narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Wednesday, 28 April 2010
A Felicidade Do Tomar No Cú
Iracema, índia, voltou à vida para tomar no cú. Ou, assim esperava. Vivenciar tudo em seu mais cru sentido para saber se dessa maneira iria tomar no cú mais uma vez. E se aguentaria isso estando lúcida do perigo. Iracema tinha sido até os tempos de hoje uma personagem imortal, de longos cabelos, olhos desconfiados, reserva interminável, a conquista mais desejada. Hibernando em seu sono de morte como personagem fantástica resolveu, subitamente, acordar. Tirou a palha tapa-sexo e o cocar de realeza tribal e andou nua com os cabelos negros ao vento em meio ao cemitério repleto de tristes olhares. Saiu do local e atravessou a rua andando pausadamente, sem medo, alerta, plácida e nua. Decidiu desnudar-se e vez por outra, quando alegre ou sorrindo, tocava a própria buceta para sentir-se molhada e notar se estava realmente viva, ou se ainda era uma personagem fria e morta. Esperava tomar no cú nessa caminhada nua, porquê estava transparentemente em amostra. Tão transparente que se movimentava com um holofote sobre o corpo, e todos a notavam. Sabia que poderia voltar ao túmulo da personagem que foi, mas queria verdadeiramente ser uma mulher nova com um singular nome forte. E para ser nova ou sentir-se viva, talvez, não precisaria tomar no cú. Vara alguma entraria em seu corpo impunemente. No seu caminhar nua, sob a luz, encontrou um caminho, uma estrada sem sinais ou avisos, cheia de arbustos que poderiam esconder, em hipótese, vários perigos. Seguiu adiante, destemida, e lidaria nua com os entraves do longo caminho proposto pelo casual destino. Queria no futuro encontrar a esquina aconchegante, mas seria antecipar demasiadamente o percurso. Por hora, estava feliz em ter se disponibilizado apenas em sair do seu túmulo, rasgar a fantasia da sua personagem e estar disposta a tomar no cú: já era a felicidade presente na consciência de uma ex-morta. E era suficiente.
About Me
- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com