narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Thursday, 29 April 2010

Os Semáforos

Confundiam o traseunte. Eram tantas encruzilhadas, que a mente cosmopolita embaralhada trocava o sentido das ruas, e sentiu tontura. Não foi a terceira buzina alta contra o seu corpo, no terceiro cruzamento seguido, que alertou a mente embaçada. Foi uma senhora dizendo: 'Êeepaaa! Cuidado, pelo amor de Deus!'. Foi a vergonha de ser chamado à atenção, vergonha de voltar a sua atenção ao verbalizar na voz daquela senhora com medo. Notou que devia parar. Tinha um bar na esquina. Alguém bebia uma cerveja... mas pediu, em contrapartida, um suco de laranja. Uma voz suave chegou, carinhosa: 'Eu vi você, por favor, senta! Respira um pouco antes de continuar'. Obedeceu à voz calma. Sentou. Respirou. E olhava de longe a ordem: verde, amarelo, vermelho... verde, amarelo, vermelho... verde... Do vermelho não se podia voltar ao meio termo: ao amarelo. Seria verde. Tinha que ser verde. Ficou sem entender quem eram os homens verdes, ou homens vermelhos que ajudavam os em espera. Porquê não haviam homens bondosos e amarelos para alertar uma espera?! Achou uma sacanagem. Que merda, que cú isso! Não inventaram homens amarelos para quem espera. Homens amarelos remediariam o perigo de um pára-choque dianteiro contra um corpo. O traseunte olhou para a voz calma, ao final barulhento e sugado no copo de suco, e perguntou se ele era o homem amarelo. Ele retrucou com a pergunta corriqueira da massa, de todos, do povo: 'você está bem mesmo, mesmo?'. Afirmou que sim. E atravessou os sinais olhando os homens contrários e obedecendo às suas ordens. O vermelho leva ao verde. O verde leva ao vermelho. E aceitou a falta do amarelo reclamando em voz alta que ainda assim, se não fosse uma filhadaputice, seria no mínimo uma grande sacanagem a falta de homens amarelos ao cruzar uma via larga e perigosa.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com