narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Sunday, 11 July 2010
Duas Mãos
Entrelaçaram-se com tanta emoção, que transmitiram ao que assistia um prazer em dizer 'poxa, tão bonito isso! fiquei emocionado'. Saíram para falar da estória futura, imaginar quem seria ele e quem seria ela. Olharam-se e deram-se as mãos, sussuraram concordando que seriam mudos a partir daquele momento e até chegarem em casa. Comunicavam-se por gestos, suavam dançando a cumbia e a guaracha cubana. Mordiam a orelha alheia e cheiravam-se contentes por ambos estarem presentes. Sem voz, havia o cheiro do duo e o toque esperto ágil do corpo, o entrelaçar das mãos, das pernas na dança, o contato das braguilhas frontais, roçando em ritmo solto. Costelas, ombros, cintura, bunda, pescoço e as mãos não sabiam onde repousar, queriam pegar tudo, pegar geral. Estavam unidos pelos umbigos. A música mudava, eles iam e continuavam, absortos um no outro, concentrados no movimento do corpo. Ele tentou falar e a mão agitada em frenesi freou, negou o som da voz. Agarrou-a pelas bochechas e olhando-a fixamente voltou a concentrar no pensamento de ligação. Sem palavras. Silêncio e movimento e dança. Entre as canções menos instigadoras, comunicavam-se por gestos de um quase cansaço do corpo. Tinham como vantagem o entendimento dos vários sinais de comunicação da malandragem e da linguagem dos sinais. Outros sinais eram somente complementos criativos que provocavam o sorriso espirrado e prazeroso dos que se entendem muitíssimo bem. Voltavam a entrelaçar os corpos com frequência e puseram-se em um nível de entendimento profundo. Sem voz alguma. Largaram do turno do silêncio com afeição às sete e meia da manhã, rumo ao apartamento, porém não falaram. Ela pôs o dedo indicador pressionado contra os lábios e nem emitiu o som do 's'. Era uma ordem explícita e sem som. Apreciaram o caminho e seus detalhes notando a cidade. Chegaram, e após um copo de água corpo adentro, tiraram a roupa e puseram uma última balada lenta. Dançaram nus até que o entrelaçar virasse naturalmente o começo de um encaixe de corpo, com o pau pressionado entre coxas e a dança contida e roçada com cuidado para não sair do lugar ou perder o ritmo, e o transe chegou. Fazendo eles desprezarem o final da última música com urgência. O novo som restante era somente do ar condicionado que acalmava o suor insistente dos que esfregavam-se e encaixavam-se, ainda plenamente presentes um no outro, em silêncio. O encaixe fruto da dança.
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About Me
- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com