narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Friday, 25 June 2010
A Profunda, Profunda, Profunda Vergonha
É a ressaca mais filha da puta. Nem é preciso nenhum tipo de etanol. Experimente acordar com a cara tratorizada, uma olheira enorme, uma ruga na testa, uma humilhação de boca aberta. É pura dor, uma vergonha intensa, clara, límpida na sua frente. Não há como fugir. Imagine todas as pessoas da qual você tem vergonha de ter se envolvido, ou sequer sabido o nome, em uma sala de espera de consultório prestes a serem atendidos. A culpa foi sua ao abrir aquela porta. Todos os protagonistas e os associados, e os que foram atraídos por eles também. Mãos apreensivas, eles quase irão entrar em sala. Na sua sala. Imagine agora que você pode trancar a sala de espera, e ninguém mais poderá entrar mais no seu espaço. Resolvido? Não. A profunda vergonha chega... Todas as situações propostas por aquelas pessoas foram de uma falta de intenção imensa. Momentos embriagados, entorpecidos, sob o efeito de remédios de farmácia, distorcidos e negados no dia seguinte, fingidos de racionalidade. Ainda bem que o seu sexto sentido de bom senso não deu um nome a ninguém, a nenhum daqueles, não apresentou a nenhum ente querido. Seu resquício de bom senso não deu importância até que a importância se provasse com atos, o que nunca aconteceu. Foram só papinhos. E ninguém perguntará por eles nunca mais. O estrago é menor? Não... E ainda existe a vergonha. Você sabe o nome, os nomes. Olhará cada um destes nomes no futuro e fechará os olhos com a mão na testa tentando desfazer a lembrança. Profunda vergonha. Não existe mais ódio, raiva. Pura vergonha, sim. 'Presente!', ela grita! A dor é foda. Não olhe-se no espelho por alguns dias. Não é viável. Lembrará da vergonha de dar qualquer pensamento, confiança, atenção, porta aberta, palavra, 5 minutos a uma destas pessoas. O prejuízo de comprar novos móveis para evitar a lembrança será financeiro. Não conheceu uma pessoa decente através daquela relação, não teve nunca um pensamento calmo e confiável naqueles meses por mais que tentasse começar do zero por tempos diferenciados, sempre soube que era o tipo de relacionamento mais previsível que teria, não existia racionalidade alguma, nenhuma modernidade, era fetiche puro, imaginação de louco, já tinha visto aquele filme. Só que os outros filmes eram de uma cultura a acrescentar. Mas, pagou uma segunda sessão para rever, teve fé. E vai ver aqueles nomes e correr, cruzar a calçada, sussurar 'putzz...'. Profunda vergonha de ser crédula. Profunda, profunda, profunda, profunda, profunda, profunda, profunda vergonha!
About Me
- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com