narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Saturday, 3 July 2010

A Figurinista, O Cineasta, O Designer, A Cantora, O Baixista, A Artista Plástica E O Auditor Fiscal

Olharam-na de longe e gritaram um 'tá fazendo o quê aí? vem cá, fica junto!'. Obedeceu. A estranha explicou a data de chegada inicial e posterior, o motivo, onde estava, como estava, o que pensava e ficou em silêncio. Um deles disse que 'aquela mulher da porra' já estava no caminho certo quando calou ao final. Justificou com o ditado do dar pérolas aos porcos, e mandou escolher antes de tudo um pescoço mais bonito para enfeitar 'com o seu amor, palavras e luz'. Queria dizer que a inteligência criava muita confusão, aquele item perigoso que contestava mentalmente as vozes afáveis que falavam besteiras. A única diferença estava no tom de voz. Invejou as de burra existência por 17 segundos contados. A figurinista em férias, após o silêncio da estranha, disse que o 'preconceito era foda' e que não adiantava falar muito, era somente perceber e tentar jogar o jogo. Citou a falta de negros nas peças teatrais para as quais fazia o figurino na grande cidade, e junto com a estranha enumerou todos os grupos teatrais daquela cidade que tinham negros em cartaz. O designer perguntou quando ia ver a estranha vestida de empregada doméstica nordestina e todos riram. Ela acenou um 'logo, logo' para a empregada doméstica mais inesquecível já vista e riu lembrando da instrutora espiritual de cinema que a indicaria pela sua combinação de 'franjinha e sotaque'. Tudo no final resumiria-se a isso. Gargalhou alto pensando que tinha que malhar muito para pôr a bunda no lugar e ser uma empregadinha completa. A artista plástica reafirmou o segredo do silêncio com um 'não adianta falar', implorou peloamordedeus que deixasse os tão sábios fazerem o 'melhor' e que ficasse calada fazendo o seu apenas. 'Um dia eles vão vir elogiar a sua cultura', completou. Já estava nessa correnteza de pensamento há algum tempo, o aviso nem era necessário. O auditor fiscal mudou o tom da conversa e pediu a estranha em casamento quando ela citou a lição que tinha aprendido com Spinoza e disse 'repete, por favor, vai?'. Ela repetiu citando que 'as paixões tristes todas estavam ligadas à sensação de poder, e as paixões alegres todas estavam ligadas à sensação de potência'. O auditor estranhou a solidão da estranha e acusou como o dedo em riste que 'tinha alguma coisa errada' ali. A estranha completou que não teria companhias castradoras, ensinadores de lições de vida baratos e recusou a oferta de casamento pois todos os homens só queriam mesmo era afundar uma mulher forte, domar a fera após duas semanas de romance inicial. Admitiu, porém, que sucumbiria ao que a elevasse ao posto mais alto, o que desse mais crédito naqueles tempos escassos. O baixista riu e disse que era uma pena já estar casado com a outra cantora da mesa, senão faria isso ali, naquele momento, 'agorinha, mesmo', carregaria a estranha com as pernas gordas ou magras entre o seu pescoço por longa distância. Até cansar. A cantora completou a afirmação do companheiro dizendo que deixaria porquê pelo menos era por uma mulher que valia a pena. Todos olharam a estranha por um tempo e a cantora de facto propôs um beijo coletivo na mesma. Cada um levantou-se da sua cadeira e a beijou como se fosse o seu aniversário. O cineasta, amigo de duas décadas, concordou em ouvir a proposta da estranha e falou do prazer que teria em sair para tomar um, dois, três, mil cafés com ela pela satisfação que tinha em revê-la. A estranha foi ao banheiro e entre a enrolada de um papel higiêncio de papel reciclado e furado em mãos agradeceu ao teto sujo do recinto pela alegria de um momento conjunto, pelo impulso de potência recebido. Sussurrou um 'esse Spinoza era foda!' e deu descarga liberando o espaço para a fila de mulheres que, talvez, teriam a mesma iluminação naquele banheiro sujo de rua do centro da cidade.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com