narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Monday, 7 June 2010
ELE
Foi um contínuo engenheiro eletricista aposentado pela mesma empresa do seu primeiro estágio empregatício somente aos 47 anos. Vive ainda por mais 20 anos sua vida em casal e continua trabalhando. Não admite ficar obsoleto, tornar-se um 'em casa'. Foi ator de um grupo mambembe que rodava o nordeste em um caminhão e chamava-se o 'déficit'. Somente para dizer ao povo o que aquilo era. A 'inflação' era a sua mulher-namorada, com uma filha distante, na época. A 'inflação' era 'neguinha', abandonada por um músico e tinha uma filha muito hiperativa. Ele era casado com uma outra mulher judicialmente que o trocou por um 'negão', mas que o cobrava pensão até os dias de hoje. Então, 'negão' por 'neguinha', tudo lhe cabia. A 'neguinha' atriz era cobiçada por muitos com seus cabelos cacheados, vaidosa, ambiciosa, sonhadora com um marido, com a liberdade infinita e ilusória de uma mulher com uma filha abandonada. Uma 'neguinha' livre, sem compromissos era o que ele queria. E adiou por anos ter a filha da 'neguinha' em sua casa, uma família não era o plano, já tinha virado lídersindicaljustacausajáanos80, e um filho atrapalharia seu trabalho. Quando teve a filha da 'neguinha' viu que era tudo que ele mais queria. Ensinou-a a fazer um bom bacalhau português todos os domingos, ler o melhor livro e descartar textos vaidosos, corrigia os textos dela sem piedade a lápis e borracha em papel sofrido por três vezes até ela voltar com um 10 da professora, ensinava química, física e matemática todas as 18h da noite a cada seis meses, para a burra menina dos números e especialista em letras e música naqueles tempos. Comprava leitura daquela menina e fazia prova oral antes de dar o dinheiro pela descoberta dos livros clássicos brasileiros. Fez boca de urna vários anos dentro da própria casa somente para ter um candidato do PCdoB ou PT no poder, quando todos eram pêfêlê. Para aquela menina ao seu primeiro aniversário, deu um boizinho do Maranhão - sua terra natal. Antes da menina, que tinha virado mulher formada, ir embora falou em tom baixo e veemente que 'existem homens que somente querem tirar o brilho de algumas mulheres e dominá-las - pense nisso!'. A menina nem escutou, entregou o diploma e foi embora - estava livre. Sua família no Maranhão esperava ter aquela casa que ele comprou para ele sozinho como uma do patrimônio familiar 'de lá', com aquele mezzanino todo na cidade histórica.... Ele surpreendeu um dia e disse que 'casou com a neguinha e doou a casa para a filha postiça, adotada há apenas um mês atrás'. Isso 20 anos após conhecê-las. Aliás, sempre foi FILHA, nunca postiça. Era odiado na cidade maledicente pelos artistas por ter parte com a empresa que aos 67 anos ainda o empregava como 'o mais competente diretor nacional', já que não se envolvia em patrocínio de projetos artísticos de 'picaretas' e negava 'dedo de ajuda' aos mesmos. Se a filha e o pai da filha não tiveram nunca, porquê outros teriam tão fácil? A filha adotada herdou o ódio de muitos. Mas, os dois juntos nunca herdaram o ódio do pai biológico da menina. Ele era grato em vida por sua filha abandonada o tê-lo. Ele a deu tudo. Foi o único que nunca fugiu. Livros, roupas, viagens, palavras, ensino, cartão de crédito, chave de casa, posse de casa, liberdade, esporro, conselho, desprezo por sua covardia, tudo, amava-a incondicionalmente. Amava com briga-sem briga, erro-sem erro, doença-sem doença. Aos 67 anos, ficava feliz imensamente em somente ouvir um 'eu te amo'. Era suficiente. Só queria que ela ficasse feliz da forma que a conviesse, sustentando-se por suas próprias pernas, sem 'homens invejosos'. Se ela precisasse de uma agulha ao vivo, ele ligaria dizendo 'compre uma passagem e venha que eu lhe dou'. Era a segurança que a menina precisava e não haveriam substitutos nunca. É o melhor pai do mundo.
About Me
- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com