narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Tuesday, 6 July 2010
Sentada, Olhou Aquele Copo De Plástico Branco
Entre as mãos e soltou um 'é isso!'. A esquina da João Moura com a Teodoro Sampaio, com o misto do seu alvoroço residencial e comercial de um sábado de sol, foi o cenário perfeito para a reflexão. Tudo movia-se ao seu redor e ao redor do copo de plástico branco. Os instrumentos musicais estavam ali perto, prestes a serem vendidos na rua agitada concorriam uns com os outros ao fundo tocando cada vez mais alto, mostrando os seus valores de arte, de decibéis, loucos por um lar. O som não era música, era barulho. Música seria se aqueles instrumentos tivessem um dono, o dono a faria com eles. A união de dois para criar ou a beleza lenta, a harmoniosa, ou a beleza tensa de música. Sozinhos, os instrumentos não tinham função ainda, eram apenas pele, plástico, madeira, aço e metal. Estavam ao Deus dará, livres e recém-chegados ao local de passagem, como ela segurando aquele copo descartável, também novo, recém-chegado à sua mão após alguns goles de água. Existiam vários copos descartáveis em seus caminhos. Destruídos, eles poluiriam apenas o ambiente. Com certeza, seriam reciclados. Por outra pessoa, e voltariam a ser descartáveis. E, existiam os copos de vidro. Espatifavam com barulho, difíceis de limpar, deixavam resquícios, farpas, e também seriam levados embora pelo caminhão do lixo reciclável. Ou não. A dor seria a de perder um copo de cristal. O de grande investimento, com o sacrifício que foi para obter um. Leva-se tempo para ter um copo de cristal, e quando ele chega, se o perdemos a dor é imensa. Ela olhou aquele copo plástico e o amassou, e continuou segurando-o por alguns quarteirões e andando rumo ao metrô. O relógio de corda antigo 17 rubis no pulso direito funcionava bem e tinha sobrevivido ao tempo, não era descartável e dava a hora certa há anos. Eram 16h46 e o copo plástico ainda estava em mão. Ele tinha servido para saciar a sede temporária e tinha que ir para a lixeira. E parecia tão injusto jogá-lo fora. E se ele quisesse ser de vidro, transmutar para o cristal. Não poderia. A natureza era de plástico, ele chegou às mãos dela com essa forma, essa função, a escolha foi dele. Ele poderia ter sido jogado no lixo na tomada de um gole em outra rua do passado, ter sido reciclado, voltado e ainda assim seria de plástico. E, finalmente, concluiu o pensamento na boca da estação Clínicas. A boa união dos instrumentos musicais e seus donos, e um sem o outro que não seriam música. O relógio da corda mais simplória e antiga era a palavra de lealdade e compromisso a qualquer hora. E o copo de plástico branco foi jogado fora na cesta plástica cinza de lixo. Ele já saciou a sede e teve que ir embora. Branco, turvo e plástico. E sentou naquele assento marrom do vagão pensando em um copo de cristal bonito e transparente que seria segurado entre as suas duas mãos seguras e não mais trêmulas o qual usaria e cuidaria furiosamente para que sempre estivesse ali a matar qualquer uma de suas sedes. Um copo bonito, transparente e imensamente bem cuidado.
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com