narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Sunday, 13 June 2010

Culpava A Narcolepsia

Agia em puro estado de sono. Automático, no automático ao dormir amava, mijava, andava, trepava com a sua mulher e ao acordar não lembrava de nenhum ato. Vivia plenamente o seu estado de coma. E culpava a narcolepsia pelo vazio do acordar. Notou que os portais estavam abertos. Algo mudaria gravemente o seu entorno. Iminente sensação, tentou fugir, fazer uma carta de despedida, correr. Respirou e ficou. Acordado, um dia sentou-se ao lado da mulher de vestido de crepe verde no ponto de ônibus e perguntou se ela via o que ele via. Ela dizia que não. Mas, insistiu e perguntou se ela, pelo menos, entendia. Ela disse que sim, pediu parada e entrou no ônibus qualquer. Ela não entendia nada. Aliás, era um jogo. Se a pessoa dissesse que tinha entendido, era porquê tinha mentido feio. Não havia o que entender. Após a saída da mulher verde, lembrou-se de quando era um rapaz onça e tinha o balancê de quadril ao andar que encantava as mulheres quando ele passava. Ali, naquele tempo, a narcolepsia não era um problema evidente. Ele lembrava de todos os seus atos, e agora nem tinha certeza de que a mulher verde não o conhecia realmente. Talvez, aquela mulher já o conhecesse, e ele nem confirmaria aquela incerteza. Achou no meio de tanto sono em vida perdida uma que o tinha com prazer por perto, mesmo que dormindo. Queria que os portais do novo abrissem todos ao mesmo tempo. A succção de ar destas aberturas o teria desaparecido do comum com a velocidade de um F5. Queria sumir em um ciclone tropical e voltava ao número 412 pois todos que querem ir têm o prazer em falar com os que não exigem a ficada. O problema real era a narcolepsia. O estado de sono constante, inerte, inativo que o impedia de ver o rico vivido. E culpava a narcolepsia sem cessar. Narco filha da puta.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com