Era invejável. Olhavam fotos e comentavam personalidades alheias. Identificavam quem estava no fio da navalha em dois segundos. Assumiram amor, e desejos de morte e outros quaisquer olharam envergados com as mãos no queixo. Saídos do prédio de esquina da KGB em Moscou, diretamente para o convívio delas. A distância entre elas pouco importava, o entendimento era completo:
'Não se preocupa, eu não confundi!' - 'Eu sei, você não fez isso. Outra pessoa fez.' - 'Eu vi, eu notei. Mas aqui estamos seguras.' - 'Queria que não houvesse culpa por consequências, elas aconteceram, acontecerão. É natural!' - 'Sei... Não fico culpada, não. Seria chamar você de incapaz. Incapaz de tomar uma decisão.' - 'As pessoas são loucas, imaginam coisas incertas. Não cai nessa. Eu te vejo. Aceito!' - 'Eu sei, eu confio. Confio muito em você.' - 'Amo você!' - 'Eu amo muito você!'.
narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Friday, 28 May 2010
Lambida De Gato
Sentida de baixo para cima. Gato baixo querendo subir e lamber. Lambia, arrodeava o sofá e roubava a carne da cozinha. Roubava a comida. E ficava com fome após a lambida. Gato ladrão.
A Neta Do Escritor
Morava no apartamento 203 de um prédio caixote no centro e seguia há anos a sua carreira e vida disciplinar e acadêmica. A possibilidade de fechar-se em um apartamento e sair diretamente na boca do centro da cidade a rendia. Era o lugar certo para a morada daquela ora Coré, ora Perséfone. Oscilava entre períodos de depressão e normalidade, como qualquer mulher que trabalhava em proporções exageradas e nutria decepção pela vida moderna. Fazia uso do sobrenome materno por ter um pai e um avô transgressores no mundo literário, e assim então, evitar a perpetuação da outrora zombaria da infância vinda através daquele sobrenome paterno que atraía tantos julgamentos antecipados. Ao mesmo tempo que sentisse pena por ter aquela ligação com alguém que convidava ao constante ódio dos 'cortiçados de mente', tinha plena consciência de que não poderia nunca ser uma mulher qualquer por carregar aquela descendência. Amava escrever em silêncio e continha a sua verborragia por vezes, ainda que ali morasse a sua força. E por conter-se sentia-se atada. Camisa de força preta e falta de ar. Os de carapuça aos pés urgiam que ela a vestisse rapidamente caso a lessem. Umas velhas senhoras analisavam a sua escrita e diziam que 'aquelas palavras não eram criatividade, e sim loucura pura de uma mulher'. Pura assepsia de pensamento daquelas. Pura censura. Como aquelas senhoras, haviam muitos seres que confundiam escrita com personalidade, assim como personagem vilão com o intérprete do mesmo. Saía e ouvia ofensas, pois os que queriam um mundo em paz absoluta de classe média não cogitavam cortes de lâmina de gilette, peso, traição ou qualquer tristeza em meras palavras. Queriam ler sobre o amor e acreditar em final feliz, acima de tudo e de todos os outros. Seu dia a dia era simples. Vivia com muito pouco e começou a conversar com mendigos nas esquinas das ruas, pois eram mais dignos de uma palavra amiga do que qualquer outra pessoa que tivesse cursado apenas dois anos de uma faculdade qualquer e se julgavam empreendedores do mundo. Mendigos, gente simples, viajantes e vendedores de pipoca ou engraxates eram os que tinham as melhores conversas. Experimentou abdicar da limpeza e sujar-se por completo. Sentava em assentos de privadas públicas, não tomava banho todos os dias, transava sem camisinha com outros acadêmicos do campus universitário. E nada daquilo a fazia mais livre. Seu namorado era um arquiteto que fazia terapia em grupo e a enchia de beijos. Ele insistia para que ela escrevesse palavras positivas, e ela pensava que deveria livrar-se dele todas as vezes que ouvia aquele homem jovem falando repetecos. Perguntava-se porquê ele insistia em aparentar ter um ego feliz se precisava tanto daquela terapia para encarar suas neuras? Achava-o um mentiroso. Um mentiroso que a queria beijar por ela pensar mais que a estagiária do escritório dele, ou a menina gostosa da recepção. Aquele homem não a aceitava como ela era e aquele assunto nunca iria ter um ponto final: o da escrita positiva. Ultimamente, até notava que contentaria-se com o toque do seu quiropráta ao daquele jovem que a enchia de beijos estalados. Era um sinal muito forte, mas não queria tomar decisão alguma naquele momento. Ainda na sua rotina normal entre frutas, alfaces e caldo de carne ou galinha, estava sempre rodeada de livros. E nenhum livro tinha a realidade das suas conversas com os moradores de rua. Carismática, fazia amigos com facilidade e notava em duas semanas que a fórmula da amizade era falha. Fazia sete amigos em um dia e seria um milagre se um dentre estes se salvasse. Estalou, cansou, engatou a primeira marcha. Marcou uma viagem em segredo e aos poucos foi esvaziando o apartamento do centro. Sabia que não ia voltar tão cedo. Todos os únicos amigos dentre os sete cada estranhos diários que entraram em sua vida ganharam um livro e uma carta. O namorado não ganhou carta. Ganhou um bilhete por correios, programado para chegar três dias após a sua partida e que dizia 'não volto por falta do seus ouvidos. te cuida! bj.'. Aprendeu com os viajantes os segredos da estrada, com os moradores de rua a malícia dos ao relento, e fez um guia de sobrevivência para a sua nova jornada. Sentia falta do toque da massagem do estranho que a cuidava tão bem e do apartamento no centro, porém o adeus à rotina e à falta de ouvidos era o mais importante. Sem zombaria ou senhoras ao redor. Agora, poderia ser quem quisesse. Ou quem sempre quis ser.
Thursday, 27 May 2010
Um Dia De Gestos Simples
E ele passou o dia inchado de amor. Falando de matemática aplicada à biologia no sistema nervoso e a aplicação possível da ciência. Almoçando no centro da cidade com alguém que o conhece muito bem, e mesmo assim ainda queria descobrir muito mais. Dirigindo pela cidade em círculos, proseando mil e uma novidades e quase sem gasolina no tanque. Sentando em uma mesa na casa amarela e falando da juventude que precisa de aulas reforço por não fazer esforço estando sempre tão 'sussa'. Ouvindo a repentina reclamação de que por ele ser tão interessante nunca se interessaria por alguém como o que reclamava ali naquele momento. Ouvindo a risada de um que notou uma cicatriz em seu rosto e a demora em reconhecer a mesma já que nunca o tinha visto tão de perto e à luz do dia. Recebendo mensagens de agradecimento pelo colo que deu e por conseguir dar amor tão bem. Tomando cafés na cozinha estranha e nova de um novo lugar seguro. Recebendo duas vezes o insistente telefonema do 'venha, eu quero que você venha!'. Participando de um novo grupo de pessoas que gritam três vezes o seu nome dando as 'boas-vindas' com entusiasmo. Comendo livre e solto uma pizza de mussarela e um espresso na padaria às 23h, sem preocupação. E fechando a noite com um telefonema de cuidado que dura 1 hora e 43 minutos, que o lembrava que amor para ele não faltava. E foi dormir cheio dos gestos simples. Inchados de amor.
Tuesday, 25 May 2010
O Almoço
A dois foi marcado muito tempo após os encontros em Paris, Madrid e Dubrovnik. Demorou a acontecer. Já tinham até esquecido um do outro quando um dos vários amigos em comum lembrou a um deles que os dois estavam morando na mesma cidade. O contato foi feito. A negociação de dias livres e em comum foi rápida. E o almoço começou às 12h10 de uma terça-feira. Abraçaram-se de corpos presentes. Com vontade. Não tiveram muito diálogo até sentarem-se. Pediram uma bebida e já nem sabiam se tinham fome. Falavam o 'há quanto tempo' repetidamente. Alguém puxou a arma da palavra distinta e perguntou 'porquê não foi comigo?'. O outro respondeu que 'não sabia se você me queria, então fui com ela'. E ouviu um 'ainda quero'. Foram embora e sentaram em banco de praça de parque qualquer. Um em frente ao outro como se estivessem na gangorra. Um pegou o rosto do outro e partiu para o beijo. Foi o primeiro deles. Já tinham os amigos em comum, alguns segredos, viagens, noitadas e coincidências na bagagem. Só faltou aquele beijo. Eis, ele. Um perguntou ao outro se eles se veriam mais vezes naquela cidade. Ouviu que 'sim, seria primordial para um relacionamento de qualquer espécie entre eles'. Beijaram-se como se a descobrir os detalhes de cada boca, a entrada dos dentes de cada um, roçando a fissura seca de cada lábio, misturando saliva, com estalo ou com ar de hálito somente. Não sabiam ainda se queriam, ou não, a diferença de cada um. Viviam o momento a dois pela primeira vez sem amigos em comum, cidades estranhas, 'elas', alguns segredos, noitadas ou qualquer coincidência. Novo, diurno, e deles dois. O perfeito almoço que nunca aconteceu.
Sunday, 23 May 2010
'Peitinho Massa, Ficou Massa... Que gostoso...'
E ele apalpava a novidade da argola perfurada no mamilo daquela mulher passando a mão por dentro da blusa de seda preta dela, em meio ao salão da tal festa cheio, estando os dois encobertos apenas por uma cortina da sala. O amigo mais próximo a eles viu somente aqueles pés e pôs a cara na coxia improvisada dizendo que 'sacanagem em público na casa dele, não!'. Eles riram e saíram da penumbra, concordando que teriam o respeito que fosse cabível a ele. Continuaram de olhos vidrados um no outro enquanto os garçons tentavam passar em aperto perto deles. Ele a agarrou pelo braço e disse baixo ao pé do ouvido o 'vem cá' final. Foram. Buscaram todos os lugares. Fingiram lavar as mãos na pia da área de serviço e trancaram o quarto de empregada deixando a torneira aberta. 'Abaixa as calças', ordenou o mamilo ouriçado e agora em relevo sob a blusa preta, ele agora tinha voz própria. O homem encaixou-se em dois tempos entre as pernas daquela saia fácil que ela sempre teve. Seguiu-se o encaixe fofo. Socado na medida. Sussurou ao ouvido dela o 'vamos fugir'. E concentraram-se no ato sem uma resposta. Finalizaram o momento em seus próprios ritmos sem se preocuparem com a torneira e a água corrente. Saíram da área de serviço, e voltaram ao ambiente em comum, com música ambiente e vários tagarelas com taquicardia de papo, pulsantes de palavras. Separaram-se na sala, e o caminho que ela tomou sem avisar a ninguém foi instintivamente o da porta da rua. Quis perder o controle. O controle do destino. Saiu andando, e procurava luzes fortes como sinalização. Saiu rua afora e pensava que 'queria uma queda de braço'. Em dois minutos, o telefone começou a tocar. Era o do encaixe socado e fofo. Era uma lembrança completamente preenchida aquela do encaixe. Ainda que socada era uma lembrança suave. Mas, seguiu sem atender. Estava em uma missão. Procurava algo. E seguia. Achou uma rua barulhenta, luzes haviam muitas. Sentou, como de praxe, em um bar. Tinha a desculpa da banda tocando, então podia sentar sozinha. Na verdade, não precisava de desculpas, não prestava contas. Não pedia desculpas. Pediu uma dose dupla e o telefone começou a tocar novamente. Fez-se uma personagem de Krzysztof Kieślowski, o 'seu' diretor, atendeu o telefone e ficou em silêncio. Após o 'alô', ele, que sabia da fixação ficcional, disse 'não desliga, eu quero escutar a música também, vai?'. Ela repousou o telefone em ligação sobre a mesa e continuou observando o seu entorno. Pensou no 'fica comigo' que tinha pedido àquela amiga durante a semana, e a esse pensamento somou-se o momento de um toque de um acorde menor qualquer liderado pelo baixista da banda em atuação. Chorou sem fazer careta, ou drama. Sentiu, chorou. Pensava na ida dela. Quem iria estar com ela sem os momentos felizes? Desligou o telefone, pediu a conta. Esperou, pagou. Sorveu o drink em um gole. Pegou um táxi, foi para casa, tomou um banho de sal grosso supersticiosa. Dormiu. Acordou, correu, tomou um café duplo. Tocaram a campainha. Era ela! 'Eu te amo! Foi isso!', explicou a visitante que ouviu um 'e eu o amo!' da dona da casa. 'Vou morar em outra cidade. Vim me despedir. Dar um abraço. Beijar você com vontade. Toda a vontade do mundo', e abraçaram-se iniciando a despedida. 'Não vai entrar pelo menos? Olha o que eu fiz..', e ouviu um não após ter o mamilo agora em relevo em amostra acariciado . Como previsto não conseguiu ver a amiga caminhando ao longe e fechou a porta. Fez outro café, amargo, sentiu um calafrio, como se estivesse com o coração pulsando no estômago. Era um novo recomeço. Muito perigoso. Emoções sem suporte eram o futuro próximo. Aquela parede não existia mais, seria nocaute na certa. Chão. Um novo começo perigoso. Tinha satisfação em ter a vida nova com mais riscos. Saudosa, trêmula. E satisfeita com a corda bamba emocional, podendo ir ao chão a qualquer hora. Nunca achou a segurança ou o comforto algo que oferecesse confiança. Na liberdade do peito perfurado, sem uma amiga à mão, tomava um novo café trêmula e entendia tudo o que estava acontecendo ao seu redor. Era o supra sumo da lucidez emocional. O telefone tocou e ouviu um 'você está bem?'. Respondeu que estava ótima, disposta e queria sair e viver.
Friday, 21 May 2010
O Guitarrista
Olhava para os outros por debaixo das sobrancelhas, de olhos grandes morenos, no desconfiar de uma nova presença que sempre chegava ao seu redor. Uma guitarra e um homem juntos era uma combinação bombástica. Atraía moscas, flores, ursos, tudo na floresta. Usava calça justa, shell top adidas preto, era alto e magro, não aparentava os anos de vida que, por ventura, tivesse, era da cor do sol, misterioso e tinha ouvidos radarrussoespionagem. Filtravam as bobagens que todos falavam. E o critério de aproximação se fazia através deles. Uma coisa a saber é que todos os misteriosos e desconfiados deste mundo algum dia já ouviram muito besteirolblablablámerdapura, então, talvez, o guitarrista fosse mais interessante por primeiro desconfiar antes de dar-se. Desconfiados também sabem que podem dar muito, são generosos e sensíveis, o que faz o critério de doação de uma palavra sequer mais rigoroso. No entanto, ele com aquela guitarra nas mãos ficava nu. Quer? Toma! Ele dava. Era um tapa na cara. De beleza, fricção, dedilhado, de tantas notas juntas em um solo. Quanta nota!!! Fechava os olhos e nem estava ali. Era ele, Stratocaster, palhetas e monitor alto. Sem sorriso, sem olho na platéia. Ele tinha ido. E todos assistiam aquele transe musical. Não seria difícil imaginar porquê muitos acham que música não é trabalho, e, sim, algo divino, dado gratuitamente a alguém no planetinha como dom. Saía do palco e a desconfiança chegava. Muitos se aproximavam, váriAs moscas e flores e ursos se aproximavam, e ele não queria apreciação exagerada pós-palco, taça de champagne. Não achava aquilo legal. Aquela apreciação fruto da luz de uma casa de shows que faz qualquer banana virar morango ao creme de chantilly. Ele só queria trocar uma idéia sem muita bajulação, sem sorrisos forçados, e do mesmo jeito do pré-palco. Trocar com troca! Ele já estava feliz em ter feito o que mais amava, fechar os olhos e ir embora dali por uma hora e meia. O guitarrista de pálpebras semi-cerradas e olhos revirando em notas era um generoso de pouco acesso. Porém, quando a sua atenção vinha era uma tocha de luz. Animava o ser mais encavernado do mundo, era de uma consideração emocionante. Queria fazer campanha de salvamento do outro. Ao ir embora, sentiam falta dele. Apertavam a mão dele com ardor em um 'voltaê, cara!' emocionado. Voltaê, cara! Voltaê! VOltaÊ!
Thursday, 20 May 2010
'Já foi?'
Perguntou ele, ansioso. 'Já! Eu corri... Ah...', disse ofegante. 'Foi rápido! Já voltou... Dá um beijo?', e foi oferecendo-se. Não parou de falar e disse 'Tá linda, cabelo assanhado...', e ouviram-se mais beijos ao ar. Ela pediu para tomar um açaí, para irem juntos. Ele disse que queria convidar uma pessoa, e que essa mesma já estava a caminho. Ela concordou. Foi o tempo de pedir a refeição energética e esperar dois minutos. Ele levantou-se e olhou por detrás dela, 'Olha ele aí!', e apresentou um estranho sorridente de nome André, que deu um abraço nela inédito em muitos meses. Nunca um estranho foi tão receptivo com ela naquela cidade. Os dois homens eram amigos há anos, e o que era dela queria esse momento 'desde que a conheceu', e só podia agora porquê era verdade. A união de dois novos e bem com um antigo harmonioso. O primeiro laço de amor, de construção, são. O que era dela era lindo, também tinha uma voz médio-grave como a dela, arrulhavam-se como dois pássaros. Conheciam-se há poucos dias e o encantamento foi imediato. Ele quis beijar a mão, ela disse que preferia na boca, e ele aceitou. Começaram bem, durante um almoço premeditado e o beijo tinha gosto de feijão. Era o primeiro dia dela desempregada e em êxtase. Tudo, o desemprego, o beijo de feijão, o encontro a três, veio antes do imaginado. Vendaval, avalanche, ogiva de felicidade foi aquele primeiro encontro anterior ao que acontecia naquele momento. Nem conseguiram se despedir e três horas depois voltaram a se encontrar, desesperados para ter um novo beijo. Agora com gosto distinto, com gosto de açaí, com a presença do André, em três e em harmonia. A entrega agora era calma. E ainda, sublime... Que continuasse, por favor...
Deixemos De Lado A PaSSionalidade E Compremos Um Aurélio
Seria fácil entender o significado de selvagem, e silvestre, e selva também. Faríamos a corrupção, ou uma corruptela das palavras que leríamos e escreveríamos até cocô com elegância. Afinal, comemos merda na rua, mesmo e temos um final de semana de diarréia? Cocô com tesão. Com a 'bíblia' em casa, abriríamos um dia uma página e a nova palavra sorteada adquirida ao vocabulário salvaria a superficialidade humana, a falta do querer bem no saber se está tudo bem, do biscoito da sorte. A preocupação empresarial não existiria, pois quem tem uma idéia boa na cabeça, quem sabe, pode ter outra. Sem medo. Com um Aurélio, teria razão, racionalidade plausível o suficiente para ser lido com admiração. O Aurélio o fará escrever bem em papel, caderninho, mão, pele, espelho, partitura, nota de 5 reais, jornal, livro, roteiro, guardanapo, script e mesmo no blog se quiser. Porém, você primeiramente tem que amar escrever por escrever, não importa aonde. Se o indivíduo mora no Copan, melhor ainda! Com certeza, ele pode comprar um Aurélio usando o maestrovisaeletrondébito à vista. A empresa paga, sim. E sem a passionalidade o progresso vem, e o Aurélio ajuda nisso também. Faz-te eloquente e sensato, com razão, aquele tal pára para te ler. Une o vozeirão e vai para o palco que vai dar platéia. A massa sem Aurélio e sem voz grave vai ver e querer o que eles não têm. $$$Katching$$$!! Vai render muito. Esquece a passionalidade. Ela só serve para nada. Para nada? Para nada! Um Aurélio tem múltiplas utilidades. Quando o ler todo, ele vira papel higiênico, o papel é fininho, não arranha o seu anûs luz, seu guia de vida. Você até se sente um subversivo de verdade. Rasgou, cagou, limpou merda na 'bíblia'. Quem souber disso vai achar você louco, e sua provocação vai funcionar. Avant garde? Talvez.. Tenta! Faz uma performance letrada. Arranja um empresário diplomático para ser esse futuro artista polêmico, e as pessoas vão te rodear. Ele faz firula e você caga na 'bíblia'. Só googleia a idéia antes e pesquisa se alguém já fez isso. Ser impostor é feio. Não adianta se debater, porquê é feio, sim. As pessoas já sabem que não é idéia sua. Passionalidade, passione? Ah, isso não, né? Já virou até título de novela... Passionalidade tem a ver com o visceral? Taí! O Aurélio te ajuda e te diz isso. Compara, vai? E esquece isso. Artistas não precisam desse sentimento. Esquece isso, logo. E compra um Aurélio. É o melhor a fazer.
Tuesday, 18 May 2010
François
Nasceu em La Rochelle, cidade próxima a Bordeaux, e seu melhor amigo era Philou Carlotti. Apaixonou-se aos 24 anos por uma pernambucana de 19 que driblava com exaustão um emprego, um estágio e uma universidade. Perguntava 'como você tem tanta energia?' com um tesão de olhos baixos apaixonados. Namoraram instantaneamente e por 3 semanas mais. François encheu a pernambucana de presentes: sempre perfumes ou livros. Franceses são como os russos e a mulher nunca paga nada. 'É a nossa cultura! Seja independente sozinha comprando a sua maquiagem!'. Tinha um ótimo gosto. Era um tipão alto, quase um beau garçon, mas não tanto. Comprou uma coleção bilíngue de poemas de Charles Baudelaire e na dedicatória pôs que 'la beauté n'appartient ni au bien, ni au mal'. A beleza é neutra. Está nos olhos de quem a vê. A paixão tomou conta de François e ele começou a se rebelar com ciúmes, desconfianças, perguntas sem sentido e um modo cada vez mais agressivo ao dizer 'você é tão popular, não?!'. A moça voltou-se contra a raiva e perguntou 'porquê isso?'. Ele respondeu com ironia em uma pergunta: 'você não sabe filosofia? amor é violência! você me tem nas mãos, não posso fazer nada, tirou a minha liberdade e eu quero matar você'. O romance não durou muito mais após essa declaração. Ele assustou a menina, ela ainda não aguentava o tranco da verdade da vida. Até tentaram uma reconciliação em um restaurante pequeno no bairro de Montmartre, seis meses após a separação física, mas François não suportou a distância entre La Rochelle e Recife. François casou-se com Sophie e tiveram dois filhos. Moram em Londres, são felizes. Encontrou-se com a pernambucana 11 anos depois em Brighton, sul da Inglaterra, e a disse sorrindo que ela era uma 'tempête'. A mulher tempestade tem até hoje um grande torcedor naquele que a conheceu tão jovem. O torcedor que a ensinou pela primeira vez uma verdadeira lição de amor e ódio.
Pensamentos Ganhados Numa Terça-Feira
Ganhou dois emails na terça-feira. Não achou um melhor do que o outro. Não julgou. Imprimiu os dois e fez várias anotações em cima deles por várias horas....
pensamento I
'O Espelho Cego
"O olho do que resta da atriz no espelho,
ela própria um espelho,
ainda que seja um raso líquido transformando-se em
memória,
agora não se vê
- como também não vê o público,
o espelho do espelho do espelho,
que,
atrás dela,
à porta do camarim,
procura entender
em que espelho
afinal
as tintas deixam rastros
naquele olho já sem a máscara por onde num pacto
conseguiam,
a atriz e o público,
enxergar um ao outro
e a si mesmos".
(autor(a) desconhecido(a))
Com amor,
Espero vê-la na quarta, querida. Se quiser marcar um cinema na quinta ou sexta, adoraria sair contigo, bater papo.'
pensamento II
'O ridículo de uma nordestina chinfrim metida a britânica com complexo de caranguejo.
Sem ninguém? É o que você merece. Aproveitadora de oportunidades. Capitalizadora de relações que merece o sotaque de Fernando Color e ACM junto com Sarney. Sai de mim Roseane Sarney Collor!!! Desses eu já to cheio.
Tiazinha era tudo que você queria ser. O que tá fazendo na Fatima. Quer ser o que.? Britney sei lá o que? Cantora de boate cafajeste. Mulher cafajeste.'
.....
Depois de muita ponderação e pensamentos gastos, jogou as duas folhas no lixo. Cada um que visse um personagem.
Ficou feliz em ter dois em seu repertório. O do amor e o do ódio.
E pouco mais interessava.... pouco...
pensamento I
'O Espelho Cego
"O olho do que resta da atriz no espelho,
ela própria um espelho,
ainda que seja um raso líquido transformando-se em
memória,
agora não se vê
- como também não vê o público,
o espelho do espelho do espelho,
que,
atrás dela,
à porta do camarim,
procura entender
em que espelho
afinal
as tintas deixam rastros
naquele olho já sem a máscara por onde num pacto
conseguiam,
a atriz e o público,
enxergar um ao outro
e a si mesmos".
(autor(a) desconhecido(a))
Com amor,
Espero vê-la na quarta, querida. Se quiser marcar um cinema na quinta ou sexta, adoraria sair contigo, bater papo.'
pensamento II
'O ridículo de uma nordestina chinfrim metida a britânica com complexo de caranguejo.
Sem ninguém? É o que você merece. Aproveitadora de oportunidades. Capitalizadora de relações que merece o sotaque de Fernando Color e ACM junto com Sarney. Sai de mim Roseane Sarney Collor!!! Desses eu já to cheio.
Tiazinha era tudo que você queria ser. O que tá fazendo na Fatima. Quer ser o que.? Britney sei lá o que? Cantora de boate cafajeste. Mulher cafajeste.'
.....
Depois de muita ponderação e pensamentos gastos, jogou as duas folhas no lixo. Cada um que visse um personagem.
Ficou feliz em ter dois em seu repertório. O do amor e o do ódio.
E pouco mais interessava.... pouco...
Proteu
para Lílian...
Era um tarólogo mineiro bipolar que teve o seu nome dado pela mãe, uma arqueóloga sensível chamada Renata. Não sabia se seu nome era uma dádiva ou um fardo. Assim como a lenda, as pessoas, e, principalmente, os seus amantes, aproximavam-se dele para saber os seus próprios destinos. Interesseiros. Só que antes do benefício, a bipolaridade impunha um obstáculo de seleção natural e somente os fortes conseguiriam ter o que queriam. Antes disso, vários teriam que mostrar se suportariam as suas monstruosidades, seus loucos instintos de defesa. Ele sempre mostrava a verdade, ou pelo menos o que ele, como oráculo, via adiante. Alice, uma musicista francesa, passou por Belo Horizonte e encantou-se com esse homem de nome fantástico após uma leitura de cartas. Nem a saída da carta Torre seria um obstáculo ao acontecimento daquele fascínio. Passou vergonhas imensas ao lado do bipolar que desfigurava-se em monstro e surtava em público. Aguentou as provas, e como prêmio, realizou o sonho de sua vida e terminou o seu disco de jazz em um estúdio brasileiro, como sempre almejou. Era o destino alcançado como previamente revelado. Alice acordou cedo numa segunda-feira qualquer ao tocar do telefone. Era Renata. Sensível e conformada, Renata revelou que Proteu tinha cercado-se de imagens de São Miguel Arcanjo e cortou os pulsos tirando a própria vida. Fez tudo em seu surto mais eficaz e silencioso, como um ato religioso, e ninguém o escutou. Renata a convidou para o velório do filho. Alice lembrou da Torre após a Estrela. Chegou ao recinto e olhou aquele caixão. Proteu dormia tranquilo. Não seria nunca mais monstro. Proteu tinha tido tantos inimigos, uns até juravam que nem 4 pessoas estariam por lá para levar o seu caixão. Não pensava ser querido. E o local estava lotado. Alice subiu ao altar e fez uma declaração de amor àquele que fez a sua música, o seu sonho realizar-se. Dizia que somente uns poucos conseguiram chegar no brilho daquele homem. Ela tinha tido muita sorte. Quis como última homenagem tocar a sua composição 'Proteu, Amor'. Pro amor dela, fechou os olhos e escutou como se ele a pudesse ver.
Era um tarólogo mineiro bipolar que teve o seu nome dado pela mãe, uma arqueóloga sensível chamada Renata. Não sabia se seu nome era uma dádiva ou um fardo. Assim como a lenda, as pessoas, e, principalmente, os seus amantes, aproximavam-se dele para saber os seus próprios destinos. Interesseiros. Só que antes do benefício, a bipolaridade impunha um obstáculo de seleção natural e somente os fortes conseguiriam ter o que queriam. Antes disso, vários teriam que mostrar se suportariam as suas monstruosidades, seus loucos instintos de defesa. Ele sempre mostrava a verdade, ou pelo menos o que ele, como oráculo, via adiante. Alice, uma musicista francesa, passou por Belo Horizonte e encantou-se com esse homem de nome fantástico após uma leitura de cartas. Nem a saída da carta Torre seria um obstáculo ao acontecimento daquele fascínio. Passou vergonhas imensas ao lado do bipolar que desfigurava-se em monstro e surtava em público. Aguentou as provas, e como prêmio, realizou o sonho de sua vida e terminou o seu disco de jazz em um estúdio brasileiro, como sempre almejou. Era o destino alcançado como previamente revelado. Alice acordou cedo numa segunda-feira qualquer ao tocar do telefone. Era Renata. Sensível e conformada, Renata revelou que Proteu tinha cercado-se de imagens de São Miguel Arcanjo e cortou os pulsos tirando a própria vida. Fez tudo em seu surto mais eficaz e silencioso, como um ato religioso, e ninguém o escutou. Renata a convidou para o velório do filho. Alice lembrou da Torre após a Estrela. Chegou ao recinto e olhou aquele caixão. Proteu dormia tranquilo. Não seria nunca mais monstro. Proteu tinha tido tantos inimigos, uns até juravam que nem 4 pessoas estariam por lá para levar o seu caixão. Não pensava ser querido. E o local estava lotado. Alice subiu ao altar e fez uma declaração de amor àquele que fez a sua música, o seu sonho realizar-se. Dizia que somente uns poucos conseguiram chegar no brilho daquele homem. Ela tinha tido muita sorte. Quis como última homenagem tocar a sua composição 'Proteu, Amor'. Pro amor dela, fechou os olhos e escutou como se ele a pudesse ver.
O Feirão Da Caixa
Foi incrível. O repórter dizia que, no primeiro dia, R$276 mi em contratos haviam sido movimentados. Henrique e Cristina entreolharam-se e ele vomitou um 'vamos lá amanhã, né?'. Aquele aluguel estava muito caro, e nem podiam pintar uma parede de vermelho como o feng shui mandava. O proprietário não permitia. Ela disse um 'vamos', empolgada. Não pensavam em se casar. Já moravam juntos e trepavam às 17h30 da tarde comendo uvas verdes tão naturalmente, que não queriam estragar tudo com a posse de um contrato. Já o contrato da casa, sim. Este, eles queriam. Dormiram cedo, abraçados e às 10h da manhã do outro dia estavam visitando o quinto stand de corretoras. Ficaram olhando os preços e Cristina se perguntava se o amor deles duraria até que a escritura do imóvel fosse lavrada em seus nomes. Esbarraram em um homem chamado Bernardo. Cristina ficou nervosa. Henrique tomou a frente e se apresentou, só assim descobriu que o nome do sujeito era Bernardo. Bernardo falou um 'linda! comprando uma casa, também? você é um felizardo, Henrique. eu ainda amo essa mulher. continuo te amando!'. Despediram-se e o tempo fechou. Era nítido. Henrique nunca tinha ouvido falar de Bernardo. E ia comprar a casa com aquela recém-estranha? Cristina salvou a situação com um belo discurso que começava dizendo 'Henrique, eu vejo tudo que acontece, mas eu te amo. Omito o que sei. Não me deixa de amar por esse passado? O Bernardo me deixou quando eu fiquei mal, escreveu um ADEUS em letras maiúsculas, e me acha inesquecível por que tem saudade de mim. Ele nunca me amou. Nosso relacionamento não durou nem o intervalo inteiro entre dois ciclos menstruais meus. Ele tem saudade dos bons tempos, apenas, e agora compra uma casa sozinho. Você e eu juntos passamos a ponte. Eu sei que posso contar com você. Por favor, conta comigo? Eu te amo!'. A situação e a passageira desconfiança foram esquecidas ao assinar a compra de um apartamento de 4 quartos em Higienópolis, e às 17h40 do mesmo dia já estavam na cama em lua-de-mel. O juiz de paz foi a confiança.
Ele Livrou-Se Do Problema
Como livrou-se dos filhos. E tinha orgulho disso. Livrar-se de coisas e pessoas era igual a ser livre. Apontava o dedo na cara dos outros, gargalhando e dizia 'O-TÁ-RI-O! você acreditou em mim'. Jogava dizendo que a responsabilidade era deles pelo crédito dado. Gestos sórdidos disfarçados de nobreza eram a sua especialidade. Em toda chance que tinha, marcava a diferença e na sua cabeça era um ser universal. Falava do sotaque de outra pessoa como um paulista ignorante qualquer sem educação e não-conhecedor do Brasil, paraíbacearábahiaétudoamesmacoisa, porquê nunca tinha 'visto' em São Paulo um sotaque assim. Como assim? Explica-se: como se olhasse um negro e marcasse a diferença dizendo 'que pele negra diferente, linda! nunca tinha visto uma assim'. Ele somente arranjava um floreio para escarrar seus preconceitos. Odiava quem falava alto. ClassudoRemyMartin! E que não se ofendessem, pois era um elogio daquele grande ser. Era uma imagem velha, nua, decadente. Não era um macho, aliás, macho 'é lá no Nordeste'. Esqueceu do Rio Grande do Sul que tinha machos lindos. Era mesmo somente um machista. Marcava a diferença até se você fosse mulher. Mulher mais nova, então.... Na verdade, não respeitava o do sotaque, nem o negro, nem a mulher mais nova. Respeitava a Tiazinha, ou qualquer global. Statusquoqualoquê? Aí, curvava-se. Levava até tapa na cara. Gostava do biquinho da Carolina Dieckmann. Ali, era uma puta atriz. Talvez, pelo sobrenome estrangeiro que o fascinava, ou por ser loura. Tinha o sonho de aparecer na televisão. Queria os segredos das pessoas para manipulação de farmácia. Dizia que não queria que aquele que estava ao seu lado se sentisse abandonado, e aí mandava uma mensagem dizendo que o tinha deixado. Nem olhava no rosto. Bêbado olharia. Escrevia vizinho com 's', e era poeta-escritor. 'Estou pensando em contos...'. Rodin acode que tem um gênio pensando! Original pacaray! Pelo amor de Deus... Ah, ai de você se falasse em Deus perto dele. Ele não respeitava quem falava em Deus. Tão subversivo.. Dizia que era amigo, mas chegava na casa do que ia ao AA com uma lata de cerveja. Mostrava a droga ao que estava na abstinência refastelando-se naquilo e lambendo os dedos para mostrar como era bom. Chamava os em equilíbrio, sobreviventes de alucinados. E ninguém sofria tanto quanto ele. Que competição era aquela? Doente, você? Mal, você? Ele ficou primeiro. Se saia dessa, MEU! É meu! Incluía os sãos nas suas merdas, e ai deles se ficassem fracos. Aí, ele corria, fugia, tirava o cú dele da reta. Era um fraco, sim. Sabia disso. Não tinha coragem de sair de casa, para não perder a camamesafaxinachequeebanho. E, sim, não esqueçamos que ele não sabia nem dar um banho em ninguém. Nem para salvar a vida de alguém. Ligava e enchia todas as caixas de mensagens possíveis, de voz, de texto, de email. Quando era a vez dele atender o telefone, nada. 'Tô em silêncio', queria respeito. Tinha um fascínio pela emoção, mas todas eram falsas. Aquela cara repetida não emocionava nem um vira-lata. Fingia amor, soltava beijinhos piscando o olho, dava abracinhos, chamava de lindinha. Pura falsidade. Clichê em cima de clichê! Queria roubar palavras de uma que ele achava menina de rua, porquê ele tinha um blog de artista sem conteúdo, e ela podia emprestar conteúdo ao vazio dele. Blog de artista?! Pelo amor de Deus! Dizia que falar palavrão era uma liberação de energia. Deixava mensagens na caixa postal bêbado dizendo 'vá-se-fu-der! vá-to-mar-no-cú! vá-se-fu-der!' ao mesmo tempo que recebia o melhor amorgenerosoabertosuado do mundo. Quando recebia um palavrão como interjeição em frase voltada clamava pela elegância, 'vamos ser elegantes'. Não queria a porta dos fundos, mas livrou-se da caixa de batatas. Era um velho bêbado e achava-se o máximoplusmenthosiceexplosion falando de paixão, emoção, tesão. Estragava os 'ãos' com a mesmice, repetição. Vitrola enganchada! Não tinha obras-primas como outros velhos bêbados chamados de Vinícius, Baden, Bukowski. Era somente um empresário. Dizia ao independente que ele precisava da máquina para sobreviver. Dizia ao maquinado que ele precisava ser da rua. Mentia, abusava, expunha e dizia que era para o seu crescimento. Um puto professor! Merecia todo o desprezo imaginável. Queria ser a verdade. Verdade que tomava lexotan para apagar. Ha! Ali encarava a lama, mesmo! Ô... Cuspiu na cara da que amava-o e se voltou contra ela. Bem feito! Perdeu o carro. Desonesto, fingiu amor para alguém que nunca o tinha tido somente para ser superior, doador de amor aos menos humanos, aos duros, aos frios. E ninguém tinha pedido nada dele. O problema foi embora, mesmo. E ele voltou à sua mesmice. Legal!!! Que legal....
Sunday, 16 May 2010
Imortal
Acordava todos os dias, olhava-se no espelho e dizia 'não tenho mais nada a perder!'. Começava a querer uma nova aventura. A monotonia dos nomes repetidos das ruas já começava a sorrir durante o dia. Merda.... Abriu três websites e pesquisou passagens aéreas para três destinos distintos. A ilha estava longe. Era um domingo de sol. Alguns tinham vindo ao seu encontro. E ela pensando em partir. Fechar uma mala vazia, para preencher de novas coisas no destino a chegar. Alguém falou que vendeu tudo, jogou tudo pro alto, e vai passar três meses fora. Sentiu forte o mesmo pulsar. Era ela falando aquilo também. 'Não tenho mais nada a perder!', repetia. Paradoxalmente, tinha que vender a casa antiga para comprar uma nova. Não queria morar só em um novo lugar. Naquele a.p.t.o era suficiente, deu pra ti baixo astral. Vou. Xau. E a responsabilidade de uma nova solidão seria somente um mudar de endereço. Adia isso, pensou sem parar. Queria ir. Chorava no banho sob água corrente. Chorava ao dormir. Acordava de olhos inchados. Bom dia e 'não tenho mais nada a perder!'. Sentia-se livre. Queria ir. Ao mesmo tempo, não queria olhar-se em outro espelho estrangeiro e dizer 'fugi!'. Queria uma aventura. 'Não tenho mais nada a perder!'. Sua mãe a ouvia com desespero, olhava cabisbaixa e triste o declarar de uma filha sozinha. Pedia que tivesse 'fé', 'desse uma chance, só'. Tudo iria ficar bem. 'Não tenho mais nada a perder', pensava imortal. Podia morrer em um segundo, e nem ficaria ao lado do seu corpo para acreditar na passagem. Seguiria atrás da próxima aventura. Em outro lugar. Não tinha mais nada a perder.
A Melhor Amiga
Foi a melhor 'melhor amiga' que todos poderiam ter por muito tempo. Tinha um sobrenome de aristocracia nordestina, de donos de usinas, de intelectuais do Nordeste brasileiro: Pernambucano de Mello. Tinha nascido prematura, e para os íntimos o seu nome era 'galetinho'. Somente quem a amava poderia chamá-la desse jeito. E foi muito amada. Ela era uma leonina do dia 17 de agosto, e costumava estudar nada para obter uma nota 10 em qualquer matéria escolar. O seu segredo era prestar atenção. Ninguém repetiria nada duas vezes. Ela tinha prestado atenção. Tinha um faro enorme. Não falava muito, pois era puro instinto, faro, pêlos ruivos-agalegados e olhos com sobrancelhas em punho. Suas sobrancelhas eram armas, matavam com uma arqueada de olhar. Que olhar! Decidiu ser médica, e abandonar o sonho da arquitetura. Quando queria ser arquiteta escutava 'Dream a little dream of me' e desenhava com nanquim preto em papel branco. Tomava margaritas como o seu drink ideal aos 16 anos de idade, mas gostava mesmo era do momento educação etílica proposto pelo seu pai historiador em todos os almoços. Ali, degustavam uma cana envelhecida no barril da sala. No seu papel de melhor amiga, segurou a cabeça da sua correspondente várias vezes em banheiros da cidade pernambucana, e era a maior prova de amor que poderia dar. Não regurgitar ao ver o vômito de uma confidente. Era muito admirada pela sua inteligência nata, o seu bobear das situações difíceis e de êxito esplêndido ao final. Não inspirava insegurança. Não fazia esforço. Era pura inspiração de acerto e mote cerrado rumo ao sucesso, disputada por muitas outras meninas, e ainda assim leal como poucas. Sem dúvida, eternamente, a melhor 'melhor amiga'.
Um Sonho De Mulher Que Vivia Do Sonho
Flora vivia de sonhos. Uma pisciana de olhos pretos, com uma paralisia discreta e parcial no rosto e pele muitíssimo branca, que não acreditava em astrologia já que não tinha nada do espiritual associado ao seu signo solar e, por um adjetivo, dispensou o resto da descrição da sua personalidade. Roía todas as unhas das mãos e seu esmalte turquesa descascado nas pontas denunciava o seu desequilíbrio. Tinha acabado de se separar e ele foi designado a sair da casa do outrora dito casal. Ela ficou com tudo: objetos e lembranças. Ele sumiu do mapa. Afirmava quando tinha a chance que um homem novo ali naquela casa só dela, não entraria tão cedo. Admitia que vivia sonhando, e ficava desajeitada caso alguém mudasse o tema da conversa para qualquer palavra perto do sexual. Ficava em silêncio. Não tinha trejeitos vernaculares para discursar sobre qualquer assunto. E quando não sabia falar sobre um tópico, dava uma patada de negação achando uma besteira, ou afirmando que 'não gostava mesmo, não' daquilo que fosse o que ela não sabia. No todo, era muito pessimista. Negativa. Perguntava às amigas o tempo todo 'e isso vai dar certo?'. Não deixava a dúvida reinar por trinta minutos, nem para ver a resposta de um outro ser diante da insegurança. Ou insistia que 'não ia dar certo, não', logo de primeira. Nenhum traço de esperança em qualquer coisa fora do tradicional. Era cética, e somente uma confissão dela para que os outros percebessem que ela vivia de sonhos. Tinha sonhos secretos. Na real, tinha medo de verbalizá-los em voz alta, para que o vento não levasse seus desejos. Supersticiosa era a definição dela. Não tinha muitos amigos homens. Gostava da companhia das meninas e de falar de objetos coloridos, tecidos molinhos e admirar a harmonia dos visuais. Faltava uma densidade à Flora. Não que sua vida não tivesse sido rica de detalhes, sofrida de emoções... Apenas, não transmitia densidade, parecia uma superfícia plana de argila molhada, pronta a ser moldada. Bastava saber o que ela não gostava, e querer estar ao seu lado e seria fácil manobrá-la. Ela não surpreendia. Flora era enorme, um potencial gigante de mulher, mas se auto-denominava como auto-sabotadora. Fingia umas coisas para ela mesma, e em segredo descumpria a regra já que ninguém a recriminaria, somente ela mesma. E como ela não merecia o seu próprio respeito, o sofrimento não seria tão grande assim. Seus amores cada vez mais se tornavam platônicos, puro fruto de muita imaginação e nenhuma ação positiva. Era triste, negativa, sabotadora de si mesma, sem progresso, sonhadora, nervosa e de aparência dulcíssima. Um potencial enorme disperdiçado por ser apenas uma farsa e sempre puro sonho, sonho de ser uma mulher melhor.
Saturday, 15 May 2010
Hotel Cambridge
'Quero um red label!', disse ela com confiança que isso já estava decidido. Estava ao seu lado, era um estranho e era louro. Usava um chapéu branco. Por lotação do espaço, esfregou o cotovelo no dela como se disputando pela atenção do barman. Falou sozinho enquanto a demora a ser servido acontecia, 'ah, mais, non... c'est un vraix bordel ici!'. 'Oueh, c'est ça!', concordou ela no mesmo tom de voz, assustando o francês que se cria sozinho em sua busca por um drink. Ele ofereceu uma bebida paga caso ela conseguisse a atenção dele em 1 minuto. Ela quis competir e o fez pagar a aposta em pouco tempo. Em 1 minuto, os drinks foram servidos, trocaram nomes, disseram o que faziam ali, e que não tinham vontade de dançar aquela seleção musical estapafúrdia. Ela agradeceu o drink e foi embora. Cruzavam-se nas idas ao banheiro, durante uma noite à distância com olhares curiosos pela conversa interrompida. Ele não ousou, não pediu uma segunda chance de conversa. Ela não admirava os que se davam por vencidos diante de um obstáculo e os dois ficaram à distância, no zero a zero. Na verdade, ela não estava disponível. Se estivesse, teria avançado. Era mais caçadora do que caça. Tomou várias doses para esquecer o dia de cão e toda vez que cruzava com aqueles olhos bonitos que a sorriam de longe, bebia mais um gole e pensava: lá vai um típico homem jovem de intenção fraca. Irritou-se com a juventude inútil fraca de intenção e fingiu dançar. Fingiu para ela mesma, pois a música estava inaudível. Mexeu o corpo para liberar a tensão e o dono dos seus 5 segundos de tesão instantâneo chegou vestindo vermelho. Olhou e soube que podia convidar alguém a ir embora dali imediatamente. Proposta aceita. Check-out forte. Veloz e forte.
A Entrega
Abriu os braços e deu-se ao ar, em cima de uma rua arco e alta, como aquelas que ficam sobre qualquer avenida grande paulista. O vento levava o seu rodopio e o seu cabelo ininhado. Ela sentia-se leve. Que diferença do dia anterior. Aquele dia negro. Seis baldeações de trevas no metrô da cidade dragão, que ou a cuspia na cara com fogo, ou a engolia com um sem fim de informação todos os dias. Pra lá e pra cá sem destino de novo no frio. Graças a tudo pelo novo dia. Graças! Agora rodopiava em cima da rua arco com a bexiga cheia de suco de laranja matinal. Sentia a felicidade de uma criança ao ser chamada pela mãe para comer inhame com galinha cozida às 17h de uma tarde de sol. Finalmente, teria o que comer. Uma felicidade de ter uma atenção qualquer. Entregou-se ao ar. Inspirou e expirou fundo. Viu sentido naquela trajetória toda. Se não tivesse desistido da vocação por um tempo, não teria entrado naquela função, que ofereceu aquele posto, naquela cidade nova, que lembrou-a da vocação, que a levou aquele grupo que levou-a a expirar e inspirar o novo. Fazia parte da entrega ao novo. Era pra ser assim. Tinha agora a certeza de que todos os seus momentos feitos cheios de entrega trouxeram e trariam as suas melhores experiências. E entregou-se sem resistir ao vento da rua arco da cidade nova.
Thursday, 13 May 2010
Doce
Alessandra achava que era um pau doce. Ele devia comer muito açúcar, que ficava no sangue, que saía na urina entre as transas empolgadas, que deixava resquício na rôla dura de novo, e que entrava deliciosamente na sua boca. Era doce. Ficava encarando o objeto do seu tesão de joelhos com uma visão de baixo para cima, de boca cheia e sentia mais tesão ainda. Um tesão calmo, intenso, de sangue quente e nem parecia que faziam 12 graus naquela madrugada. Tudo estava quente. Pegava nele com propriedade, e por instantes abusava feroz, ela podia pintar e bordar na pele dele. Costurar até. Pensou em pegar uma agulha com linha vermelha e alinhavar a linha entre o final do joelho e o começo da coxa daquele homem, somente para ver o contraste de cores, linha vermelha em pele branca. Pensou até que naquele momento ele nem merecia tanto zelo no flagelo. É que ele ficava doce e dócil quando ele se preenchia de desejo por ela. A voz masculina ficava macia, o suor era generoso, o contato físico era colado. O tesão do começo havia se transformado, tinha ficado mais sacana, mais aberto, menos corrido. Explícito. Safadeza com o olho no outro olho. Doce. Era um avanço. Os dois tinham pensado em desistir tantas vezes, mas aquela sexualidade cada vez mais terna e invasiva uniu os dois como superbond. Grudados. Problemas existiriam, dificuldades acenariam muitas vezes. Era só o começo de um caso de amor e tanto tesão. A doçura daqueles momentos de felação e chupadas, quando se olhavam de cima para baixo e de baixo para cima salvavam tudo. Eles tinham uma visão aberta. E a doçura do pau, do semên, da nutella na buceta e dos olhares era a maior heroína da história. Doce e viciante. Alicerce de uma união explosiva, complicada, instigante, inconstante, compreensiva, documentada, erotizada e sempre assim: doce.
Wednesday, 12 May 2010
Disque Me Ouve
'Mariana, me ouve? tá aí? eu te liguei ontem... você viu? eu voltei! eu te amo! eu não sabia dizer como. minto! eu sabia. mas, eu achei que você não me amasse, então de que adiantaria dizer? você é linda, generosa, amorosa como poucas, criança, insegura, ciumenta oculta, tem um medo enorme de perder, carente, e nunca se decide. contava duas histórias a duas pessoas. eu sabia de tudo, aceitei. eu não podia era te esperar, peguei aquele avião e fui. queria mesmo era que você tivesse me pedido para ficar. eu ficaria. mas, não pediu. a viagem foi linda. eu pensava em você o tempo todo. os elefantes ressoam qualquer solo deste mundo com sua força, sabia? fazer uma festa dentro de um barco-morada é muito legal, sabia? ouvi tanta gente vivida, tantas histórias de vida, sobrevivência, guerra, sabedorias populares. e só queria era te contar tudo. só pensava em você. eu não sei narrar bem, você sabe... ainda assim ia tentar por ter tua atenção. tentei me envolver com uma sérvia maravilhosa, mas ela não me entendia quando eu ficava nervoso como você me entende. você me puxava o meu melhor. eu só queria te beijar. será que você me incluiria em sua vida à luz do dia? ou levaria três anos? eu só tentei me concentrar na minha vida. você me ofendeu tanto... eu fiquei tão mal. urrei em público, expûs meu sentimento aos estranhos. julgaram mal. fiquei mais mal ainda. nunca fui indiferente. senti tudo calado. realmente, por você não se decidir e não me pedir para ficar, eu fui embora. você me acusou de não te aguentar. mentira... você sabe que eu aguentaria, eu aguentei, eu provei. eu provei sobriamente e sem resquício de dúvida. a merda é que eu não gravei o filme para te mostrar. você estando no meu lugar teria ido embora. a questão foi a falta de decisão. eu precisava que você calmamente, como eu, tomasse um firme partido. sem escândalo. ninguém te pediu escândalo. e as coisas engrenariam, e eu não teria viajado para tão longe. eu precisei de você e te liguei como você mandou, pois estaria disponível. você nem notou. aí vi que você nunca notaria quando eu precisasse de você. isso é passado. agora, eu voltei da viagem que eu precisei fazer. distanciei o meu físico e notei que você não aguentaria minhas fraquezas como eu aguentaria as suas. você me deixaria. você está com alguém? eu sinto falta desse cheiro seu de roupa guardada em gaveta sem ar. imaginei seu entorno através do meu olfato. e o lugar pouco importava. eu queria era você. te liguei para dizer que amanhã viajo de novo. alguém se ofereceu de vir me buscar. ela é legal e tem boas intenções, quer ter um filho comigo. nossa! ela ainda não é você. me pede para ficar? eu te amo tanto, tanto... amor não precisa ser dito o tempo todo, sabe? o mais importante é que eu nunca te disse um não: não te amo, não quero você, você não entende, você não é essa outra grande mulher. assim como você já me disse. isso é respeito. pensa nisso? a porta escancarada fechou para que eu chorasse um pouco sem você ver. eu quero que você veja minhas lágrimas e meu corpo nu. responde? amanhã viajo de novo. pára de me julgar e me ouve!'
Biscoito Da Sorte
É um brinde dado ao final de uma comida pesada. Às vezes, é o melhor que existe naquela comida toda. O biscoito da sorte é um momento de euforia. Abre rápido, QUEBRA ao meio, bota tudo na boca de uma vez e enquanto mastiga, vai e lê a mensagem do dia. Amassa o papel e joga fora, não tem serventia, é a fortuna que tem essa função. Mas, traz sorte. É doce, duro de mastigar com força, grande para se engolir de uma vez. O biscoito não se acha em toda esquina, a todo momento. É raro. Para se ter um desses você tem que ter fome de oriente-se. Aí, ele aparecia pomposo com o título de fortuna. Soberbo com a sua sorte suprema. Nem parecia que ia ser jogado fora, insistia em ter importância com seus milênios de tradição. O biscoito é uma saborosidade que dá gulodice. Dá vontade de comê-lo o tempo todo. Para ler várias sortes bobas jogadas ao vento. O biscoito da sorte é único. Dá-se status demais e por isso fica superficial. Se fosse um 'quebra-queixo' seria cult. Seria massa, véi! Era somente o nome sorte, fortuna que dava aquela calda de frescura desnecessária. De qualquer maneira, a merda do biscoito era 'djilíci'! Gostoso pra caralho.......
Carol
Cansou de ser letra de Jorge Ben: simPÁtica! Olhou de soslaio aquele sentimento dito rasteiro que estava sempre lá como um preto velho protetor e deixou sua zenzice de lado. Disse 'vem cá, vamos fumar um cigarro e ter uma conversa'. O sentimento explicou que estava de saco cheio observando aquele movimento kundalini, ao som de Osho, cheirando a pavitra dhoop, com palavras de bondade e pedras de boas intenções do caralho a quatro. Perguntou se o que tinha acontecido tinha que ser mesmo esquecido, embrulhado em papel alumínio de zenzice. Só iria conservá-lo fresco como queijo minas. Nem parecia aquela que à primeira vista conheceu uma qualquer e perguntou 'quando vai tirar esse cabaço? já tá na hora'. O sentimento estava decepcionado com a Carol, Carol Bela! Já tinha esse nome e queria ser mais uma a mais? Instigou um 'levanta, POR-RA! pede pra sair!'. Carol levantou-se da mesa e foi acender o seu Free no bocal mais forte daquele fogão quatro bocas. Ah, ah... era assim que tinha que ser? Na lapada? Acabou o cigarro baforando-o todo ao olhar o teto infiltrado pelo vizinho de cima, aquele puto que escutava Beyoncé aos sábados. Tomou um banho e vestiu uma fio dental dançando sozinha ao espelho. Encarava aquelas tatuagens nos ombros e perguntava a si mesma 'que merda feita foi essa?'. Do auto-desprezo nascia a raiva. Dançou um disco inteiro de trance. Osho foi pra puta que o pariu com aquele turbante roxo e aquela barba que suada devia dar nojo. Parou de ser um sorriso agradável, um olho condescendente e começou a ser desconsiderada em seu dia a dia. Simples, deixou várias pessoas falando sozinha em plena conversa. Plácida, dizia 'eu acho uma merda!' ao final de cada exposição nova de idéia ouvida. Tentava sua faceta mais indiferente, seu lado egoísta sem culpa. Não queria mais ouvir música relaxante, queria perturbação. Estava vidrada na raiva. Com uma fissura de chupar saliva rápido para não babar de tesão naquele sentimento. E já estava tão louca de paixão que pensou em ter um filho, transformar o corpo, casar com aquilo inanimado que era tão mais instigante, pensou em mudar seu nome para Lorac. Conseguiu em um dia e meio o que anos de zenzice não lhe deram. A transcendência.
Tuesday, 11 May 2010
Ganhou Um Presente Escrito A Punho Que Dizia...
...: 'o maravilhoso é que quase não nos conhecemos e sinto totalmente o contrário. A ... tem uma história linda que diz que no centro da .... moram os grandes seres de luz, grandes filósofos e artistas. esse lugar existe aqui na terra, mas só encontra quem está preparado, não adianta procurar. ... se abre pra você! tens agora uma amizade'. A beleza era ter algo escrito a punho, uma dedicação de pensamento, um cuidado, de um estranho qualquer. Cantada? Ha! Bajulação? Não. Bobagem? Ah... Escrito a punho era tudo tão mais bonito. Ainda conquistava aliança com gente decente e agradeceu a Olorum. Tinha certeza de que estava no caminho certo. E foi!
Mente Percussiva
Tinha uma dessas e queria colorir as conversas, como o percussionista coloria autonomamente as canções com seus sons aleatórios. Todos iam falar ou tocar, ela iria colorir tudo. Acusavam-na de dispersa. Tá, vai! Perdia o foco com bobagens, repetições, ficava difícil prestar atenção em figurinhas repetidas. Não podia ser diferente, não? Fazer um esforço? Tinha mesmo era vontade de repetir o amigo que ficava reacionário bêbado e gargalhava dizendo: 'não sou seu amigo, ou não presto atenção em você porquê você não é criativo'. Ao lado daquele anarquista subversivo, a resposta dada por ele ao perguntar do 'fazoquêvocêfazoquêporaqui' era: 'ela é uma artista e pronto!'. Não conseguia saber nomes precisos de filmes, diretores, atores, frases ditas, autores. Para ela, isso era resposta para perguntas de conhecimento geral em provas de jogos televisivos. Precisamente, no canal do SBT. Premeditação, para ela, era dez mil réis. Não queria premeditação em suas conversas, precisão. Queria rapidez na resposta, a puxada rápida do riso, rápido, rápido, rápido... Se demorasse, ela bocejava. Precisava de ação, suar, bater forte, bater tambor, ouvir alto e produzir sem restrição. Rabiscava papéis e depois revia aquelas palavras perguntando quem as tinha escrito. Ouvia umas gravações e perguntava quem cantou aquilo. Era ela e nem acreditava. Quando reconhecia sua própria letra cursiva de anos atrás ficava emocionada e se dava um alívio, alisava os próprios pêlos dos braços com um pouco de orgulho, piscando os olhos e rindo sozinha pelos cantos da boca. Ainda pensava. Diziam que ela era egoísta, isolada, defensiva, dura. E perdia a paciência nem ouvindo, porquê ela nem tinha parado para notar quem estava falando, nem tinha procurado achar defeitos em outros. Apenas, deixou os outros viverem suas vidas. E eles lá, comentando. Ela não corresponderia às expectativas. Estava concentrada em outras coisas, queria viver, aproveitar o sol, descobrir a cidade nova, ser feliz, conhecer mentes intrigantes. Pulsava energia, queria voar, tum-tum-tum, ka-ta-plá, ka-ta-plá. Percussiva. Só queria continuar a ser percussiva. Sozinha ou acompanhada.
Monday, 10 May 2010
O Apego Ao Delicioso Sofrimento
Amália entendia disso. Como se libertaria de tanto sentimento chorado assim de uma hora para outra? Nem notava que um segundo tinha mil milésimos de segundos e que enquanto sentava em seu divã de feira em todas as esquinas da cidade, tudo mudava ao seu redor a cada um desses milésimos. Somente ela se escutava. Vez por outra, um cúmplice certo assinava embaixo, ficava ao seu lado, somente para induzir o sofrimento como forma de manipulação. Manipulação fantasiada de libertação, criatividade e loucura. Imagina esse cúmplice ver aquela Amália crescer, ser solar, ir adiante? Ele ficaria para trás, anos e anos ligando daquele mesmo número que nunca mudou, daquela casa sem movimento, para falar do passado. O telefone não pararia de tocar e ela não esqueceria de toda maneira, então, que lembrasse ela de tudo que ela sofreu sozinha. Da pessoa que morreu e já estava em outro plano, mas nem podia descansar com tanto apego. Dos que ficaram mal por serem abandonados enquanto Amália lembrava do morto, e nem foram notados, cuidados, ou tiveram atenção quando eram mais frágeis. Amália é que está ficando frágil e agora lembra de todos que ela nunca lembrou antes. E os esquecidos cansam-se, irritam-se com tanta emoção súbita. Rezavam por leveza e frescor na nova fase de vida presente. Porquê Amália demorou tanto em notar que ela não se movia, enquanto eles estavam ali pensando nela e esperando orgulhosos? O apego ao sofrimento passado era um personagem de Amália. E ela nem notava. Perdia mil e uma oportunidades de ser feliz. Até que, na noite mais fria, chegou a baixinha carrancuda de olhos reviráveis e disse: 'deixa isso ir! tá na hora de ir embora. isso impede teu talento, prende o que tem que ser visto. solta esse apego a esse sofrimento. liberta isso'. Amália não reagiu bem, jurou morte. Como deixar o pacto de sangue que fez com a dor? Aquela estranha... Também tinha pedido algo em troca ao sofrimento, e como obteve o favor, a verdade é que vendeu a alma. A mensagem fria e direta da carrancuda foi: 'observa esse apego ao sofrimento!'. E começou a pensar no apego com menos carinho do que antes, comprou um porco cor de rosa e começou a juntar dinheiro para comprar a sua alma de volta. Economizando de verdade.... Quebrar porcos rosa e gastar todo o dinheiro para depois reiniciar a economia com um novo porco rosa pronto a ter seu barro esfregado entre as mãos não era solução.... O difícil do apego ao sofrimento para Amália, era mesmo ver que ela nem conseguia ser feliz, quem dirá engordar porcos cor de rosa para comprar uma alma no futuro? Era o fracasso em cima do fracasso do fracasso flambado no mais puro sofrimento. E, consequentemente, delicioso.
Sunday, 9 May 2010
Thou
O melhor amigo sentou no quarto lugar vago daquela mesa surreal. Também não tocou a água da loucura, o portal do insano, por querer a produção completa após cair do precipício e somente restar a sua existência. Olhou-a com saudade do outro lado da mesa, enquanto aquele casal bebia e desconsiderava-a como capaz, tratavam-na como uma menina intrusa e passageira. Seduziam-se com olhares escondidos como 'x's em equações e tinham um mundo só seu, enquanto ele, o melhor amigo, do outro lado da mesa repetia que estava cansado como ela, não tinha forças para levantar, que sentia falta, e não sabia como a recuperar, não sabia o que fazer sem ela, com ele, daqui para frente. Eles se olharam em segredo, em silêncio, e o melhor amigo falou em modo telepático: 'a gente consegue ver isso aqui. eu te ensinei a reconhecer um verdadeiro pub e a minha cultura eu te dei, como te dei minha vida. isso aqui é falso. o que você quer é amor, você sempre me esperneou isso, e eu não ouvi. olha, escuta um pouco a conversa deles ao seu lado: nenhum desses dois aqui te ama. eles te usam. ele diz que ela é a mais importante da vida dele, e ela te jura guerra se você o maltratar. vai embora. eu não soube te amar e me arrependo, como você pode se contentar com isso? se você queria a confirmação, você a teve. observa!'. Ela ficou com vergonha. Ligou para uma pessoa que a amava e que queria saber se realmente ela estava bem durante aquela noite. Saiu da mesa e o melhor amigo desapareceu. Só queria tê-lo ao lado repetindo o 'eu te protejo' que o da mesa surreal ouviu tão bem. Voltou e ficou pensando no homem anglo-saxão errôneo e grave que não soube amar, perdeu e se arrependeu profundamente. E que naquele erro provou ainda ser o seu melhor amigo.
Thursday, 6 May 2010
A Puta Da Augusta
Reconheceu a placa do carro do amante de longe. Ele parou em ponto morto no seu ponto de rua e ela disparou: 'Voltou, gostosão? pensava que você ia demorar depois de ontem!'. Ele foi direto ao ponto, mandou ela entrar no carro. Ela obedeceu, ele era cliente antigo, confiava nele porquê ele era o único que prometia uma eventual ajuda caso algo acontecesse, apesar de nunca ter feito nada por ela. Ela ouviu dele: 'Você viu a minha mulher ontem, não foi? Sabe onde a gente mora...'. 'Era a sua mulher, gostosão? Não sabia... Lindona, ela... Que pena que é ruim de cama, hein? Ha!'. Ele dirigiu em silêncio por 15 minutos, e ela, despreocupada, ia fumando um cigarro com o braço para fora da janela do carona. Pararam o carro em um acostamento de subúrbio qualquer, e ela ficou surpresa: 'Cansou do motel, gostosão? Tá ousado, hein? Ao ar livre? Gostei... O que é que você quer que eu faça hoje? te chupe, te ouça, te cavalgue... diz! eu faço o que você quiser, você sabe!'. Ele: 'vira de quatro, na frente de todo mundo! vou te humilhar hoje!'. 'Ok! vai fuuunnnndo, gostosão!'. Arrombou violentamente o cú daquela mulher da vida, mas vários pensamentos não deixavam aquele pinto tão ereto quanto ele queria. 'Quer uma ajuda antes, gostosão? Eu faço o que você quiser!'.... Ele mandou ela calar e olhar para frente. Puxou o gatilho em dois tempos como tinha treinado com um amigo de bairro, e disparou um só tiro na nuca da puta, à queima-roupa. Sua boca explodiu na hora com aquele tiro de 12, seu rosto já estava irreconhecível e a arcada dentária defeituosa. No disparo, a bala entrou na nuca, saiu pela boca, passou pelo vidro aberto do carro, e encravou na parede da calçada daquele acostamento deserto. Ele abriu a porta, chutou e deixou o corpo na calçada vazia e, enquanto ainda borrifava Veja X14 na mancha de sangue do estofado do veículo, falou com a boca cheia de saliva: 'Isso é para você nunca chegar perto da minha casa, ou triscar em ver minha mulher de longe, puta safada!'. Nem uma alma na rua se via, e ninguém iria aparecer. A puta que sempre acolhia aquele homem em crise foi pega de surpresa por supôr bondade no cliente com culpa. Ela olhou a mulher dele de longe numa rua por acaso, e nada tinha feito. Morreu naquela calçada publicamente humilhada, nua, xingada, e seria enterrada irreconhecível como indigente em um caixão sem direito a velório ou vidraça de rosto por ninguém sequer saber que ela estava morta. Ele voltou para casa, e dormiu abraçado a sua mulher, prometendo nunca deixá-la. Nem que fosse feliz com qualquer outra.
Marcello
Era um mar de amor. Já tinha apanhado tanto da vida e ainda assim, todas as vezes que ele aparecia tinha na mão um punhado do mais puro amor. Sua ex-mulher foi a que mais beneficiou-se dele. Ela foi embora com outro, e ele ainda assim foi leal ao amor por ela e sempre ficou ao seu lado, fez dela a mais brilhosa, a estrela central e principal mesmo que não estivesse com ele. Puro amor. Era engraçado, sagaz, afiado, generoso, crente no que ouvia, inspirador, elogioso no essencial, verdadeiro e cínico pelas beiradas. Quando não podia ser verdadeiro, nunca enganava. Sumia. A verdade é que ele não tinha o que oferecer. E tudo bem. Saía nas fotos com o sorriso mais bonito, ainda que com o rosto triste. Não tinha nunca vergonha em ser verdadeiro. Não escondia tristeza. Fazia os outros chorarem de saudade dele. Como podia ser tão belo aquele ser? Estava longe de ser ideal, e às vezes traía, sim. E quando traía outra pessoa sofria mais do que a traída em questão. Voltou e chegou na porta daquela sofrida depois de uma longa viagem. Sabia que ela sempre pensava nele. Bateu com força aquela porta fechada. Insistiu, porquê ela iria abrir mais minuto, menos minuto. Pensado e feito: ela abriu a porta. Ele a olhou com seus olhos de viajante, ricos, densos, sofridos, visíveis e intensos e perguntou: 'vamos ser felizes? vamos juntos?'. Ela caiu de joelhos e chorou. Era tudo que ela sempre quis. Não hesitou em pegar aquela mão. Agarrou! Uhú! Fecharam a porta e o que estava atrás e foram felizes. Quem quiser que duvidasse, não acreditasse.... Seguiram em paz, de verdade, com verdade, para a verdade.
O Uso
Era um oportunista disfarçado de comunista. Aliás, não entendia nada de comunismo. Comunistas faziam a revolução, como os russos que falam alto na entrada das estações de metrô de Moscou, e instigam o confronto com os estrangeiros. Comunistas amam o confronto, a mudança. Não entendia nada da luta de classes, da união dos grupos. E ainda ele, no seu conforto, dizia-se comunista. Soava bonito ser um Trotsky. Qual Frida Khalo não se apaixonaria por ele? Ainda que outros fizessem arte, textos, e tanto outra coisa qualquer gratuitamente, ele queria utilizar a palavra de alguém como dele com o disfarce de um amor exacerbado por ela. Dizia: 'eu amo demais isso que você escreveu. vou pôr como meu, tá?'. Queria que todos dessem sua alma como domínio público, sem apego. E sugava o suco de todos. Também anulava o objeto do seu amor, fingindo afeição. Comia aquela mulher vulnerável na casa dela, deixava-a pensando nele, despejava nela suas preocupações diárias como um disfarce de amizade alicerce da relação, suas culpas como um toque de cumplicidade da relação dos dois. Nunca a deixava leve e pouco a via rir. E nem notava isso. Ao contrário, não propunha nenhum alívio àquela relação. Somente peso e mais vulnerabilidade: para ela, logicamente. Se ela aguentasse, seria digna da sua dedicação. Queria moldar aquela mente, achava-a crua, ainda que o atraísse. Às vezes, mandava ela tomar no cú, pro caralho, como o próprio 'Príncipe' de Maquiavel que se auto-denominava, porquê era 'maquiavélico'. Rimava até nisso. Era piegas, mas ela era que tinha defeitos. Desde o seu tom de voz, à postura, aos seus detalhes. Ironizava a dedicação de ouvidos dela a ele pedindo-a que corresse, fugisse dele. O domínio tinha que ser dele, o amor dela tinha que ser a ele, e também a palavra dela podia ser usada por ele, o aviso constante do perigo era dado somente por ele. Ela o serviria e ele não correria risco algum, sem oferecer nada de bom a ela. Afirmava que ninguém era criança ali, e a responsabilidade por aceitar era dela. Era isento de responsabilidades. Mas pensava ser comunista e ousado. Ela somente era um teste, um uso temporário. Ela era um cão sem dono, alguém que ele achou na rua da amargura e resolveu dar uma tigela de água, e um pedaço de carne. Mas, ela não poderia nunca esquecer que era um cão sem dono, daquele oportunista que mandava-a pro caralho se levasse um não dela. Ela uma vez pediu um tempo, e ele não deu, ela nunca teria tempo para ela ao lado dele. Ela conseguia ver todos os defeitos daquele oportunista fraco, e ainda assim amava-o. Era fiel ao seu sentimento à distância desde que decidiu ir embora, ao ser mandada pro caralho pela última vez. Chorou por confiar no oportunismo e ter dado uma chance ao amor. Voltou a ser forte e luminosa, magnética como sempre foi, como aço reluzente de reflexos alheios, um espelho de aço. Frio, forte, inquebrável, muito usável, espelhado e duro.
Tuesday, 4 May 2010
'Torça pela minha esclerose'
Disse ele a ela. Ele havia sido traído na intenção. Era a pior das traições. Ela fingiu que queria, ele foi com ela e ela voltou atrás. Não quis mais executar o plano. Não aguentou o tranco daquele tanque de guerra, era muito compromisso para ela, e ela perderia mais oportunidades de vida com esse mero trabalho do que ele perderia sem ela no projeto. Largou de mão aquele homem crédulo que confiava naquela imagem da mulher ideal que atordoava homens ainda em fase oral. Mesmo que fosse uma porta fêmea de mulher. Ela, na verdade, nunca o tinha tido como sério, somente achava que com ele seria viável. Na verdade, o interesse era dela em se promover como séria. Coisa que ela não era. Ele, como mártir, caiu na voz sedutora da garota, mas a menina fugiu. A má escolha, na realidade, foi dele. Existiam outras crianças fazendo e executando planos mais sérios do que a menina que ele escolheu. Ele foi seduzido por uma imagem somente. Um oásis campeão de bilheteria, já que carisma não se compra e ela o vendia. Ainda assim, uma imagem vazia. E quando notou que tinha errado na escolha, sentiu-se traído. Nem resposta, nem respeito, nem aceno de um próprio fim civilizado ele recebeu. Ela preferiu o conforto da sua vida cotidiana à aventura do plano ousado, pois, secretamente, queria ser uma 'Garota de Ipanema'. Inesquecível, ainda que sem talento. Somente a esclerose dele o faria esquecer aquela decepção. Aí, sim. Ele voltaria a acreditar nela e daria uma segunda chance abraçando-a apaixonadamente e cochichando no seu ouvido mais uma vez que ele a faria ser grande, como ela merecia ser. E seriam felizes juntos: ele, ela, o plano, o sucesso e a esclerose.
Duvidosos
Eles eram duvidosos. Um casal cheio de detalhes, manias, paixões, obsessões e desatinos. Ela era mais misteriosa do que ele. Ele era mais perverso do que ela. Completavam-se e achavam-se criminosos. Inspiravam a dúvida em todos os que os cercavam, por nunca estarem em concordância em público. Quem acreditaria que eles poderiam finalizar algo juntos se nem eles mesmos acreditavam naquele dueto? Ela foi chamada à cidade mágica, e sonhava ainda em fugir de volta para a sua ilha caverna. Ele descia a estrada e ainda voltava todos os dias para visitar o seu passado. Andavam indecisos pelas ruas, e não sabiam se suas mãos deveriam se entrelaçar, ou não. Quantas mil outras pessoas estariam no banco de reserva do jogo de cada um deles? Muitas mil. Preferiam ainda jogar mais um pouco um com o outro. O xeque-mate era mais delicioso ali naquelas partidas. Era o jogo mais bonito, mais aberto, mais verdadeiro, mais medroso, mais indeciso de todos os jogos. Eram os dois, um casal não-convencional e roubavam idéias um do outro. Alimentavam-se de idéias, cresciam juntos e sem o credo de ninguém aos seus arredores. Era a união de dois famintos e sem-teto. Estavam perdidos e era como se morassem debaixo de uma ponte, ficavam tristes. Queriam aprender a ser feliz. Juntos. Juntos, ainda, eram de uma força enorme e todos olhavam para eles trocando olhares no metrô, na sala de aprendizado, na mesa do restaurante, mas nunca olhavam para eles na rua. Eles desapareciam na multidão. Culpa deles mesmos. Se não sabiam entrelaçar mãos em público, como poderiam fazer qualquer outro crer que eles eram um só? Ficavam assim, na dúvida. Duvidosos e juntos.
O Dia Do Fim Do Mundo Velho
Heloísa já sabia quando seria o dia do fim do mundo. Cairia numa terça-feira, dia 03 de maio de 2011. Sabia que na madrugada desta terça que começaria tensa, todos estariam conformados com o começo da semana de trabalho. E, após a típica segunda-feira rainha do cansaço, o fim de tudo pegaria de surpresa a mais espiritual das mulheres e o mais entusiasmado dos homens. Seria pior ainda quando amanhecesse, e Heloísa, em um lampejo de idéia, pensaria que o Djavan cantou essa pedra final há décadas atrás. Ele estava certo. O desespero tomaria conta dos bípedes ao seu redor e o dilema final da vida de todos teria que se concretizar em minutos. Antes do fim. Vários bebês indesejados seriam deixados para trás em seus berços, e quem quisesse deixar algo grande do seu passado para trás teria essa única chance. Só precisaria perceber isso em um tempo, não dois. O seu amante teria a urgência de ouvir o seu 'eu te amo' em tom claro e se assim fosse clamado, esse amor viveria em um outro mundo. No novo mundo. No mundo passado à régua, destruído e modificado. Quem tivesse família em cidades portuárias como as de Santos e Recife, correria chorando e soluçando se decidisse continuar uma existência. A falta de areia nas praias faria com que as cidades fossem engolidas como as bordas das tijelas de empadas crescendo no forno alto. Muitos não teriam tempo de dizer adeus aos seus e sofreriam tanto que o futuro teria um início penoso. Mas, ainda assim seria futuro. Nada seria fácil, como não é fácil em nenhum recomeço pós-terrorismo. Os mais influentes teriam a chance de mudarem de ramo e ingressarem na carreira de líderes do novo mundo. Os que tivessem entre 16 e 24 anos de idade seriam encarregados de reproduzir novos humanos como profissão, e os clãs se formariam mais uma vez: dos negros, dos bons, dos brancos, dos agressivos, dos justos, dos artísticos. A personalidade definiria a conjunção dos novos grupos humanos. Heloísa tinha decidido que, cansada, não saberia reaventurar-se no novo sem o seu amor que não estava sempre à mão, e como não o tinha por perto naquela manhã de desespero, sem ele, ELE, mataria-se mergulhando no mar revolto, e bateria a cabeça em uma parede engolida pelo mesmo. Não cantaria suas próprias canções no mundo novo, e seu corpo encolheria afundado, espremido entre os escombros do mundo velho. Tudo pela falta do 'eu te amo' que ela não conseguiu gritar a quem queria naquele 03 de Maio de 2011, o tal dia do fim do mundo velho.
Monday, 3 May 2010
A Recaída
A recaída no vício tem o seu valor. Valor de dar um tapa na sua cara e chamá-la de covarde. Você chapou, desceu mais uma vez ao inferno, viu um filme do passado e não gostou. Bebeu umas tantas em público, mantendo a 'compustura'. Isolou-se rápido e empenhou-se na destruição da mente com afinco. Naquele noite de recaída, nada tinha mudado. Todos os esforços em virar aquela página de papel reciclado molhada de álcool estavam ali e você nem podia acender um fósforo. Cometeria suicídio se incendiasse aquela folha de papel naquele instante, pois estava nadando nela. Os pensamentos do dia seguinte foram as tentativas de lembrar todos os lapsos de memória da noite anterior. Investigar o porquê do esquecimento, pensando ao mesmo tempo que estava velha e que aquela ressaca e aquele suor tóxico liberado na corrida forçada do dia seguinte eram o espelho do seu fracasso. Aquela recaída foi a prova da sua fraqueza, auto-sabotagem, descontrole, desequilíbrio. Aquele puto e 'infeccionante' primeiro gole. Respirava fundo hoje e ainda sentia o cheiro daquela vodka e daquele limão com saudade. Ao mesmo tempo, chorava de vergonha. Era uma covarde.
Do Chão, Sim!
Foi menino no Sertão, e já tinha enrabado muita galinha de capoeira no quintal. Cresceu com pêlos ralos no queixo e buçando um bigode que nunca era completo mas com uma confiança em si mesmo assustadora, na cidade pequena do seu grande interior nordestino. Cria piamente que matava qualquer pomba com a sua rola. Era a bala que matou Kennedy, e todos os outros o côco do cavalo do bandido. Cresceu sendo protegido e todos o diziam com zelo: 'do chão, não! toma outro! não pega do chão, não!'. Que bom é ter uma auto-estima. E o Sertão ficou pequeno para aquele menino que virou moço e queria virar homem em outro lugar. Foi para a cidade grande do Sudeste, fazer um curso técnico de mecânica e sentiu o peso dos importantes de outro lugar. Teve que adaptar-se em tempo nulo. O cru da galinha, da pomba, da bala não eram mais importantes. Implicavam com o seu sotaque e ele irritava-se com frequência. Resignou-se por várias situações de sua vida, calou-se, comeu vários ratos na vida. Não tinha a importância que tinha no sertão, na sua terra natal, não era o filho do dono, e ninguém pedia encarecidamente água na sua porta, ou qualquer outro favor. Quem pedia favor agora era ele, as pessoas não o viam, não entendiam a sua espingarda, como ela era grande. As pessoas ao seu redor respeitavam a bomboniére na entrada do hall, o oferecimento de uma água ou um café, o cheiro de 'Bom Ar' no banheiro do restaurante, um manobrista à disposição, um guardador de volumes no estabelecimento, a dose de whisky 15 anos, um tom de voz sem alteração e pausado como o de Ana Maria Braga, cores alegres como as que usa Romero Britto, um porte chique como o de Sílvia Pfeifer, ser feliz como Xuxa ao fazer sexo somente com amor. Ele, ao contrário, nunca entendeu destas firulas. Fazia, subia, descia, limpava, movia, trepava, mas agora estava sozinho. E aprendeu em pouco tempo que tinha que ser do chão, sim! Sobrou o chão, a lição da vida e da luta da capoeira: chão e terra sempre como arte, arte de guerra. Não tinha o apoio de ninguém e sabia que fazia o que era da sua lei com lealdade. E queria experimentar qualquer coisa. Sim. A partir de então, do chão até, sim!
Saturday, 1 May 2010
Por Favor, Sim?
Inês, a escritora de literatura selvagem, destilava a pura percepção dos submundos os quais já viveu nas suas palavras. Vivia disso. Funcionava como um descarrego, despreendimento de cóleras, libertação dos pensamentos estagnados na mente agressiva. Quem a lia imaginava-a a mais raivosa, bruta, não-lapidada e estúpida das mulheres. Ela não sofria com isso. Idiotas são os que não ouvem bem, balbuciam algo e não vêem o que realmente alguém pode ser. Poderia sofrer por não se mostrar inteiramente, mas isso lhe cabia como defesa muito bem, e já que a face agressora existia predominante como um orixá de cabeça, ela não se envergonhava. Não estava mentindo, ainda era a sua verdade. Quando falava brutamente não tinha intenção de magoar. Só queria expressar-se e tinha o seu direito. Sentir emoção na fala dela, ou não, caberia à audiência dos seus textos. Alguém um dia expressou a sua mágoa e pediu que ela não o ofendesse tanto assim. Ela, por respeito, ou por carinho, parou o seu entorno de atividades, sentou-se ao seu lado, pegou o rosto tenso desse homem macho com as suas mãos finas e disse: 'eu nunca quis te magoar, você me lê e eu sou grata. eu tenho certeza de que você não me entende. eu não julgo você, sua vida, não existem carapuças armadas especialmente para você entre os meus dedos... são coincidências e eu só posso falar por mim. É o que eu faço, minha obrigação, pois ninguém mais falará. Nem você'. Beijou com ardor aquele homem que vez por outra chorava e tinha tanta culpa nas costas. Apesar das culpas não serem suas, ela somente o beijou com fervor para mostrá-lo que ele era importante. Beijou o mais doce dos seus ósculos. E ainda pediu perdão por tocar em suas feridas, que inversamente eram as delas. Olhou o mesmo nos olhos e disse: 'Por favor, sim?'. Não esperou uma resposta, e sim, nunca mais criticar alguém do qual gostava tanto. Ele e qualquer alguém só a precisariam ouvir, com atenção, e o botão da agressividade nunca seria acionado. Um botão, aliás, por si só muito destrutivo e perigoso. Mas, ele era ainda imprescindível e significava a sua sobrevivência.
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com