narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Tuesday, 16 March 2010

O jogo dos olhos

Eram 3h15 da manhã, e a noite tinha sido um fracasso. Aliás, ela ainda não tinha acabado, então, estava sendo um fracasso. Aquela tentativa falida de encontrar prazer entre amigos numa noite regada ao àlcool não funciona quando não se bebe mais. Tonino pensou até em ter uma recaída: seria até mais fácil justificar aquela noite se uma recaída na bebedeira fosse o motivo. Não havia na realidade motivo para estar ali, nem utilidade. Apenas quis sair de casa, e a única opção foi uma festa repleta de bêbados. Mas, pela primeira vez naquela noite inteira, e dentre as várias novas noites acompanhadas de amigos bêbados na sua sobriedade, encontrou um olhar direto em seus olhos. Olhos igualmente sóbrios que lhe disseram atirando em voz alta: 'você está me perseguindo desde ontem. isso é um jogo?'. Tonino não respondeu... na verdade, nem entendeu quando alguém disse: 'ela também não bebe, como você. dois estranhos!'. Tonino foi ao banheiro e voltou recuperado da súbita euforia que obteve ao notar que alguém como ele saía pela noite, em meio à bêbados, somente para observar os mesmos. E foi isso que fizeram: observaram o grau etílico de todos aumentar e riam sem palavras para que ninguém os condenasse de sobriedade e caretice repressora. De repente, os olhos sumiram... Tonino perguntou ao alcóolico mais próximo qual era o nome daquela figura que não estava mais ali. Responderam: 'Areia!' E pela primeira vez, ironicamente, com Areia nos seus olhos sentiu que observar era o propósito daquelas várias noites sem sentido. Observar o que não queria mais ser. Continuou sóbrio e entendiado, e só pensava em ter Areia nos olhos mais uma vez para suportar o convívio com os outros idiotas alcoolizados.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com