Era até uma mulher letrada. Não era uma propensa a ciladas.
Diplomada, especializada, treinada, viajada, vivida, sofrida e recosturada, falava línguas e conversava muitos assuntos muito bem com muitas pessoas, absorvia histórias e as traduzia de outra maneira que parecessem ao longe serem originalmente suas. Era uma intérprete.
Até seu pai, tão exigente com mulheres, orgulhava-se dela por ser uma mulher de muitos 'recursos'. Sua mãe transmitia que ele dizia escondido: 'ela é inteligente, pode fazer o que quiser! só tem que abandonar essa timidez. que merda...'.
Todos, e até seus inimigos, sabiam que ela era uma mulher interessante, inclusive ela mesma. Com esmero, ela se construiu assim: digna de interesse. Talvez, por isso a usassem. E ela se sentiu por muitos anos usada, ainda que os que a usassem a dissessem que ela 'não tinha tanto assim a oferecer'. Contanto, ela já tinha passado da fase do abuso mental. Ou, pelo menos, assim pensava...
Entrou em um curso de interpretação para libertar-se de suas amarras, conheceu pessoas interessantes e apaixonou-se pelo professor em meio minuto. Reflexo da sua disponibilidade física e mental, vontade de dar amor, e receber. Sabia que o amor tinha ordem inversa para ser assim, puramente amor: você recebia e tinha vontade de dar. O contrário para ela sempre gerava o uso. Então, incumbiu-se de descobrir se aquele homem franzino e de estatura média, de cores fortes iguais às dela, olhar sério igual ao dela e olheiras sedutoras à distância tinha alguém a quem dedicar sua intenção de amor.
Sim, tinha. E ela o admirou ainda mais por ser um homem completo emocionalmente. Não iria nunca interferir na fonte daquela força.
Anna, a filha tímida e oprimida, voltou à disponibilidade emotiva, e abriu-se ao seu propósito de dar-se emocionalmente e aposentar a couraça de guerra.
Sabia que corria o risco da manipulação, assim que acenasse a bandeira de cor vermelha bruta do seu coração. Corria perigo como a cor indicava, e aceitou o seu destino.
Só restava achar um homem crível, e que a fizesse acreditar em algo.
Não demorou muito e um vampiro de aventuras achou a cor acenando, viu muito sangue e sofrimento ao redor, e achou a sua vítima ideal. Ninguém clamaria aquele corpo sozinho quando ele já estivesse morto. Já estava em idade avançada e precisava renovar-se como homem viril, ativo, criativo e ágil. E Anna ouviu o seu discurso de conquista mental por dias...
Anna, facilmente, chegou ao ponto de querer dar. Dar. Desde que o viu interpretando aquelas cenas sexuais pseudo-chocantes na praça Roosevelt esse era o próposito: dar.
O vampiro cerceou seu terreno e o ritual de abatimento da vítima se fazia com plena consciência da mesma. Anna sabia que ele não a poria nunca em primeiro lugar. Ela o ouvia falar do amor que já sentiu por outras mulheres e essa era a sua tática de venda de si mesmo: provar que ele amou alguém e já sofreu. Ele não era um vampiro.
Porém, ele já tinha a estabilidade do seu castelo fantástico. E não sairia em busca de uma aventura por muito tempo. Avisou muito, e da maneira mais ética que um vampiro canastrão italiano poderia fazê-lo, que amava a sua mulher, nunca iria deixá-la, mas que estava separado. Separado sem coragem de deixar o hábito da sua união.
Queria a liberdade de Anna, e saia com ela pelo bairro confortável para a vítima, pois a faria se sentir mais solta, mais familiar. O vampiro deu mais alguns vários avisos à Anna. O aviso principal era o que mais a incomodava: a praça Roosevelt era o domínio dele e da sua mulher, e o casal ali faria vítimas que nunca abalariam a sua estabilidade de poder ou o seu pacto de devoção eterna. Ela nunca entraria naquele lugar público sem ser olhada de alto a baixo. Ali, eles eram intocáveis, e vários cães de guarda os protegeriam.
Anna viraria a amante da Roosevelt, à distância, e só restaria isso a ela.
Ele a avisou que nunca a poria numa peça teatral naquele lugar, pois nunca prejudicaria a sua relação com a sócia-cúmplice-mulher principal e ideal, provedora do castelo mais sensível e do trono mais alto que ele poderia ter.
Anna era apenas uma bandeira vermelha, uma poça de sangue a ser sugada e não teria no vampiro o grande homem revolucionário que procurava.
Ela então pensou por longos dias se haveria vantagem em dar sem receber, em restringir os seus passos de liberdade, e se tinha vindo realmente a esse mundo para ser usada tão somente. Pensou por um segundo que não era a revolução, e sim, o instrumento da revolução dos homens.
E desse papel ela estava cansada. Não se renderia a este papel.
A amante da Roosevelt teria que libertar-se dos estigmas de auto-crucificação que ela mesmo criou e pensava no propósito de ter um vampiro em sua vida. Mais um exercício de libertação.
Só queria que ele sugasse todo o seu sangue, e assim as bandeiras vermelhas de convite ao perigo não existiriam mais.
Ele seria o último vampiro e ela reporia o líquido em seu corpo com água.
E fluiria adiante.
E voltaria ao propósito da sua vida: fluir.
narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Saturday, 24 April 2010
About Me
- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com