narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Friday, 9 July 2010

Do Mercado De São José

Saiu em direção reta rumo à banca de ervas na rua. O vendedor tinha uma conversa maravilhosa, Ana Paula já conhecia, mas o que ela queria era dar uma fungada profunda e sentir o cheiro do mato. O vendedor olhou e ofereceu um banho de sete ervas, preparado por sua mulher, e ela aceitou com uma sacudida vertical de rosto e comprou uma garrafa de refrigerante grande cheia da tal cura da mulher índia do vendedor. 'Isso é muito bom para tirar olho grande, mau olhado, tudo que é impedimento, viu, moça? Agora é do pescoço pra baixo somente, vú? Na cabeça nunca! Proteja a cabeça! Separe do corpo!', falou ele rindo. Ana Paula mais uma vez acenou em silêncio, verticalmente movimentando o rosto, em um indicar positivo. Saiu da banca de ervas, seguiu costurando o bairro do centro entre as pontes, sob o sol, sempre com uma mão no corrimão dos arcos das mesmas fazendo carinhos na cidade. Em silêncio, continuou andando e parou nos lugares menos prováveis, como no quiosque do sapateiro, na loja de artigos militares, na escadaria da igreja de São Francisco e no pé de uma ponte próxima a um pescador que tentava pegar um guaiamum de mangue. Todas as vezes nas quais parou só disse uma frase que justificaria todo o seu estado. 'Tô tão cansada...', dizia lentamente. Em todas as vezes nas quais disse isso, só precisou olhar para baixo e descansar. Uns traziam água, outros perguntavam o 'a senhora tá bem?', uma moça ofereceu o seu bebê de 3 anos e meio ordenando que o menino desse um beijo na moça 'para ela ficar contente' e forçando um sorriso, o sapateiro providenciou uma cadeira e pediu que tirasse os sapatos para respirar um pouco antes de voltar a andar e o pescador disse o que ele sabia sobre o cansaço.. 'É moça, têm uns dias que a gente cansa, mesmo. é tanta luta, né? tem dia que o mar, ou esse mangue não trazem nada, mesmo. mas, eu já pensei que como dizem por aí que o mar vai avançar, eu que entendo de mar ruim, revolto, seco ou afoito, eu acho que vou me dar bem e vai ser bom é para mim. o que me resta é essa esperança, sabe? de que o mar vai avançar e minha luta de não ter vai acabar. tô doido para ver a água! sente aí e descanse, depois a senhora anda de novo', disse ele catucando o único mini guaiamum dentro do balde e continuando o trabalho. Ana Paula perguntou o nome de cada um que lhe ofereceu água, cadeira, beijo, cuidado e palavra e agradeceu. Seguiu em frente desde a última ponte que cruzou, acariciando a Rua da Aurora pela calçada com sua pisada agora mais leve, conseguiu o ônibus que queria e foi em direção ao seu refúgio tomar o banho que lhe cabia, de renovação de proteção para andar mais no dia seguinte. Foi tomar o banho.

About Me

My photo
É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com