para Lee...
Pedia, com um livro em uma mão e a chaleira do café em outra tremendo de falta, ajuda encarecida ao Fernando.'São Fernando, por favor, dá uma força com essa dor!' e devorou dez páginas dele, páginas nervosas, enquanto aquela água não levantou a sua fervura. Nenhum alento em nenhuma palavra e repousou o encadernado. Quando da ebulição, levantou novamente, agora do banco da mesa da cozinha, e respirou enquanto o café coava. 'Esse café não coa... essa merda deve estar entupida'. Não era nada de entupimento nenhum. Era somente impaciência, falta, desassossego mesmo. O café levava uma eternidade e pensava ao mesmo tempo na trilha sonora que devia entregar no dia seguinte. Bebericou o café pensando o 'falta um dia, falta um dia... eu preciso me acalmar, eu preciso ligar para ela, ela me acalma...'. Mas, quem era ela? Ela era aquela que passava a mão no seu peito e dizia 'desacelera, meu amor. desacelera...'. E qual era o telefone dela, onde morava, onde estava? Tinha sumido naquele silêncio. E pensou na trilha incompleta, na gravação, na masterização. E sobretudo pensou no seu orgulho ao dizer que iria sempre atrás dela quando lhe conviesse, contudo, não precisava dela. Naquela manhã desesperada notou que o seu orgulho pequeno era de uma idiotice infinita. Quis moldar quem o confortava e sem o feito conseguido preferiu desprezar dizendo que não precisava daquela. 'Puta que pariu, que merda'... Decidiu tomar um banho frio e ao final notou que apenas a temperatura externa do seu corpo havia melhorado. A mente fervia ainda, com uma falta de ar pronto a ser sugado e expelido com um choro que ficou preso como catarro verde, guardado por muito tempo no peito. Fervia pensando no tesão que ela sentia por ele e que tinha jogado algo bom fora, alguém que o queria. Sentou ao piano e tentou passear pelas notas, pelos acordes, brincou de idéias musicais. Nada. E faltava um dia. E só pensava nela, louco para que ela batesse na sua porta para pegar aquele vestido caseiro que ela deixou na gaveta. Sabia que ela não se importaria com um mero vestido, ela nunca voltaria por um vestido somente, ela compraria outro. Só voltaria por um motivo dela e muito maior. E queria ainda exatamente a desculpa do vestido para ver aquele rosto na entrada da sua casa. Planejou xingá-la o mais alto possível pela ausência. Como ela ousou ficar longe, esquecê-lo, quem era aquela qualquer? Todos os vizinhos iriam escutar a humilhação. Ao mesmo tempo pensou que naquele dia, para ele que queria desacelerar, ela era tudo e a abraçaria logo em seguida pedindo com um 'fica?' manso ao lóbulo da orelha, baixo e sincero. Ela poderia ficar como quisesse e pudesse ficar. E começou a lacrimejar notando que ela tinha algum poder sobre ele. Recompôs-se, tentou ter dignidade diante da lágrima. Melhor seria dizer que ela poderia ficar e quando ela aceitasse voltaria a dar uma pequena lição de moral, retrairia um pouco, ia dizer que estava magoado e ela o tinha feito sofrer, que ficou muito mal... Repensou. Não, não, seria o orgulho novamente. Se ela tinha voltado à sua porta é porquê ela o amava. Após a aceitação dela ao seu pedido de retorno, somente agarraria e prensaria aquela boca contra a sua, e ficaria ali até cansar de sentir aquele corpo que o fazia tremer de tanta falta. Parou, respirou fundo. Passou a mão entre os cabelos.... Sentiu o gosto cítrico daquele desespero, preste à insanidade. Passou a mão no telefone sem fio sem hesitar e ligou para a amiga dela. 'Alô, Gabriela? Não, não... Não liguei atrás dela, não... Liguei para pedir um favor a você. Você vai entender quando o ouvir porquê me custa muito dizer... Gabriela, por favor, diz a ela que eu preciso dela. Diz isso exatamente, e que eu amo muito e que quando ela quiser e resolver voltar, eu agarro ela de volta do jeito que ela quiser. Você me conhece um pouco... Fala isso para ela pelo menos? Promete? Vai falar a que horas? Então, a partir das 13h30 você já tem isso tudo dito, né? Tudo bem, tudo bem, vou confiar. Obrigada, Gabriela. Vou desligar, tentar me acalmar. Obrigada. Tchau!'. Pôs o telefone no gancho e começou a andar em círculos, pensou que tinha que se conformar. Teclou a nota dó, repetidamente. Nada. Voltou ao quarto, fechou as cortinas e tentou dormir mais algumas horas. Esperava que o desespero passasse de olhos fechados. Respirando...
narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Sunday, 4 July 2010
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com