narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Sunday, 4 July 2010

Elas Vieram Do Mesmo Lugar

para Sarah...

E viram muitos outros lugares em suas vidas. Antes, eram duas meninas da mesma classe escolar, com pais amigos em comum, com as suas respectivas mães, uma psicóloga e outra sexóloga que compartiam confidências femininas, e elas meninas trocavam papéis de carta ou pulavam elástico como amigas fraternas. Uma amizade infantil que era extensão de uma amizade adulta que, talvez, não lhes pertencesse. Cresceram, trocaram de classe, de escola, de bairro, afastaram-se. Por muitos anos, os caminhos opostos apresentavam-se porta afora, e elas seguiam, nunca hesitaram. A herança dos pais e do local de origem era o despreendimento da liberdade, da ida. Depois, encontraram-se por acaso em uma reunião proposta por uma amiga em comum, uma surpresa de reencontro e viam-se como duas que um dia foram tão amigas que pensavam como uma. A amiga mais alta estava separando-se do seu segundo marido, o cineasta italiano, e fazia um curso de culinária na cidade São Paulo do tal encontro, era uma empresária que tinha morado alguns anos na Itália, planejava suas novas outras sociedades enquanto a profissão de atriz não recomeçava. A amiga mais baixa já tinha separado-se do marido inglês músico há muito tempo e vivia sozinha na cidade São Paulo do tal encontro, era uma jornalista que tinha morado uma década na Inglaterra e que escrevia textos, músicas, cartas de amor aos seus amantes e amigos enquanto as várias profissões inacabadas não recomeçavam. O momento de parada das duas conterrâneas foi o momento da intersecção naquela cidade. A mais alta tinha uma inveja da liberdade da mais baixa. A mais baixa sentia o mesmo pelas sociedades da mais alta. Ironicamente, somente reconheceram-se em meio ao grupo de reunião da terceita amiga por usarem o mesmo óculos de sol. Nem podiam discutir que tinham o mesmo gosto, o mesmo passado, a mesma trajetória por linhas e países tortos. O óculos de sol calava qualquer desavença. A mais baixa propôs uma redescoberta pessoal na cozinha do local de encontro, oferecendo um drink em mãos e perguntando um 'quem é você? nós nos conhecemos?'. O riso da mais alta foi interrompido pela lembrança súbita de que quando crianças, elas serviam-se drinks dentro da casa armada de pano e fingiam as mais absurdas situações brincando de serem outras mulheres, e entrou na brincadeira. Respondeu em sotaque lusitano um 'não, senhora! muito obrigada pela bebida.. desculpinha, mas como é o vosso nome?'. E assim brincaram sozinhas, deixando as terceiras pessoas que comentavam próximas o teor da prosa como um absurdo novo já que não iriam entrar naquela conversa lépida, rápida, súbita, criativa e fagueira de duas que preencheu tão bem o sentimento de saudade por tantos anos vazios e sem aquela antiga troca.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com