição'
Por chamar a mais diplomada e qualificada, burocrática, infantil, sem sensibilidade de primeira impressão, menos convencível e incapaz de improviso para trabalhar com você
Por não abrir a porta do seu larcenário para mim
Por não conseguir reproduzir os textos

Obrigada por me fazer remodelar a minha casa
Por me levar e mostrar como bom exemplo que a sábia dona do seu antigo ninho e obtentora da sua primeira traição não te olha nem nos olhos
Por maldizer o 'barraco da puta de quinta'
Pelo desdém à mera 'menina nordestina xinfrim problemática que quer somente ser o centro das atenções' mostrando o respeito que a sua grandeza merece

Obrigada por não me associar fisicamente a você socialmente
Por não ter nome e não conhecer os meus
Por ir à lanchonete às escondidas e falar para outros que estava apaixonado mais que não abandonaria sua mulher dependente de você
Por me fazer ter assinada, documentada e por escrito a sua insistente e lembrável pequenez
Pela falta de crédito, por me expor a muitos que você morre de medo que saibam do seu tratamento vil

Obrigada por fechar a porta com as próprias mãos sabendo que não voltará a entrar
Por levar todo o ódio que te cerca e te consome com você
E livrar-me assim de todo o mal
Amém

Sentada, Olhou Aquele Copo De Plástico Branco

Entre as mãos e soltou um 'é isso!'. A esquina da João Moura com a Teodoro Sampaio, com o misto do seu alvoroço residencial e comercial de um sábado de sol, foi o cenário perfeito para a reflexão. Tudo movia-se ao seu redor e ao redor do copo de plástico branco. Os instrumentos musicais estavam ali perto, prestes a serem vendidos na rua agitada concorriam uns com os outros ao fundo tocando cada vez mais alto, mostrando os seus valores de arte, de decibéis, loucos por um lar. O som não era música, era barulho. Música seria se aqueles instrumentos tivessem um dono, o dono a faria com eles. A união de dois para criar ou a beleza lenta, a harmoniosa, ou a beleza tensa de música. Sozinhos, os instrumentos não tinham função ainda, eram apenas pele, plástico, madeira, aço e metal. Estavam ao Deus dará, livres e recém-chegados ao local de passagem, como ela segurando aquele copo descartável, também novo, recém-chegado à sua mão após alguns goles de água. Existiam vários copos descartáveis em seus caminhos. Destruídos, eles poluiriam apenas o ambiente. Com certeza, seriam reciclados. Por outra pessoa, e voltariam a ser descartáveis. E, existiam os copos de vidro. Espatifavam com barulho, difíceis de limpar, deixavam resquícios, farpas, e também seriam levados embora pelo caminhão do lixo reciclável. Ou não. A dor seria a de perder um copo de cristal. O de grande investimento, com o sacrifício que foi para obter um. Leva-se tempo para ter um copo de cristal, e quando ele chega, se o perdemos a dor é imensa. Ela olhou aquele copo plástico e o amassou, e continuou segurando-o por alguns quarteirões e andando rumo ao metrô. O relógio de corda antigo 17 rubis no pulso direito funcionava bem e tinha sobrevivido ao tempo, não era descartável e dava a hora certa há anos. Eram 16h46 e o copo plástico ainda estava em mão. Ele tinha servido para saciar a sede temporária e tinha que ir para a lixeira. E parecia tão injusto jogá-lo fora. E se ele quisesse ser de vidro, transmutar para o cristal. Não poderia. A natureza era de plástico, ele chegou às mãos dela com essa forma, essa função, a escolha foi dele. Ele poderia ter sido jogado no lixo na tomada de um gole em outra rua do passado, ter sido reciclado, voltado e ainda assim seria de plástico. E, finalmente, concluiu o pensamento na boca da estação Clínicas. A boa união dos instrumentos musicais e seus donos, e um sem o outro que não seriam música. O relógio da corda mais simplória e antiga era a palavra de lealdade e compromisso a qualquer hora. E o copo de plástico branco foi jogado fora na cesta plástica cinza de lixo. Ele já saciou a sede e teve que ir embora. Branco, turvo e plástico. E sentou naquele assento marrom do vagão pensando em um copo de cristal bonito e transparente que seria segurado entre as suas duas mãos seguras e não mais trêmulas o qual usaria e cuidaria furiosamente para que sempre estivesse ali a matar qualquer uma de suas sedes. Um copo bonito, transparente e imensamente bem cuidado.

'Não Vai Rolar Maragogi!'

Ouviu com tristeza. Barreiros, cidade transitória entre os estados, tinha ido abaixo e os burros mortos chegavam pela corrente marítima até em Pernambuco. Vitória do Santo Antão e Palmares do lado de cá ficaram sem cartório público. Todos sem registro de nascimento, união, propriedades. Zero. Pensando assim, ir à Maragogi, apesar de triste, parecia pouco. Em toda esquina da cidade das pontes havia um posto de coleta de alimentos. Tanta gente na rua, ninguém querendo uma gota de chuva, todos fazendo a dança do sol. Saiu ligando para todos os números que tinha e junto com o amante fez uma ronda noturna para a coleta geral de alimentos e roupas velhas. A sede geral de arrecadação agradeceu a entrega normalmente, não era muito, era realmente o mínimo a fazer. E, por dias, ficou a tristeza de não poder chegar a Maragogi, de não se entregar ao seu mar naqueles dias lindos de sol causticante. Tristeza suando sob o sol era um sentimento muito familiar de adolescência. Na idade adulta torna-se um sentimento suportável. A única diferença é que não há mar para refrescar o suor. Falta a linda Maragogi.

Monday, 5 July 2010

Olep Osseva

Euq adrem! Ama olep osseva e edirga... Arp euq ossi? Mu ocuop olucidir, oãn? Airedop racif odalac, rimussa a oãssimo, a atlaf ed otnemitemorpmoc, ed oãça. O euq ue ossop rezaf rop êcov? Êcov reuq omsem amu agimini? Atieridne o ue et oma! Acram aut açneserp arap meuq sahca euq ecerem otnat. Aduja meuq satiderca, ue áj itsised ed ritsisni an etneg, ed rereuq aut oãçneta, uet roma. Ecov uohnag e ue ieres rohlem moc sortuo, men sarev. Sam, rop rovaf? On orutuf, atieridne o eut ue et oma! Áj uogep o ohlepse euq ue et ied? Agep...

'Vamos Ser Felizes? Eu Te Digo De Verdade!'

'Vamos', ele aceitou. Teriam pouco mais de meio mês para tentarem a felicidade próxima. Depois, ela como aventureira que era, iria embora. Ele não se importou, ficaria mas não era dado a bobagens de dar negativas à felicidade. Aceitou. E começaram a ver-se com frequência, falar com vontadedoquisligarporquêsematuavoztámuitochatoporaqui, e não citavam o amor. Citavam a felicidade apenas. Importava o presente, porquê eles sabiam que o futuro deles poderia incluir uma segunda pessoa, uma pessoa de intenção verdadeira. Não tinham cartas na manga, já tinham suas ambições formadas e nenhum dos dois era indispensável às mesmas. Eram seres flexíveis, aceitavam as suas diferenças, exaltavam as suas similariedades. Pegaram a todos de surpresa com tanto carinho explícito que gritavam de longe um 'olha, os dois estão namorando!'. Não era um apenasseconhecendomerdaetaltentandoversedácerto, era pra valer, sem frescuras. Ela no seu extremo de felicidade, falando baixo, quietacalmavouficaraquicomvocêatévocêmorrermeuamor. Ele no seu extremo de atenção, dedicadofinalmentealguémlegalchegouparamedaralgumamor. Fizeram um pacto de não se ofender, de não mentir, de não falar qualquer coisa para agradarem-se, de tratarem-se bem acima de tudo ou calar se não tivessem algo bom o que falar. Conheciam os defeitos um do outro e mesmo assim disseram aquele 'trata-me bem que eu não vou embora da sua vida!'. Não conseguiam tirar a mão um do outro e ficavam calmos quando estavam próximos. Se um dos dois fosse ao banheiro sequer a inquietação imperava, ficava a mão vazia querendo a outra. Não havia nenhuma crise ao redor deles, e os dois mereciam aquele sossego de paz após tantos desencontros. Somente confiança na felicidade presente e que o futuro viesse se tivesse que vir.

Sunday, 4 July 2010

'Desacelera, Minha Flor, Desacelera Um Pouco...'

para Lea...

Dizia aquela nova voz já com as mãos ágeis acariciando os pêlos dos braços dela. Soprava o pescoço fino que ela tinha com atenção enquanto continuava o carinho crescente e ascendente em seu corpo. Ela suava em um misto de nervosismo, uísque e calor e ele perguntou se ela queria água. Ao 'sim', ele levantou em direção à sua cozinha americana do décimo terceiro andar e providenciou a bebida. Ela tirou os sapatos e aconchegou-se no sofá dele como se lhe pertencesse, como se fosse familiar aquele lugar. E já tinha sido. Ela lembrava de cada detalhe daquele apartamento, do problema inicial com a escritura do imóvel, da festa comemorativa da nova moradia e do tempo que já tinham passado lá juntos. Ele voltou com o copo de água na mão e uma garrafa inteira por garantia de aconchego e a beijou segurando-a pela nuca como sabia que ela gostava. O beijo moreno dele continuava generoso, entregue, farto e na medida. Com intimidade, ele desabotou dois botões da camisa de pano dela e com a mão blusa e sutiã adentro agarrou o seu seio esquerdo como se pega a teta de uma vaca. Mas, foi carinhoso com o mamilo falando com os lábios colados aos dela que 'estava ali inteiro'. Ela acreditou. E foram juntos levados na continuação de um beijo que evoluiu para os vários carinhos corporais e para que ficassem nus ali mesmo, naquele sofá duplo. Ela sugeriu o banho que eles tinham como ritual, onde acariciavam-se como se conhecendo cada detalhe um do outro, sem inibição alguma, quando se cuidavam e perguntavam o que tinha acontecido com cada imperfeição alheia e nova que fosse achada. Passaram do banho à cama com a familiariedade que tanto lhes cabia e lá ele engatou seus dois dedos entre o clitóris dela até que ela chorasse. Ele sempre soube fazer muito bem aquilo, sua especialidade no corpo dela. O que se seguiria era a penetração nas posições que ela mais gostasse.. De quatro, de lado, por cima... O foco era ela. 'Eu quero você feliz aqui hoje! Desse lugar você só sai bem tratada', falou ele enquanto a tinha arfando de olhos serrados bêbada de um gozo que chegou no minuto seguinte. Ela o acompanhou no seu prazer com afinco, ainda sob o tilintar daquele pau que podia agora, até sem esforço, fazê-la embebedar-se de 'aahhhhh's mais vezes. Abraçaram-se sem pudor e ele a cobriu fazendo questão de ficar ao seu lado até a próxima manhã ainda sem entender 'porquê você demora tanto para voltar para mim?'. Repetiriam tudo novamente no primeiro raiar do sol, olhando aquela vista do Capibaribe e tendo como testemunhas os pássaros da cidade.

Levantou Assustado Da Cama E Correu Para O Livro De Cabeceira

para Lee...

Pedia, com um livro em uma mão e a chaleira do café em outra tremendo de falta, ajuda encarecida ao Fernando.'São Fernando, por favor, dá uma força com essa dor!' e devorou dez páginas dele, páginas nervosas, enquanto aquela água não levantou a sua fervura. Nenhum alento em nenhuma palavra e repousou o encadernado. Quando da ebulição, levantou novamente, agora do banco da mesa da cozinha, e respirou enquanto o café coava. 'Esse café não coa... essa merda deve estar entupida'. Não era nada de entupimento nenhum. Era somente impaciência, falta, desassossego mesmo. O café levava uma eternidade e pensava ao mesmo tempo na trilha sonora que devia entregar no dia seguinte. Bebericou o café pensando o 'falta um dia, falta um dia... eu preciso me acalmar, eu preciso ligar para ela, ela me acalma...'. Mas, quem era ela? Ela era aquela que passava a mão no seu peito e dizia 'desacelera, meu amor. desacelera...'. E qual era o telefone dela, onde morava, onde estava? Tinha sumido naquele silêncio. E pensou na trilha incompleta, na gravação, na masterização. E sobretudo pensou no seu orgulho ao dizer que iria sempre atrás dela quando lhe conviesse, contudo, não precisava dela. Naquela manhã desesperada notou que o seu orgulho pequeno era de uma idiotice infinita. Quis moldar quem o confortava e sem o feito conseguido preferiu desprezar dizendo que não precisava daquela. 'Puta que pariu, que merda'... Decidiu tomar um banho frio e ao final notou que apenas a temperatura externa do seu corpo havia melhorado. A mente fervia ainda, com uma falta de ar pronto a ser sugado e expelido com um choro que ficou preso como catarro verde, guardado por muito tempo no peito. Fervia pensando no tesão que ela sentia por ele e que tinha jogado algo bom fora, alguém que o queria. Sentou ao piano e tentou passear pelas notas, pelos acordes, brincou de idéias musicais. Nada. E faltava um dia. E só pensava nela, louco para que ela batesse na sua porta para pegar aquele vestido caseiro que ela deixou na gaveta. Sabia que ela não se importaria com um mero vestido, ela nunca voltaria por um vestido somente, ela compraria outro. Só voltaria por um motivo dela e muito maior. E queria ainda exatamente a desculpa do vestido para ver aquele rosto na entrada da sua casa. Planejou xingá-la o mais alto possível pela ausência. Como ela ousou ficar longe, esquecê-lo, quem era aquela qualquer? Todos os vizinhos iriam escutar a humilhação. Ao mesmo tempo pensou que naquele dia, para ele que queria desacelerar, ela era tudo e a abraçaria logo em seguida pedindo com um 'fica?' manso ao lóbulo da orelha, baixo e sincero. Ela poderia ficar como quisesse e pudesse ficar. E começou a lacrimejar notando que ela tinha algum poder sobre ele. Recompôs-se, tentou ter dignidade diante da lágrima. Melhor seria dizer que ela poderia ficar e quando ela aceitasse voltaria a dar uma pequena lição de moral, retrairia um pouco, ia dizer que estava magoado e ela o tinha feito sofrer, que ficou muito mal... Repensou. Não, não, seria o orgulho novamente. Se ela tinha voltado à sua porta é porquê ela o amava. Após a aceitação dela ao seu pedido de retorno, somente agarraria e prensaria aquela boca contra a sua, e ficaria ali até cansar de sentir aquele corpo que o fazia tremer de tanta falta. Parou, respirou fundo. Passou a mão entre os cabelos.... Sentiu o gosto cítrico daquele desespero, preste à insanidade. Passou a mão no telefone sem fio sem hesitar e ligou para a amiga dela. 'Alô, Gabriela? Não, não... Não liguei atrás dela, não... Liguei para pedir um favor a você. Você vai entender quando o ouvir porquê me custa muito dizer... Gabriela, por favor, diz a ela que eu preciso dela. Diz isso exatamente, e que eu amo muito e que quando ela quiser e resolver voltar, eu agarro ela de volta do jeito que ela quiser. Você me conhece um pouco... Fala isso para ela pelo menos? Promete? Vai falar a que horas? Então, a partir das 13h30 você já tem isso tudo dito, né? Tudo bem, tudo bem, vou confiar. Obrigada, Gabriela. Vou desligar, tentar me acalmar. Obrigada. Tchau!'. Pôs o telefone no gancho e começou a andar em círculos, pensou que tinha que se conformar. Teclou a nota dó, repetidamente. Nada. Voltou ao quarto, fechou as cortinas e tentou dormir mais algumas horas. Esperava que o desespero passasse de olhos fechados. Respirando...

Elas Vieram Do Mesmo Lugar

para Sarah...

E viram muitos outros lugares em suas vidas. Antes, eram duas meninas da mesma classe escolar, com pais amigos em comum, com as suas respectivas mães, uma psicóloga e outra sexóloga que compartiam confidências femininas, e elas meninas trocavam papéis de carta ou pulavam elástico como amigas fraternas. Uma amizade infantil que era extensão de uma amizade adulta que, talvez, não lhes pertencesse. Cresceram, trocaram de classe, de escola, de bairro, afastaram-se. Por muitos anos, os caminhos opostos apresentavam-se porta afora, e elas seguiam, nunca hesitaram. A herança dos pais e do local de origem era o despreendimento da liberdade, da ida. Depois, encontraram-se por acaso em uma reunião proposta por uma amiga em comum, uma surpresa de reencontro e viam-se como duas que um dia foram tão amigas que pensavam como uma. A amiga mais alta estava separando-se do seu segundo marido, o cineasta italiano, e fazia um curso de culinária na cidade São Paulo do tal encontro, era uma empresária que tinha morado alguns anos na Itália, planejava suas novas outras sociedades enquanto a profissão de atriz não recomeçava. A amiga mais baixa já tinha separado-se do marido inglês músico há muito tempo e vivia sozinha na cidade São Paulo do tal encontro, era uma jornalista que tinha morado uma década na Inglaterra e que escrevia textos, músicas, cartas de amor aos seus amantes e amigos enquanto as várias profissões inacabadas não recomeçavam. O momento de parada das duas conterrâneas foi o momento da intersecção naquela cidade. A mais alta tinha uma inveja da liberdade da mais baixa. A mais baixa sentia o mesmo pelas sociedades da mais alta. Ironicamente, somente reconheceram-se em meio ao grupo de reunião da terceita amiga por usarem o mesmo óculos de sol. Nem podiam discutir que tinham o mesmo gosto, o mesmo passado, a mesma trajetória por linhas e países tortos. O óculos de sol calava qualquer desavença. A mais baixa propôs uma redescoberta pessoal na cozinha do local de encontro, oferecendo um drink em mãos e perguntando um 'quem é você? nós nos conhecemos?'. O riso da mais alta foi interrompido pela lembrança súbita de que quando crianças, elas serviam-se drinks dentro da casa armada de pano e fingiam as mais absurdas situações brincando de serem outras mulheres, e entrou na brincadeira. Respondeu em sotaque lusitano um 'não, senhora! muito obrigada pela bebida.. desculpinha, mas como é o vosso nome?'. E assim brincaram sozinhas, deixando as terceiras pessoas que comentavam próximas o teor da prosa como um absurdo novo já que não iriam entrar naquela conversa lépida, rápida, súbita, criativa e fagueira de duas que preencheu tão bem o sentimento de saudade por tantos anos vazios e sem aquela antiga troca.

Saturday, 3 July 2010

Os Outrora Amantes Chegaram Ao Bar

E no alto falante Guilherme Arantes cantava 'Marina no Ar'. Ela vestia um vestido fúcsia com os olhos pintados em gravura de khol preto. Ele usava uma bermuda cor salmão e a camiseta branca lhe dava um ar de liberdade. Juntos, tranquilos, sentaram-se para dividir aquela cerveja e conversavam amenidades sem muitas emoções. Concordavam nos assuntos, estavam na mesma página do livro, e sentados próximos à entrada do banheiro inspiravam o olhar invejoso dos que passavam em direção ao mictório principal. Um casal lindo de se ver, vivo. Ele passava a mão sobre a mão dela quando o olhar distante, vago, de lembranças somente femininas, sentava com os dois naquela mesa. A mão dele estava ali firme para lembrá-la de que ele estaria ao seu lado. Ela voltava a sua atenção ao companheiro de discussões e cama, feliz com aquele carinho. Na real, ela queria comunicá-lo que tinha olhos para outra pessoa, para outro destino e que não era mais suficiente aquela mão, mas os beijos dele faziam-na esquecer qualquer argumento. Amava mais o apoio daquela mão silenciosa do que qualquer rumo de mudança, porém, perguntou-se se a inveja dos outros àquela união não era o que a prendia a ele. A sensação de poder que tinha em ser a parelha do homem lindo de camiseta branca e que entregava-lhe a mão. Será que teria o mesmo poder sendo única, fúcsia e sozinha? Via-se acomodada e cada vez menos admirava-se. O que era essencial, de mais valia, necessário naquele momento? Ser um par seria realisticamente ser um ser inteiro? Quem tinha dito aquilo? E quem repetia tudo isso? Esqueceu o momento de reflexão. Em dupla, ali, recebia amor e compreensão e só o fez retribuir. Era o mínimo a fazer pelo homem lindo, cobiçado. Acabaram a cerveja fraca, voltaram para cama após escovar os dentes no espaço comum aos dois e dormiram. E, em liberdade e hibernando, sonharam cada um o seu sonho mais distinto, colorido, longe e sem o outro. E queriam nunca mais acordar do sonho mais desejado. Nem sequer para o dar das mãos.

A Alquimia

A transmutação dos sentimentos, o enriquecer do fracasso, a observação do simples, tudo, enfim, estava representado naquela tarde e naquele parque. As árvores frutíferas e frondosas todas repletas e fartas, as frutas caídas e podres ainda ao chão, os grilos sem descanso, as penumbras da meia luz já chegando, os corredores, o pipoqueiro de camisa branca e chapéu de sol e as crianças felizes. Todos estavam ali. A vida simples e amorosa do parque em equilíbrio fez o indivíduo querer o parque eternamente em sua mente. Queria a riqueza daquela luz, o calor daquela temperatura, o preencher daquele entorno, a capela protegendo, as árvores dando sombra, a disputada pipoca comprada com centavos que matava a fome, uma bola leve e colorida de plástico e o balão da fantasia em forma de coração para reviver o sorriso. O balanço era a aventura mais concorrida, os pequenos amam a doce aventura do alto e do baixo, o vento ao rosto, o leve frio na barriga sem pés ao chão. Os maiores brincavam com os maiores, os menores com os menores. Alguns maiores tinham a obrigação de irmãos mais velhos e tinham que brincar com outros menores sob a observação de um dito responsável. O lago com os patos e com o único pedalinho inspirava a fila dos que queriam passar 'por cima' dele, navegar por um segundo com patos ao redor, os patos que observavam os seres maiores que os mesmos apenas em tamanho, não em habilidade náutica. A pista de corrida ficava cada vez mais cruel a cada volta que lhe era completa, muitos suavam bicas no esforço do exercício. Quanto mais corriam, mais suavam. Os que escolheram fazer um piquenique liam seus livros com tranquilidade, satisfeitos com o momento de interiorização e paz sobre uma grama verde. O quiosque da água de côco tinha a maior rotatividade com todos os sedentos daquele elixir da vida, daquela água maravilhosa e jovem, queriam ser revigorados. O indivíduo quis somente um parque acolhedor em sua mente. Um parque simples, de aventuras simples como a do mecânico e fluido balanço que deixava os inocentes tão felizes. O parque amoroso, simples e tranquilo que transmutava o fel no mais saboroso algodão doce fazendo a alquimia do pensamento.

A Figurinista, O Cineasta, O Designer, A Cantora, O Baixista, A Artista Plástica E O Auditor Fiscal

Olharam-na de longe e gritaram um 'tá fazendo o quê aí? vem cá, fica junto!'. Obedeceu. A estranha explicou a data de chegada inicial e posterior, o motivo, onde estava, como estava, o que pensava e ficou em silêncio. Um deles disse que 'aquela mulher da porra' já estava no caminho certo quando calou ao final. Justificou com o ditado do dar pérolas aos porcos, e mandou escolher antes de tudo um pescoço mais bonito para enfeitar 'com o seu amor, palavras e luz'. Queria dizer que a inteligência criava muita confusão, aquele item perigoso que contestava mentalmente as vozes afáveis que falavam besteiras. A única diferença estava no tom de voz. Invejou as de burra existência por 17 segundos contados. A figurinista em férias, após o silêncio da estranha, disse que o 'preconceito era foda' e que não adiantava falar muito, era somente perceber e tentar jogar o jogo. Citou a falta de negros nas peças teatrais para as quais fazia o figurino na grande cidade, e junto com a estranha enumerou todos os grupos teatrais daquela cidade que tinham negros em cartaz. O designer perguntou quando ia ver a estranha vestida de empregada doméstica nordestina e todos riram. Ela acenou um 'logo, logo' para a empregada doméstica mais inesquecível já vista e riu lembrando da instrutora espiritual de cinema que a indicaria pela sua combinação de 'franjinha e sotaque'. Tudo no final resumiria-se a isso. Gargalhou alto pensando que tinha que malhar muito para pôr a bunda no lugar e ser uma empregadinha completa. A artista plástica reafirmou o segredo do silêncio com um 'não adianta falar', implorou peloamordedeus que deixasse os tão sábios fazerem o 'melhor' e que ficasse calada fazendo o seu apenas. 'Um dia eles vão vir elogiar a sua cultura', completou. Já estava nessa correnteza de pensamento há algum tempo, o aviso nem era necessário. O auditor fiscal mudou o tom da conversa e pediu a estranha em casamento quando ela citou a lição que tinha aprendido com Spinoza e disse 'repete, por favor, vai?'. Ela repetiu citando que 'as paixões tristes todas estavam ligadas à sensação de poder, e as paixões alegres todas estavam ligadas à sensação de potência'. O auditor estranhou a solidão da estranha e acusou como o dedo em riste que 'tinha alguma coisa errada' ali. A estranha completou que não teria companhias castradoras, ensinadores de lições de vida baratos e recusou a oferta de casamento pois todos os homens só queriam mesmo era afundar uma mulher forte, domar a fera após duas semanas de romance inicial. Admitiu, porém, que sucumbiria ao que a elevasse ao posto mais alto, o que desse mais crédito naqueles tempos escassos. O baixista riu e disse que era uma pena já estar casado com a outra cantora da mesa, senão faria isso ali, naquele momento, 'agorinha, mesmo', carregaria a estranha com as pernas gordas ou magras entre o seu pescoço por longa distância. Até cansar. A cantora completou a afirmação do companheiro dizendo que deixaria porquê pelo menos era por uma mulher que valia a pena. Todos olharam a estranha por um tempo e a cantora de facto propôs um beijo coletivo na mesma. Cada um levantou-se da sua cadeira e a beijou como se fosse o seu aniversário. O cineasta, amigo de duas décadas, concordou em ouvir a proposta da estranha e falou do prazer que teria em sair para tomar um, dois, três, mil cafés com ela pela satisfação que tinha em revê-la. A estranha foi ao banheiro e entre a enrolada de um papel higiêncio de papel reciclado e furado em mãos agradeceu ao teto sujo do recinto pela alegria de um momento conjunto, pelo impulso de potência recebido. Sussurrou um 'esse Spinoza era foda!' e deu descarga liberando o espaço para a fila de mulheres que, talvez, teriam a mesma iluminação naquele banheiro sujo de rua do centro da cidade.

Friday, 2 July 2010

A Mau Caráter, Raivosa, Louca, Estrela Imaginária Que Precisa De Um Tratamento Sério

Constatou que todos os que se dizem médiuns, na verdade, podem ser até facilmente seduzidos por uma oportunidade de trabalho. E clamariam isso sem ética publicamente. Entendeu a vida inteira em sua lucidez que a difamação dos outros clama por uma loucura vinda da sua presença. Presença forte, com voz, com corpo pero louca. Era como qualquer mulher que quando chega perto da verdade é chamada de louca. Todos têm e tiveram o mesmo discurso, um recurso até bem velho esse, sempre reutilizado. Nunca tinha visto um abacaxi ser tão elogiado e automaticamente perdeu todo o respeito pela rasgação de seda. Oportunidades são somente futuras e presentes oportunidades... Deu sua vida, suas histórias e a entrega completa, esteve presente em corpo e mente, deu o vácuo entre as pernas, a batida da sua pulsação acelerada, a distonia das palmas das suas mãos, ficou disponível a qualquer associação, contudo, foi a egoísta-mor. Notou evidentemente que o propósito de tudo era a destruição do seu ego que incomodava como um elefante branco, mas a abordagem foi muito superficial para alguém que sabia sozinha mais do que qualquer pessoa dos seus próprios problemas. Sentou, ainda sozinha e não mais mal acompanhada, e sentiu a falta daqueles que tinham entrado na sua vida. Sentiu com uma força que paralisou. Ficou imóvel por minutos sentindo. Tentou dormir na travessia dos estados físicos e de mente. Chegou na cidade maledicente, que a entendia tão bem, e foi recebida com infindável amor. Amortapanacaracomoeuteamocaralhonemmeimportaquemnãogostadevocêlinda! Nem adiantava ela tentar ofender. Os anos tinham passado e era assim agora, eles a amavam porquê tinham confiança de que a 'louca' era confiável e não compactuaria com algo qualquer somente para obter uma sobremesa ao final de uma refeição. Pensou, então, que tinha o mais importante: a consciência limpa. Entregou na palma da mão aberta a sua essência. Sem vergonha, era mesmo uma sem vergonha na cara. O problema era de quem não entendeu. Percebeu que o bastidor de sacanagem sempre teve o pouco valor do começo. Como foi proposto. Considerou que poderia até não ter aberto a porta da sua casa para aquele bastidor de uso, mas já era tarde demais. Não teve orgulho do bastidor, do uso, da cena. Quis esquecer aquela dor, lamentando o desfortúnio dos seus sentimentos perdidos, caindo no ralo como uma aliança cara, chorou por dias aquela perda. Poderia ter economizado amor para outra pessoa que realmente e livremente o quisesse. Decidiu engolir a seco aquela perda e deixou o grupo facilmente seduzível e todos que queriam ou ganharam o tal 'papel' para trás. Beijou a lona rodeada de amor, pelos antigos que a viam agora 'maislindadoquenuncaquaseirreconhecível' e espirrou com a poeira trazida pelo tempo em que aquele amor ficou embrulhado em papel reciclável. Estava, na verdade, curiosa para conhecer as novas faces, constatar se ela poderia ver alguma verdade em algum rosto. Decidiu-se por aperfeiçoar a sua essência sem dar tiros no próprio metatarso. Não se maltrataria. Não se pode ganhar todas as partidas e aceitava a perda daquele grupo dando-o ao ar, como dá-se um barco de papel com um pedido ao mar. Liberando cada um ao seu destino longe. Bebeu da água pura dos que passavam a mão na sua cabeça com carinho. Não foi em nenhum momento louca, egoísta ou mau caráter, somente não deu a quem nada nunca ofereceu porquê não acreditava em impunidade. Escolheu não compactuar somente para ter um caminho fácil. Agradeceu o livramento das dubiedades e o aparecimento da claridade. Agora vestia vermelho, rosa e laranja. Emanava amor ético, pronto a ser trocado e não perturbou-se com a falta de compreensão. Entendeu tudo claramente. Começou tudo de novo, nua, com gosto de sal recém-saída do mar revolto e todos a olhavam. Estava melhorada. Como numa versão nova e 3.0. Inegavelmente: melhorada, lúcida e livre.

Friday, 25 June 2010

A Profunda, Profunda, Profunda Vergonha

É a ressaca mais filha da puta. Nem é preciso nenhum tipo de etanol. Experimente acordar com a cara tratorizada, uma olheira enorme, uma ruga na testa, uma humilhação de boca aberta. É pura dor, uma vergonha intensa, clara, límpida na sua frente. Não há como fugir. Imagine todas as pessoas da qual você tem vergonha de ter se envolvido, ou sequer sabido o nome, em uma sala de espera de consultório prestes a serem atendidos. A culpa foi sua ao abrir aquela porta. Todos os protagonistas e os associados, e os que foram atraídos por eles também. Mãos apreensivas, eles quase irão entrar em sala. Na sua sala. Imagine agora que você pode trancar a sala de espera, e ninguém mais poderá entrar mais no seu espaço. Resolvido? Não. A profunda vergonha chega... Todas as situações propostas por aquelas pessoas foram de uma falta de intenção imensa. Momentos embriagados, entorpecidos, sob o efeito de remédios de farmácia, distorcidos e negados no dia seguinte, fingidos de racionalidade. Ainda bem que o seu sexto sentido de bom senso não deu um nome a ninguém, a nenhum daqueles, não apresentou a nenhum ente querido. Seu resquício de bom senso não deu importância até que a importância se provasse com atos, o que nunca aconteceu. Foram só papinhos. E ninguém perguntará por eles nunca mais. O estrago é menor? Não... E ainda existe a vergonha. Você sabe o nome, os nomes. Olhará cada um destes nomes no futuro e fechará os olhos com a mão na testa tentando desfazer a lembrança. Profunda vergonha. Não existe mais ódio, raiva. Pura vergonha, sim. 'Presente!', ela grita! A dor é foda. Não olhe-se no espelho por alguns dias. Não é viável. Lembrará da vergonha de dar qualquer pensamento, confiança, atenção, porta aberta, palavra, 5 minutos a uma destas pessoas. O prejuízo de comprar novos móveis para evitar a lembrança será financeiro. Não conheceu uma pessoa decente através daquela relação, não teve nunca um pensamento calmo e confiável naqueles meses por mais que tentasse começar do zero por tempos diferenciados, sempre soube que era o tipo de relacionamento mais previsível que teria, não existia racionalidade alguma, nenhuma modernidade, era fetiche puro, imaginação de louco, já tinha visto aquele filme. Só que os outros filmes eram de uma cultura a acrescentar. Mas, pagou uma segunda sessão para rever, teve fé. E vai ver aqueles nomes e correr, cruzar a calçada, sussurar 'putzz...'. Profunda vergonha de ser crédula. Profunda, profunda, profunda, profunda, profunda, profunda, profunda vergonha!

Wednesday, 16 June 2010

'Tá Se Valorizando, Hein?'

'Não que você não mereça, o seu valor é atávico... Mas, abusou!', ouviu. Pediu obrigado por ser liberado. Se não fosse liberado, quem sabe a ação não constituiria como um abuso. Falou que talvez fosse o tempo errado. Somente isso. Quis saber se quem liberava estava bem com a decisão. Ao ouvir um não, torceu pelo bem. Disse que antes de ouvir a liberação estava com saudades, tinha comprado algo que ainda ia passar para dar, que conheceu alguém que poderia gostar dela, e que tinha gargalhado sozinho na rua ao lembrar do fornecedor de água mineral que a confundiu com uma locutora de rádio pela voz. 'Lembra o que ele te disse? Siga aí em frente com essa voz, é linda! Eu acho que vou repetir o que ele disse. De longe...'. Prometeu passar para dar um último beijo, um abraço, um afago apropriado. Desculpou-se por não dar o mínimo de atenção, não ter passado em uma farmácia sequer para ajudar. Na verdade, confessou arrependimento, não queria ser igual aos do passado que conheceu, jurou amor. Informou o dia que voltava, quando passaria para o tal 'oi'. Falou do passar do seu dia já em tom de amizade. Já tinha que desligar a ligação. Despediu-se de tão longe e pediu para vê-la assim que chegasse. Ficou sossegado com a afirmativa. Deu uma vontade de chorar. Não chorou. Embutiu, embargou e retraiu. Disse que tinha que subir para fazer o seu. Desligou lentamente, e aquela volta ficou no ar, com dia, data, hora e aceno marcado. Se não aparecesse seria procurado, com certeza. O valor próprio não era o principal, mas era uma fatia do bolo inteiro de problemas. O tempo errado. Talvez, fosse isso. Ou fosse valor próprio.

Monday, 14 June 2010

A Volta

Daquela mala e mochila azuis tinha o cheiro delicioso do longe, da outra cidade. De dar inveja, o desbravador voltou cheio de estórias, beijos, luz de palco retida nos olhos e sensações. Falava sem parar, queria conversar, dizer, mostrar, deslumbrar quem não poderia se deslumbrar. E nem notou. Viu que quem ouvia respirava pela boca apenas e passou a mão na cabeça da 'doentinha'. Usou o pecado mortal do diminutivo. Preparava-se para partir mais uma vez e ainda falava, tinha muito assunto. Não fez uma pergunta sobre o passar dos dias da 'doentinha', quem tinha passado por ali, o que tinha acontecido. Preparava a partida e preocupava-se com o sapato que deveria usar no evento. A roupa não estava boa, mas ele não escutaria aquela que tinha pó de serragem na garganta e falava arranhado. A afônica pensava um 'pergunta, vai?' olhando ele preparar a mala mais uma vez e queria até dizer algo importante. Sem esforço, deixou o desbravador ir embora. Deu mais uma chance ao sem ouvidos somente por não ter voz. Fez um chá de gengibre, limão e mel como o outro tinha ensinado e foi dormir sozinha.

Sunday, 13 June 2010

Culpava A Narcolepsia

Agia em puro estado de sono. Automático, no automático ao dormir amava, mijava, andava, trepava com a sua mulher e ao acordar não lembrava de nenhum ato. Vivia plenamente o seu estado de coma. E culpava a narcolepsia pelo vazio do acordar. Notou que os portais estavam abertos. Algo mudaria gravemente o seu entorno. Iminente sensação, tentou fugir, fazer uma carta de despedida, correr. Respirou e ficou. Acordado, um dia sentou-se ao lado da mulher de vestido de crepe verde no ponto de ônibus e perguntou se ela via o que ele via. Ela dizia que não. Mas, insistiu e perguntou se ela, pelo menos, entendia. Ela disse que sim, pediu parada e entrou no ônibus qualquer. Ela não entendia nada. Aliás, era um jogo. Se a pessoa dissesse que tinha entendido, era porquê tinha mentido feio. Não havia o que entender. Após a saída da mulher verde, lembrou-se de quando era um rapaz onça e tinha o balancê de quadril ao andar que encantava as mulheres quando ele passava. Ali, naquele tempo, a narcolepsia não era um problema evidente. Ele lembrava de todos os seus atos, e agora nem tinha certeza de que a mulher verde não o conhecia realmente. Talvez, aquela mulher já o conhecesse, e ele nem confirmaria aquela incerteza. Achou no meio de tanto sono em vida perdida uma que o tinha com prazer por perto, mesmo que dormindo. Queria que os portais do novo abrissem todos ao mesmo tempo. A succção de ar destas aberturas o teria desaparecido do comum com a velocidade de um F5. Queria sumir em um ciclone tropical e voltava ao número 412 pois todos que querem ir têm o prazer em falar com os que não exigem a ficada. O problema real era a narcolepsia. O estado de sono constante, inerte, inativo que o impedia de ver o rico vivido. E culpava a narcolepsia sem cessar. Narco filha da puta.

Wednesday, 9 June 2010

A Chave

Foi o presente mais íntimo que alguém poderia receber. Sim! Uma chave antiga e usada! Um ouvido, alguém escutava na face desse Universo. Graças a Olorum! Uma pessoa que ouve tem um valor imenso, imensurável. Já diziam todos os treinamentos de novos profissionais internacionais e melhores amigos. Se todos querem falar nesta sociedademodernademerda, quem ouve é reirainha! A chave veio de um armário antigo de casamento da avó mais querida e lembrada com saudade em uma roda de três amigas queridas. Avós são segundas mães e indiscutivelmente especiais. A chave representa o quê? Pelo amor de Olorum! Pensesozinhoquevocêjáégrandinho... Aliás, existem três perguntas que nunca se devem fazer na vida: 1' o que significa esta tatuagem? 2' o que quis dizer este texto? 3' o que quis dizer a letra dessa música?... São as três essenciais não-respondíveis. Não falo dos filmes, da peça de teatro. Por favor, instiguemos a subjetividade, a compreensão de texto, a liberdade de expressão. Assim, qualquer chave que abra tudo guardado não estará empenadaemperradamalfeita. Abrirá! Como diz Jorge: tem que abrir, abrindo! A chave foi o presente mais especial que uma qualquerninguémàtoa poderia ter ganhado. Obrigada tanto!

Os Herdeiros Da Escola De Frankfurt

Se foderam! Tiveram que admitir que todos os seres humanos, aofinalnofinalafinal, querem 'o amor, e serem amados'. Não adianta a razão mais culposa, idiota, assassinadisfarçadadeverdadeira, ou o que seja.... No final, de tudo, de toda a modernidade, o que seria raro seria somente o amor. Seria esse o produto de consumo preferido. O dia dos namoradosvalentines seria em duas datas distintas o mais festejado após o consagrado ano novo, logicamente. E se você se cansasse daquele amor, ou tentativa do mesmo, a substituição seria o caminho mais certo. Porém... O que você faria com o tesãoconversaempatiaafinidadeafetoadmiração inerente ao seu par, se ele não o tivesse? Simples.. Procuraria outro! Ah, se um pudesse comprar amor, dedicação... Se pudesse não oferecer nada, sumir, desaparecer, embriagar-se e xingar, sumir, voltar, ficar por algumas horas e depois somente clamar: PORRA, ME DÁ ESSE PRODUTO QUE EU PAGUEI, CARALHO! Opa... Ainda bem que não! Não é bem assim a história. Esforço é imprescindível, meu AMOR! O amor requer uma declaração inicial. Pública. Megafone no microfone. Alto! Claro... E decidida... Aí, um acreditaria e sucumbiria. Do contrário, os da Escola de Frankfurt pensariam duas vezes. Tipossimquenãoexistegramaticalmente : que porra ínfima é essa? Diante de tanto ceticismo, o amor levaria mais. Não seria fácil. Não seria um botijão de gás pedido a domicílio. Seria uma eleição para presidente a cada 4 anos, com sorte, uma nova chance de mudar. Isso se não houvesse reeleição, meu caro. O amor pode ser essencial. Mas, secreto ele não serve.
Quando se ama, grita-se com um megafone ao microfone. Alto! Com intenção, e sem esperar muito. Ama-se porquê sente-se que é certo amar. Somente isso. Simples assim, já disse F. e Recife inteiro! A Escola de Frankfurt tomou no rabo, mas somente reconhece amor com verdade, insistente e coerente.

Tuesday, 8 June 2010

A Espera De 21 Dias

É insuportável. Por favor, chegue logo amarelolistradonovo, seu inanimado! Cada dia de espera por você é de uma agonia infinita. Você sabia que o dia tem 24 horas, com 60 minutos cada e nem falaremos dos segundos. Por quê você demora? Venha logo, chegue aqui. Queremos ouvir o tilintar das moedas ao comprar do último café da sua partida e chegada. Sabe quem te espera lá? Quem te chama por muitos dias. Vai?! Vem?! Ou, só vai! Não olha para trás. Deixa o troco do café por lá. Um dia lá na frente, se você precisar, você o terá. Mas, por hora, chega logo. O sol vai fazer aquela festa, sabia? Vai chegar um momento que no meio da sua estadia você nem vai acreditar que tudo aquilo é para você. Vai?! Vem?! Ou, vem logo! Vai ser tão verdadeiro que você vai chorar de dor, soluçar até. Ninguém disse que seria um mar de rosas, mas tem mar, sim! Ele é azul pálido e fica a 25 km do ponto da sua chegada. Adianto uma coisa: vão te fazer várias perguntas sobre a sua ausência. Seja generoso, amarelolistradonovo! Eles não sabem o que fazem. Na sua chegada, fique em silêncio. Absorva o ambiente. Sinta como melhor proceder. Já, também, não há porquê ter medo do novo. Não invente desculpas. Seria pequeno e de mil passos para trás somente. Não cite táticas de guerra umpassoparatrásdoispassosparafrentecoisaetal. São frases ao ar. Não há tempo para isso. Desça o tobogã! O frio na barriga faz parte da passagem. Quando você chegar pode ser que te tratem até mal. Presta atenção nisso! Será que você fez algo? Ou somente existiu silencioso sem atenção por ninguém? Segurança própria ofende, sabia? Está no limiar do desprezo alheio. Assuma os seus erros com assertividade, peça desculpas e não se culpe por bobagens na sua estadia e chegue logo. Encare as caras. Fique em silêncio, tenha parcimônia. Você se ausentou por algum tempo, deixou vários sofrendo sua falta, quantas mensagens e pedidos de volta você recebeu em meses? Silêncio! Acaricie os saudosos. Vá ao mar com eles e espirre água de alegria nas suas caras. Mas, chegue logo. 21 dias é um infinito de tempo. Amarelolistradonovo, meu amor, chegue logo! Dessa vez, vai ser fantástico! Acredite!

Pó De Galáxia

para o Cavaleiro Galaxiano...

Era o que eles tinham nos bolsos. Andavam pesados de pó de galáxia, todo guardado nos bolsos, e, às vezes, borrifavam um pouco pelos lugares antes de ir embora. Entregavam o ouro. Os que ficavam e viam o pó ao chão exclamavam penosos a perda da oportunidade em interagir com o povo galaxiano. Ela, de tiara de couro e moedas. Ele, de armadura de inverno cobrindo o tórax e o cabelo preto, em caracol maleável. Juntos, encontraram-se por acaso no terreno descampado e olharam-se em forma de duelo. Puxaram as mãos com os punhos fechados frente aos seus rostos, cada um oposto ao outro, prontos para o sopro. Os punhados cheios do encantador pó de galáxia. O pó era um presente do lugar de onde tinham vindo. Eles cogitavam a possibilidade do outro ter o tal pó armazenado igualmente, mas acreditavam-se, quiçá, especiais e únicos. O outro não o teria no bolso. O encontro naquele descampado pelo qual passavam todos os dias foi súbito. Quase não se reconheceram. Cruzaram-se em caminho contrário e os braços opostos levantaram-se no transpassar de corpos e reconhecimento de um segundo, 'oh, você!', já distantes e as pontas dos dedos tocaram-se nas digitais, quase indo embora. Dançaram uma valsa por uma fração de milésimos de segundo. Voltaram na dança. Juntaram-se. O abraço da saudade de meses sem o olhar do compatriota galaxiano. E ao soltarem-se e quase seguirem adiante nos seus norte e sul pararam e, ao mesmo tempo, disseram um 'ei! olha!'. Juntos, de novo! E o tempo parou. Ficaram ali petrificados. Um no olhar do outro. O tempo pedrou. Nenhum dos dois poderia mais soprar o punhado do pó de galáxia encantador na cara alheia. O tempo tinha pedrado. De repente, acordaram em seus 'habitats' como meros bichos, sozinhos e pensaram ter sonhado. O dono da galáxia os tinha movido como peças de xadrex e cada um voltou ao início do tabuleiro. O xeque-mate ainda não aconteceria naquele descampado. Teriam que percorrer todo o tabuleirolabirinto até travarem um novo duelo de punhos. Agora, andavam pelas ruas do universo perambulando em luta de sobrevivência. Porém, na dúvida do sonho ou realidade passada, ao sair de cada recinto que estavam, após despedidas quaisquer, voltavam o rosto e revistavam o local fuçando com os olhos, por garantia de uma última olhada. Só para ter certeza de que o dono daquele 'ei!' não teria passado desapercebido por sua presença. Sempre, no final da mente, procurando o adversário daquele duelo galaxiano interrompido.

Monday, 7 June 2010

ELE

Foi um contínuo engenheiro eletricista aposentado pela mesma empresa do seu primeiro estágio empregatício somente aos 47 anos. Vive ainda por mais 20 anos sua vida em casal e continua trabalhando. Não admite ficar obsoleto, tornar-se um 'em casa'. Foi ator de um grupo mambembe que rodava o nordeste em um caminhão e chamava-se o 'déficit'. Somente para dizer ao povo o que aquilo era. A 'inflação' era a sua mulher-namorada, com uma filha distante, na época. A 'inflação' era 'neguinha', abandonada por um músico e tinha uma filha muito hiperativa. Ele era casado com uma outra mulher judicialmente que o trocou por um 'negão', mas que o cobrava pensão até os dias de hoje. Então, 'negão' por 'neguinha', tudo lhe cabia. A 'neguinha' atriz era cobiçada por muitos com seus cabelos cacheados, vaidosa, ambiciosa, sonhadora com um marido, com a liberdade infinita e ilusória de uma mulher com uma filha abandonada. Uma 'neguinha' livre, sem compromissos era o que ele queria. E adiou por anos ter a filha da 'neguinha' em sua casa, uma família não era o plano, já tinha virado lídersindicaljustacausajáanos80, e um filho atrapalharia seu trabalho. Quando teve a filha da 'neguinha' viu que era tudo que ele mais queria. Ensinou-a a fazer um bom bacalhau português todos os domingos, ler o melhor livro e descartar textos vaidosos, corrigia os textos dela sem piedade a lápis e borracha em papel sofrido por três vezes até ela voltar com um 10 da professora, ensinava química, física e matemática todas as 18h da noite a cada seis meses, para a burra menina dos números e especialista em letras e música naqueles tempos. Comprava leitura daquela menina e fazia prova oral antes de dar o dinheiro pela descoberta dos livros clássicos brasileiros. Fez boca de urna vários anos dentro da própria casa somente para ter um candidato do PCdoB ou PT no poder, quando todos eram pêfêlê. Para aquela menina ao seu primeiro aniversário, deu um boizinho do Maranhão - sua terra natal. Antes da menina, que tinha virado mulher formada, ir embora falou em tom baixo e veemente que 'existem homens que somente querem tirar o brilho de algumas mulheres e dominá-las - pense nisso!'. A menina nem escutou, entregou o diploma e foi embora - estava livre. Sua família no Maranhão esperava ter aquela casa que ele comprou para ele sozinho como uma do patrimônio familiar 'de lá', com aquele mezzanino todo na cidade histórica.... Ele surpreendeu um dia e disse que 'casou com a neguinha e doou a casa para a filha postiça, adotada há apenas um mês atrás'. Isso 20 anos após conhecê-las. Aliás, sempre foi FILHA, nunca postiça. Era odiado na cidade maledicente pelos artistas por ter parte com a empresa que aos 67 anos ainda o empregava como 'o mais competente diretor nacional', já que não se envolvia em patrocínio de projetos artísticos de 'picaretas' e negava 'dedo de ajuda' aos mesmos. Se a filha e o pai da filha não tiveram nunca, porquê outros teriam tão fácil? A filha adotada herdou o ódio de muitos. Mas, os dois juntos nunca herdaram o ódio do pai biológico da menina. Ele era grato em vida por sua filha abandonada o tê-lo. Ele a deu tudo. Foi o único que nunca fugiu. Livros, roupas, viagens, palavras, ensino, cartão de crédito, chave de casa, posse de casa, liberdade, esporro, conselho, desprezo por sua covardia, tudo, amava-a incondicionalmente. Amava com briga-sem briga, erro-sem erro, doença-sem doença. Aos 67 anos, ficava feliz imensamente em somente ouvir um 'eu te amo'. Era suficiente. Só queria que ela ficasse feliz da forma que a conviesse, sustentando-se por suas próprias pernas, sem 'homens invejosos'. Se ela precisasse de uma agulha ao vivo, ele ligaria dizendo 'compre uma passagem e venha que eu lhe dou'. Era a segurança que a menina precisava e não haveriam substitutos nunca. É o melhor pai do mundo.

Sunday, 6 June 2010

'Me Escreve Uma Carta De Amor?'

Au au, meu gosto de framboesa, delícia de maracujá, azeite no pão, primeiro cafezinho das 9 da manhã, sauna de 80 graus, chiclete de tutti frutti, 'tuttifruttiôurube paraparapimpaumparabembum', jambo no açúcar, manteiga no croissant, guminola de urso, coca zero, vela no escuro, aquecedor em noite fria, assento de ônibus leito, bolo de rolo, pamonha cozida, moqueca do Yemanjá, feijão preto quentíssimo, açaí com granola e morango, mussarela de búfala, rúcula verdíssima, mar de Maragogi, microfone de estúdio, brigadeiro de panela, moletom após banho frio, bicicleta descendo ladeira, livro debaixo do edredon, chá de hortelã, sorvete de nata goiaba, fettuccine de filet mignon, suco de abacaxi, meu pão de queijo de belô, ... minha delícia completa. eu vivo você, vivo amando você, vivo, meu amor!

Saturday, 5 June 2010

Poker, Juros, Commodities, Ações

Todas as maneiras de lucro não satisfaziam mais aquele branco jovem de gravata azul escura e terno thecity azul listrado. Sentava no seu Saab com bancos acolchoados de couro em todas as 21h da sua vida e entrava em crise a caminho de casa. Sozinho, GPS, Control panel, CD on! 'can you hear me major Tom? can you hear? here I am floating on my tin can...'... Não sabia se cantava o resto da canção, se estava mesmo sobre a lua. Antes estava sobre o mundo, era o soberano. Quando chegou sobre a lua ficou em dúvida com a sua autoridade. Tão serena era a lua. Não sabia o que fazer com a serenidade. Pagou a taxa de congestionamento e seguiu para o seu apartamento individual. Chegou em crouch end no final de tudo. Descansou as chaves de locomoção, pegou o telefone e discou à longa distância procurando voz, cuidado. Telefonou para Brisbane e São Paulo. Ninguém atendeu. Ferveu a banheira, deitou-se por trinta e cinco minutos. O celular vibrava sem parar. Eram todos os companheiros da noite àvidos pelo líder. CD on! 'planet earth is blue and there's nothing I can do'... Dormiu rápido, estava exausto, desligou o piloto automático. O vapor da água quente relaxou o seu músculo mais tenso. Acordou do breve relaxamento. Pensou em Brisbane e em São Paulo uma vez mais.... Amarrou-se a uma toalha e tentou novamente as chamadas à longa distância. Ninguém atendia. 'your circuit's dead, there's something wrong. can you hear me, major Tom?'.. Telefonou novamente. Ninguém. De novo. Nada. Novamente.... 'your call could not be completed, please, dial again...' Precisava do calmante, daquele colo feminino, de um calor humano ou sintético. Apagou as luzes, e ligou a luminária de bolhas azuis e verdes. Cachimbo, isqueiro, papel alumínio, cloridato ao avesso e compulsão. Agora, no espaço, ainda chamava pelo comandante Tom, em viva voz. Não tinha uma cifra em mente, uma conversão monetária qualquer. Pensou em dedos entre os seus cabelos, no toque macio das suas costas, no beijo no rosto que lembrou, no entrelace das mãos, em tudo o que não tinha e que o cachimbo mais sofisticado agora trazia. O momento de amor foi pouco. Recobrou ação imediata. Telefonou novamente para os mesmos números. Alguém? Não. Repetiu a dose................ E repetiu.... E exagerou. Mas, serenou. O testamento assinado chamava Brisbane e São Paulo, como sempre. Finalmente, os telefones foram atendidos. Tarde demais.

Friday, 28 May 2010

A Amizade Delas

Era invejável. Olhavam fotos e comentavam personalidades alheias. Identificavam quem estava no fio da navalha em dois segundos. Assumiram amor, e desejos de morte e outros quaisquer olharam envergados com as mãos no queixo. Saídos do prédio de esquina da KGB em Moscou, diretamente para o convívio delas. A distância entre elas pouco importava, o entendimento era completo:
'Não se preocupa, eu não confundi!' - 'Eu sei, você não fez isso. Outra pessoa fez.' - 'Eu vi, eu notei. Mas aqui estamos seguras.' - 'Queria que não houvesse culpa por consequências, elas aconteceram, acontecerão. É natural!' - 'Sei... Não fico culpada, não. Seria chamar você de incapaz. Incapaz de tomar uma decisão.' - 'As pessoas são loucas, imaginam coisas incertas. Não cai nessa. Eu te vejo. Aceito!' - 'Eu sei, eu confio. Confio muito em você.' - 'Amo você!' - 'Eu amo muito você!'.

Lambida De Gato

Sentida de baixo para cima. Gato baixo querendo subir e lamber. Lambia, arrodeava o sofá e roubava a carne da cozinha. Roubava a comida. E ficava com fome após a lambida. Gato ladrão.

A Neta Do Escritor

Morava no apartamento 203 de um prédio caixote no centro e seguia há anos a sua carreira e vida disciplinar e acadêmica. A possibilidade de fechar-se em um apartamento e sair diretamente na boca do centro da cidade a rendia. Era o lugar certo para a morada daquela ora Coré, ora Perséfone. Oscilava entre períodos de depressão e normalidade, como qualquer mulher que trabalhava em proporções exageradas e nutria decepção pela vida moderna. Fazia uso do sobrenome materno por ter um pai e um avô transgressores no mundo literário, e assim então, evitar a perpetuação da outrora zombaria da infância vinda através daquele sobrenome paterno que atraía tantos julgamentos antecipados. Ao mesmo tempo que sentisse pena por ter aquela ligação com alguém que convidava ao constante ódio dos 'cortiçados de mente', tinha plena consciência de que não poderia nunca ser uma mulher qualquer por carregar aquela descendência. Amava escrever em silêncio e continha a sua verborragia por vezes, ainda que ali morasse a sua força. E por conter-se sentia-se atada. Camisa de força preta e falta de ar. Os de carapuça aos pés urgiam que ela a vestisse rapidamente caso a lessem. Umas velhas senhoras analisavam a sua escrita e diziam que 'aquelas palavras não eram criatividade, e sim loucura pura de uma mulher'. Pura assepsia de pensamento daquelas. Pura censura. Como aquelas senhoras, haviam muitos seres que confundiam escrita com personalidade, assim como personagem vilão com o intérprete do mesmo. Saía e ouvia ofensas, pois os que queriam um mundo em paz absoluta de classe média não cogitavam cortes de lâmina de gilette, peso, traição ou qualquer tristeza em meras palavras. Queriam ler sobre o amor e acreditar em final feliz, acima de tudo e de todos os outros. Seu dia a dia era simples. Vivia com muito pouco e começou a conversar com mendigos nas esquinas das ruas, pois eram mais dignos de uma palavra amiga do que qualquer outra pessoa que tivesse cursado apenas dois anos de uma faculdade qualquer e se julgavam empreendedores do mundo. Mendigos, gente simples, viajantes e vendedores de pipoca ou engraxates eram os que tinham as melhores conversas. Experimentou abdicar da limpeza e sujar-se por completo. Sentava em assentos de privadas públicas, não tomava banho todos os dias, transava sem camisinha com outros acadêmicos do campus universitário. E nada daquilo a fazia mais livre. Seu namorado era um arquiteto que fazia terapia em grupo e a enchia de beijos. Ele insistia para que ela escrevesse palavras positivas, e ela pensava que deveria livrar-se dele todas as vezes que ouvia aquele homem jovem falando repetecos. Perguntava-se porquê ele insistia em aparentar ter um ego feliz se precisava tanto daquela terapia para encarar suas neuras? Achava-o um mentiroso. Um mentiroso que a queria beijar por ela pensar mais que a estagiária do escritório dele, ou a menina gostosa da recepção. Aquele homem não a aceitava como ela era e aquele assunto nunca iria ter um ponto final: o da escrita positiva. Ultimamente, até notava que contentaria-se com o toque do seu quiropráta ao daquele jovem que a enchia de beijos estalados. Era um sinal muito forte, mas não queria tomar decisão alguma naquele momento. Ainda na sua rotina normal entre frutas, alfaces e caldo de carne ou galinha, estava sempre rodeada de livros. E nenhum livro tinha a realidade das suas conversas com os moradores de rua. Carismática, fazia amigos com facilidade e notava em duas semanas que a fórmula da amizade era falha. Fazia sete amigos em um dia e seria um milagre se um dentre estes se salvasse. Estalou, cansou, engatou a primeira marcha. Marcou uma viagem em segredo e aos poucos foi esvaziando o apartamento do centro. Sabia que não ia voltar tão cedo. Todos os únicos amigos dentre os sete cada estranhos diários que entraram em sua vida ganharam um livro e uma carta. O namorado não ganhou carta. Ganhou um bilhete por correios, programado para chegar três dias após a sua partida e que dizia 'não volto por falta do seus ouvidos. te cuida! bj.'. Aprendeu com os viajantes os segredos da estrada, com os moradores de rua a malícia dos ao relento, e fez um guia de sobrevivência para a sua nova jornada. Sentia falta do toque da massagem do estranho que a cuidava tão bem e do apartamento no centro, porém o adeus à rotina e à falta de ouvidos era o mais importante. Sem zombaria ou senhoras ao redor. Agora, poderia ser quem quisesse. Ou quem sempre quis ser.

Thursday, 27 May 2010

Um Dia De Gestos Simples

E ele passou o dia inchado de amor. Falando de matemática aplicada à biologia no sistema nervoso e a aplicação possível da ciência. Almoçando no centro da cidade com alguém que o conhece muito bem, e mesmo assim ainda queria descobrir muito mais. Dirigindo pela cidade em círculos, proseando mil e uma novidades e quase sem gasolina no tanque. Sentando em uma mesa na casa amarela e falando da juventude que precisa de aulas reforço por não fazer esforço estando sempre tão 'sussa'. Ouvindo a repentina reclamação de que por ele ser tão interessante nunca se interessaria por alguém como o que reclamava ali naquele momento. Ouvindo a risada de um que notou uma cicatriz em seu rosto e a demora em reconhecer a mesma já que nunca o tinha visto tão de perto e à luz do dia. Recebendo mensagens de agradecimento pelo colo que deu e por conseguir dar amor tão bem. Tomando cafés na cozinha estranha e nova de um novo lugar seguro. Recebendo duas vezes o insistente telefonema do 'venha, eu quero que você venha!'. Participando de um novo grupo de pessoas que gritam três vezes o seu nome dando as 'boas-vindas' com entusiasmo. Comendo livre e solto uma pizza de mussarela e um espresso na padaria às 23h, sem preocupação. E fechando a noite com um telefonema de cuidado que dura 1 hora e 43 minutos, que o lembrava que amor para ele não faltava. E foi dormir cheio dos gestos simples. Inchados de amor.

Tuesday, 25 May 2010

O Almoço

A dois foi marcado muito tempo após os encontros em Paris, Madrid e Dubrovnik. Demorou a acontecer. Já tinham até esquecido um do outro quando um dos vários amigos em comum lembrou a um deles que os dois estavam morando na mesma cidade. O contato foi feito. A negociação de dias livres e em comum foi rápida. E o almoço começou às 12h10 de uma terça-feira. Abraçaram-se de corpos presentes. Com vontade. Não tiveram muito diálogo até sentarem-se. Pediram uma bebida e já nem sabiam se tinham fome. Falavam o 'há quanto tempo' repetidamente. Alguém puxou a arma da palavra distinta e perguntou 'porquê não foi comigo?'. O outro respondeu que 'não sabia se você me queria, então fui com ela'. E ouviu um 'ainda quero'. Foram embora e sentaram em banco de praça de parque qualquer. Um em frente ao outro como se estivessem na gangorra. Um pegou o rosto do outro e partiu para o beijo. Foi o primeiro deles. Já tinham os amigos em comum, alguns segredos, viagens, noitadas e coincidências na bagagem. Só faltou aquele beijo. Eis, ele. Um perguntou ao outro se eles se veriam mais vezes naquela cidade. Ouviu que 'sim, seria primordial para um relacionamento de qualquer espécie entre eles'. Beijaram-se como se a descobrir os detalhes de cada boca, a entrada dos dentes de cada um, roçando a fissura seca de cada lábio, misturando saliva, com estalo ou com ar de hálito somente. Não sabiam ainda se queriam, ou não, a diferença de cada um. Viviam o momento a dois pela primeira vez sem amigos em comum, cidades estranhas, 'elas', alguns segredos, noitadas ou qualquer coincidência. Novo, diurno, e deles dois. O perfeito almoço que nunca aconteceu.

Sunday, 23 May 2010

'Peitinho Massa, Ficou Massa... Que gostoso...'

E ele apalpava a novidade da argola perfurada no mamilo daquela mulher passando a mão por dentro da blusa de seda preta dela, em meio ao salão da tal festa cheio, estando os dois encobertos apenas por uma cortina da sala. O amigo mais próximo a eles viu somente aqueles pés e pôs a cara na coxia improvisada dizendo que 'sacanagem em público na casa dele, não!'. Eles riram e saíram da penumbra, concordando que teriam o respeito que fosse cabível a ele. Continuaram de olhos vidrados um no outro enquanto os garçons tentavam passar em aperto perto deles. Ele a agarrou pelo braço e disse baixo ao pé do ouvido o 'vem cá' final. Foram. Buscaram todos os lugares. Fingiram lavar as mãos na pia da área de serviço e trancaram o quarto de empregada deixando a torneira aberta. 'Abaixa as calças', ordenou o mamilo ouriçado e agora em relevo sob a blusa preta, ele agora tinha voz própria. O homem encaixou-se em dois tempos entre as pernas daquela saia fácil que ela sempre teve. Seguiu-se o encaixe fofo. Socado na medida. Sussurou ao ouvido dela o 'vamos fugir'. E concentraram-se no ato sem uma resposta. Finalizaram o momento em seus próprios ritmos sem se preocuparem com a torneira e a água corrente. Saíram da área de serviço, e voltaram ao ambiente em comum, com música ambiente e vários tagarelas com taquicardia de papo, pulsantes de palavras. Separaram-se na sala, e o caminho que ela tomou sem avisar a ninguém foi instintivamente o da porta da rua. Quis perder o controle. O controle do destino. Saiu andando, e procurava luzes fortes como sinalização. Saiu rua afora e pensava que 'queria uma queda de braço'. Em dois minutos, o telefone começou a tocar. Era o do encaixe socado e fofo. Era uma lembrança completamente preenchida aquela do encaixe. Ainda que socada era uma lembrança suave. Mas, seguiu sem atender. Estava em uma missão. Procurava algo. E seguia. Achou uma rua barulhenta, luzes haviam muitas. Sentou, como de praxe, em um bar. Tinha a desculpa da banda tocando, então podia sentar sozinha. Na verdade, não precisava de desculpas, não prestava contas. Não pedia desculpas. Pediu uma dose dupla e o telefone começou a tocar novamente. Fez-se uma personagem de Krzysztof Kieślowski, o 'seu' diretor, atendeu o telefone e ficou em silêncio. Após o 'alô', ele, que sabia da fixação ficcional, disse 'não desliga, eu quero escutar a música também, vai?'. Ela repousou o telefone em ligação sobre a mesa e continuou observando o seu entorno. Pensou no 'fica comigo' que tinha pedido àquela amiga durante a semana, e a esse pensamento somou-se o momento de um toque de um acorde menor qualquer liderado pelo baixista da banda em atuação. Chorou sem fazer careta, ou drama. Sentiu, chorou. Pensava na ida dela. Quem iria estar com ela sem os momentos felizes? Desligou o telefone, pediu a conta. Esperou, pagou. Sorveu o drink em um gole. Pegou um táxi, foi para casa, tomou um banho de sal grosso supersticiosa. Dormiu. Acordou, correu, tomou um café duplo. Tocaram a campainha. Era ela! 'Eu te amo! Foi isso!', explicou a visitante que ouviu um 'e eu o amo!' da dona da casa. 'Vou morar em outra cidade. Vim me despedir. Dar um abraço. Beijar você com vontade. Toda a vontade do mundo', e abraçaram-se iniciando a despedida. 'Não vai entrar pelo menos? Olha o que eu fiz..', e ouviu um não após ter o mamilo agora em relevo em amostra acariciado . Como previsto não conseguiu ver a amiga caminhando ao longe e fechou a porta. Fez outro café, amargo, sentiu um calafrio, como se estivesse com o coração pulsando no estômago. Era um novo recomeço. Muito perigoso. Emoções sem suporte eram o futuro próximo. Aquela parede não existia mais, seria nocaute na certa. Chão. Um novo começo perigoso. Tinha satisfação em ter a vida nova com mais riscos. Saudosa, trêmula. E satisfeita com a corda bamba emocional, podendo ir ao chão a qualquer hora. Nunca achou a segurança ou o comforto algo que oferecesse confiança. Na liberdade do peito perfurado, sem uma amiga à mão, tomava um novo café trêmula e entendia tudo o que estava acontecendo ao seu redor. Era o supra sumo da lucidez emocional. O telefone tocou e ouviu um 'você está bem?'. Respondeu que estava ótima, disposta e queria sair e viver.

Friday, 21 May 2010

O Guitarrista

Olhava para os outros por debaixo das sobrancelhas, de olhos grandes morenos, no desconfiar de uma nova presença que sempre chegava ao seu redor. Uma guitarra e um homem juntos era uma combinação bombástica. Atraía moscas, flores, ursos, tudo na floresta. Usava calça justa, shell top adidas preto, era alto e magro, não aparentava os anos de vida que, por ventura, tivesse, era da cor do sol, misterioso e tinha ouvidos radarrussoespionagem. Filtravam as bobagens que todos falavam. E o critério de aproximação se fazia através deles. Uma coisa a saber é que todos os misteriosos e desconfiados deste mundo algum dia já ouviram muito besteirolblablablámerdapura, então, talvez, o guitarrista fosse mais interessante por primeiro desconfiar antes de dar-se. Desconfiados também sabem que podem dar muito, são generosos e sensíveis, o que faz o critério de doação de uma palavra sequer mais rigoroso. No entanto, ele com aquela guitarra nas mãos ficava nu. Quer? Toma! Ele dava. Era um tapa na cara. De beleza, fricção, dedilhado, de tantas notas juntas em um solo. Quanta nota!!! Fechava os olhos e nem estava ali. Era ele, Stratocaster, palhetas e monitor alto. Sem sorriso, sem olho na platéia. Ele tinha ido. E todos assistiam aquele transe musical. Não seria difícil imaginar porquê muitos acham que música não é trabalho, e, sim, algo divino, dado gratuitamente a alguém no planetinha como dom. Saía do palco e a desconfiança chegava. Muitos se aproximavam, váriAs moscas e flores e ursos se aproximavam, e ele não queria apreciação exagerada pós-palco, taça de champagne. Não achava aquilo legal. Aquela apreciação fruto da luz de uma casa de shows que faz qualquer banana virar morango ao creme de chantilly. Ele só queria trocar uma idéia sem muita bajulação, sem sorrisos forçados, e do mesmo jeito do pré-palco. Trocar com troca! Ele já estava feliz em ter feito o que mais amava, fechar os olhos e ir embora dali por uma hora e meia. O guitarrista de pálpebras semi-cerradas e olhos revirando em notas era um generoso de pouco acesso. Porém, quando a sua atenção vinha era uma tocha de luz. Animava o ser mais encavernado do mundo, era de uma consideração emocionante. Queria fazer campanha de salvamento do outro. Ao ir embora, sentiam falta dele. Apertavam a mão dele com ardor em um 'voltaê, cara!' emocionado. Voltaê, cara! Voltaê! VOltaÊ!

Thursday, 20 May 2010

'Já foi?'

Perguntou ele, ansioso. 'Já! Eu corri... Ah...', disse ofegante. 'Foi rápido! Já voltou... Dá um beijo?', e foi oferecendo-se. Não parou de falar e disse 'Tá linda, cabelo assanhado...', e ouviram-se mais beijos ao ar. Ela pediu para tomar um açaí, para irem juntos. Ele disse que queria convidar uma pessoa, e que essa mesma já estava a caminho. Ela concordou. Foi o tempo de pedir a refeição energética e esperar dois minutos. Ele levantou-se e olhou por detrás dela, 'Olha ele aí!', e apresentou um estranho sorridente de nome André, que deu um abraço nela inédito em muitos meses. Nunca um estranho foi tão receptivo com ela naquela cidade. Os dois homens eram amigos há anos, e o que era dela queria esse momento 'desde que a conheceu', e só podia agora porquê era verdade. A união de dois novos e bem com um antigo harmonioso. O primeiro laço de amor, de construção, são. O que era dela era lindo, também tinha uma voz médio-grave como a dela, arrulhavam-se como dois pássaros. Conheciam-se há poucos dias e o encantamento foi imediato. Ele quis beijar a mão, ela disse que preferia na boca, e ele aceitou. Começaram bem, durante um almoço premeditado e o beijo tinha gosto de feijão. Era o primeiro dia dela desempregada e em êxtase. Tudo, o desemprego, o beijo de feijão, o encontro a três, veio antes do imaginado. Vendaval, avalanche, ogiva de felicidade foi aquele primeiro encontro anterior ao que acontecia naquele momento. Nem conseguiram se despedir e três horas depois voltaram a se encontrar, desesperados para ter um novo beijo. Agora com gosto distinto, com gosto de açaí, com a presença do André, em três e em harmonia. A entrega agora era calma. E ainda, sublime... Que continuasse, por favor...

Deixemos De Lado A PaSSionalidade E Compremos Um Aurélio

Seria fácil entender o significado de selvagem, e silvestre, e selva também. Faríamos a corrupção, ou uma corruptela das palavras que leríamos e escreveríamos até cocô com elegância. Afinal, comemos merda na rua, mesmo e temos um final de semana de diarréia? Cocô com tesão. Com a 'bíblia' em casa, abriríamos um dia uma página e a nova palavra sorteada adquirida ao vocabulário salvaria a superficialidade humana, a falta do querer bem no saber se está tudo bem, do biscoito da sorte. A preocupação empresarial não existiria, pois quem tem uma idéia boa na cabeça, quem sabe, pode ter outra. Sem medo. Com um Aurélio, teria razão, racionalidade plausível o suficiente para ser lido com admiração. O Aurélio o fará escrever bem em papel, caderninho, mão, pele, espelho, partitura, nota de 5 reais, jornal, livro, roteiro, guardanapo, script e mesmo no blog se quiser. Porém, você primeiramente tem que amar escrever por escrever, não importa aonde. Se o indivíduo mora no Copan, melhor ainda! Com certeza, ele pode comprar um Aurélio usando o maestrovisaeletrondébito à vista. A empresa paga, sim. E sem a passionalidade o progresso vem, e o Aurélio ajuda nisso também. Faz-te eloquente e sensato, com razão, aquele tal pára para te ler. Une o vozeirão e vai para o palco que vai dar platéia. A massa sem Aurélio e sem voz grave vai ver e querer o que eles não têm. $$$Katching$$$!! Vai render muito. Esquece a passionalidade. Ela só serve para nada. Para nada? Para nada! Um Aurélio tem múltiplas utilidades. Quando o ler todo, ele vira papel higiênico, o papel é fininho, não arranha o seu anûs luz, seu guia de vida. Você até se sente um subversivo de verdade. Rasgou, cagou, limpou merda na 'bíblia'. Quem souber disso vai achar você louco, e sua provocação vai funcionar. Avant garde? Talvez.. Tenta! Faz uma performance letrada. Arranja um empresário diplomático para ser esse futuro artista polêmico, e as pessoas vão te rodear. Ele faz firula e você caga na 'bíblia'. Só googleia a idéia antes e pesquisa se alguém já fez isso. Ser impostor é feio. Não adianta se debater, porquê é feio, sim. As pessoas já sabem que não é idéia sua. Passionalidade, passione? Ah, isso não, né? Já virou até título de novela... Passionalidade tem a ver com o visceral? Taí! O Aurélio te ajuda e te diz isso. Compara, vai? E esquece isso. Artistas não precisam desse sentimento. Esquece isso, logo. E compra um Aurélio. É o melhor a fazer.

Tuesday, 18 May 2010

François

Nasceu em La Rochelle, cidade próxima a Bordeaux, e seu melhor amigo era Philou Carlotti. Apaixonou-se aos 24 anos por uma pernambucana de 19 que driblava com exaustão um emprego, um estágio e uma universidade. Perguntava 'como você tem tanta energia?' com um tesão de olhos baixos apaixonados. Namoraram instantaneamente e por 3 semanas mais. François encheu a pernambucana de presentes: sempre perfumes ou livros. Franceses são como os russos e a mulher nunca paga nada. 'É a nossa cultura! Seja independente sozinha comprando a sua maquiagem!'. Tinha um ótimo gosto. Era um tipão alto, quase um beau garçon, mas não tanto. Comprou uma coleção bilíngue de poemas de Charles Baudelaire e na dedicatória pôs que 'la beauté n'appartient ni au bien, ni au mal'. A beleza é neutra. Está nos olhos de quem a vê. A paixão tomou conta de François e ele começou a se rebelar com ciúmes, desconfianças, perguntas sem sentido e um modo cada vez mais agressivo ao dizer 'você é tão popular, não?!'. A moça voltou-se contra a raiva e perguntou 'porquê isso?'. Ele respondeu com ironia em uma pergunta: 'você não sabe filosofia? amor é violência! você me tem nas mãos, não posso fazer nada, tirou a minha liberdade e eu quero matar você'. O romance não durou muito mais após essa declaração. Ele assustou a menina, ela ainda não aguentava o tranco da verdade da vida. Até tentaram uma reconciliação em um restaurante pequeno no bairro de Montmartre, seis meses após a separação física, mas François não suportou a distância entre La Rochelle e Recife. François casou-se com Sophie e tiveram dois filhos. Moram em Londres, são felizes. Encontrou-se com a pernambucana 11 anos depois em Brighton, sul da Inglaterra, e a disse sorrindo que ela era uma 'tempête'. A mulher tempestade tem até hoje um grande torcedor naquele que a conheceu tão jovem. O torcedor que a ensinou pela primeira vez uma verdadeira lição de amor e ódio.

Pensamentos Ganhados Numa Terça-Feira

Ganhou dois emails na terça-feira. Não achou um melhor do que o outro. Não julgou. Imprimiu os dois e fez várias anotações em cima deles por várias horas....

pensamento I

'O Espelho Cego

"O olho do que resta da atriz no espelho,
ela própria um espelho,
ainda que seja um raso líquido transformando-se em
memória,
agora não se vê
- como também não vê o público,
o espelho do espelho do espelho,
que,
atrás dela,
à porta do camarim,
procura entender
em que espelho
afinal
as tintas deixam rastros
naquele olho já sem a máscara por onde num pacto
conseguiam,
a atriz e o público,
enxergar um ao outro
e a si mesmos".

(autor(a) desconhecido(a))

Com amor,
Espero vê-la na quarta, querida. Se quiser marcar um cinema na quinta ou sexta, adoraria sair contigo, bater papo.'


pensamento II

'O ridículo de uma nordestina chinfrim metida a britânica com complexo de caranguejo.
Sem ninguém? É o que você merece. Aproveitadora de oportunidades. Capitalizadora de relações que merece o sotaque de Fernando Color e ACM junto com Sarney. Sai de mim Roseane Sarney Collor!!! Desses eu já to cheio.
Tiazinha era tudo que você queria ser. O que tá fazendo na Fatima. Quer ser o que.? Britney sei lá o que? Cantora de boate cafajeste. Mulher cafajeste.'

.....

Depois de muita ponderação e pensamentos gastos, jogou as duas folhas no lixo. Cada um que visse um personagem.
Ficou feliz em ter dois em seu repertório. O do amor e o do ódio.
E pouco mais interessava.... pouco...

About Me

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com