para 'Dinorah, Dinorah'...
'Canta uma pra mim?'. A nova turma achava-a guerreira, emocionante. Com R$31,56 na conta bancária popular, ela pensou o inevitável e perverso futuro do 'tenho que voltar para noite'. Se o que vingava era o encantamento fácil, a beleza irritante, então que isso virasse dinheiro com urgência. Entrou em bares bairro do centro afora, noite adentro, e começou a caça aos aliados. Sentava no balcão, e observava a dinâmica dos grupos musicais sentindo de antemão se eles seriam agregadores ou oponentes sob os holofotes. Os bateristas sempre tão felizes em falar com as belas, os baixistas e tecladistas desconfiados, os saxofonistas seriam os últimos a se falar. Dividir solo não era para qualquer um que emitisse ar de diafragma como instrumento. Todas as noites enquanto não conseguia um suporte competente de notas múltiplas e vindouras, ela encarava o fardo no quarto. Dançava solta para o espelho com o pedestal sob a sua chave de braço, dominado, e com os lábios sob a teia de reverberação do som. Acordava todas as manhãs de R$31,56 intocáveis com a sensação derrotada do nulo e ao entardecer já buscava a sua rota de procura dos aliados, um pouco mais recuperada. Todas as vezes que sentava no balcão um malandro qualquer, mais velho e com um copo de uísque em punho oferecia uma bebida. Protegia-se com a sua caneta no papel, elegantemente, e nenhuma oferta de um motel de classe seria evidentemente bem-vinda. Malandro por malandro, todo dia haveria outro, descrevendo-a como musa da boêmia, e deixando-se ver como com óculos de grau recém-comprado de alívio o fascínio latente. Os que gostavam do que viam e não eram malandros de nascença, levavam um tapão na orelha da acompanhante. O lembrete da acompanhante de que o ensaio da briga poderia virar até espetáculo. E após várias noites de busca, conseguiu dois grupos competidores que a pediam um repertório sofisticado, para agradar os mesmos malandros solitários de uísque em punho em mesas de bares para duplas porém com uma eterna cadeira vazia. Logo, logo, soube que as cantoras do bairro cantavam uma canção do seu repertório. Algumas usavam até, repetiam o mesmo vestido vermelho de Iansã, pensando que aquele manto também ficaria tão bem nelas quanto na de beleza irritante. E para tão pouco, achou o pior aquela repetição. A repetição era o pior. O pior!
narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Thursday, 22 July 2010
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com