para o Cavaleiro Galaxiano...
Era o que eles tinham nos bolsos. Andavam pesados de pó de galáxia, todo guardado nos bolsos, e, às vezes, borrifavam um pouco pelos lugares antes de ir embora. Entregavam o ouro. Os que ficavam e viam o pó ao chão exclamavam penosos a perda da oportunidade em interagir com o povo galaxiano. Ela, de tiara de couro e moedas. Ele, de armadura de inverno cobrindo o tórax e o cabelo preto, em caracol maleável. Juntos, encontraram-se por acaso no terreno descampado e olharam-se em forma de duelo. Puxaram as mãos com os punhos fechados frente aos seus rostos, cada um oposto ao outro, prontos para o sopro. Os punhados cheios do encantador pó de galáxia. O pó era um presente do lugar de onde tinham vindo. Eles cogitavam a possibilidade do outro ter o tal pó armazenado igualmente, mas acreditavam-se, quiçá, especiais e únicos. O outro não o teria no bolso. O encontro naquele descampado pelo qual passavam todos os dias foi súbito. Quase não se reconheceram. Cruzaram-se em caminho contrário e os braços opostos levantaram-se no transpassar de corpos e reconhecimento de um segundo, 'oh, você!', já distantes e as pontas dos dedos tocaram-se nas digitais, quase indo embora. Dançaram uma valsa por uma fração de milésimos de segundo. Voltaram na dança. Juntaram-se. O abraço da saudade de meses sem o olhar do compatriota galaxiano. E ao soltarem-se e quase seguirem adiante nos seus norte e sul pararam e, ao mesmo tempo, disseram um 'ei! olha!'. Juntos, de novo! E o tempo parou. Ficaram ali petrificados. Um no olhar do outro. O tempo pedrou. Nenhum dos dois poderia mais soprar o punhado do pó de galáxia encantador na cara alheia. O tempo tinha pedrado. De repente, acordaram em seus 'habitats' como meros bichos, sozinhos e pensaram ter sonhado. O dono da galáxia os tinha movido como peças de xadrex e cada um voltou ao início do tabuleiro. O xeque-mate ainda não aconteceria naquele descampado. Teriam que percorrer todo o tabuleirolabirinto até travarem um novo duelo de punhos. Agora, andavam pelas ruas do universo perambulando em luta de sobrevivência. Porém, na dúvida do sonho ou realidade passada, ao sair de cada recinto que estavam, após despedidas quaisquer, voltavam o rosto e revistavam o local fuçando com os olhos, por garantia de uma última olhada. Só para ter certeza de que o dono daquele 'ei!' não teria passado desapercebido por sua presença. Sempre, no final da mente, procurando o adversário daquele duelo galaxiano interrompido.
narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
About Me
- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com