narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Saturday, 3 July 2010

Os Outrora Amantes Chegaram Ao Bar

E no alto falante Guilherme Arantes cantava 'Marina no Ar'. Ela vestia um vestido fúcsia com os olhos pintados em gravura de khol preto. Ele usava uma bermuda cor salmão e a camiseta branca lhe dava um ar de liberdade. Juntos, tranquilos, sentaram-se para dividir aquela cerveja e conversavam amenidades sem muitas emoções. Concordavam nos assuntos, estavam na mesma página do livro, e sentados próximos à entrada do banheiro inspiravam o olhar invejoso dos que passavam em direção ao mictório principal. Um casal lindo de se ver, vivo. Ele passava a mão sobre a mão dela quando o olhar distante, vago, de lembranças somente femininas, sentava com os dois naquela mesa. A mão dele estava ali firme para lembrá-la de que ele estaria ao seu lado. Ela voltava a sua atenção ao companheiro de discussões e cama, feliz com aquele carinho. Na real, ela queria comunicá-lo que tinha olhos para outra pessoa, para outro destino e que não era mais suficiente aquela mão, mas os beijos dele faziam-na esquecer qualquer argumento. Amava mais o apoio daquela mão silenciosa do que qualquer rumo de mudança, porém, perguntou-se se a inveja dos outros àquela união não era o que a prendia a ele. A sensação de poder que tinha em ser a parelha do homem lindo de camiseta branca e que entregava-lhe a mão. Será que teria o mesmo poder sendo única, fúcsia e sozinha? Via-se acomodada e cada vez menos admirava-se. O que era essencial, de mais valia, necessário naquele momento? Ser um par seria realisticamente ser um ser inteiro? Quem tinha dito aquilo? E quem repetia tudo isso? Esqueceu o momento de reflexão. Em dupla, ali, recebia amor e compreensão e só o fez retribuir. Era o mínimo a fazer pelo homem lindo, cobiçado. Acabaram a cerveja fraca, voltaram para cama após escovar os dentes no espaço comum aos dois e dormiram. E, em liberdade e hibernando, sonharam cada um o seu sonho mais distinto, colorido, longe e sem o outro. E queriam nunca mais acordar do sonho mais desejado. Nem sequer para o dar das mãos.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com