narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Saturday, 5 June 2010

Poker, Juros, Commodities, Ações

Todas as maneiras de lucro não satisfaziam mais aquele branco jovem de gravata azul escura e terno thecity azul listrado. Sentava no seu Saab com bancos acolchoados de couro em todas as 21h da sua vida e entrava em crise a caminho de casa. Sozinho, GPS, Control panel, CD on! 'can you hear me major Tom? can you hear? here I am floating on my tin can...'... Não sabia se cantava o resto da canção, se estava mesmo sobre a lua. Antes estava sobre o mundo, era o soberano. Quando chegou sobre a lua ficou em dúvida com a sua autoridade. Tão serena era a lua. Não sabia o que fazer com a serenidade. Pagou a taxa de congestionamento e seguiu para o seu apartamento individual. Chegou em crouch end no final de tudo. Descansou as chaves de locomoção, pegou o telefone e discou à longa distância procurando voz, cuidado. Telefonou para Brisbane e São Paulo. Ninguém atendeu. Ferveu a banheira, deitou-se por trinta e cinco minutos. O celular vibrava sem parar. Eram todos os companheiros da noite àvidos pelo líder. CD on! 'planet earth is blue and there's nothing I can do'... Dormiu rápido, estava exausto, desligou o piloto automático. O vapor da água quente relaxou o seu músculo mais tenso. Acordou do breve relaxamento. Pensou em Brisbane e em São Paulo uma vez mais.... Amarrou-se a uma toalha e tentou novamente as chamadas à longa distância. Ninguém atendia. 'your circuit's dead, there's something wrong. can you hear me, major Tom?'.. Telefonou novamente. Ninguém. De novo. Nada. Novamente.... 'your call could not be completed, please, dial again...' Precisava do calmante, daquele colo feminino, de um calor humano ou sintético. Apagou as luzes, e ligou a luminária de bolhas azuis e verdes. Cachimbo, isqueiro, papel alumínio, cloridato ao avesso e compulsão. Agora, no espaço, ainda chamava pelo comandante Tom, em viva voz. Não tinha uma cifra em mente, uma conversão monetária qualquer. Pensou em dedos entre os seus cabelos, no toque macio das suas costas, no beijo no rosto que lembrou, no entrelace das mãos, em tudo o que não tinha e que o cachimbo mais sofisticado agora trazia. O momento de amor foi pouco. Recobrou ação imediata. Telefonou novamente para os mesmos números. Alguém? Não. Repetiu a dose................ E repetiu.... E exagerou. Mas, serenou. O testamento assinado chamava Brisbane e São Paulo, como sempre. Finalmente, os telefones foram atendidos. Tarde demais.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com