narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Friday, 21 May 2010
O Guitarrista
Olhava para os outros por debaixo das sobrancelhas, de olhos grandes morenos, no desconfiar de uma nova presença que sempre chegava ao seu redor. Uma guitarra e um homem juntos era uma combinação bombástica. Atraía moscas, flores, ursos, tudo na floresta. Usava calça justa, shell top adidas preto, era alto e magro, não aparentava os anos de vida que, por ventura, tivesse, era da cor do sol, misterioso e tinha ouvidos radarrussoespionagem. Filtravam as bobagens que todos falavam. E o critério de aproximação se fazia através deles. Uma coisa a saber é que todos os misteriosos e desconfiados deste mundo algum dia já ouviram muito besteirolblablablámerdapura, então, talvez, o guitarrista fosse mais interessante por primeiro desconfiar antes de dar-se. Desconfiados também sabem que podem dar muito, são generosos e sensíveis, o que faz o critério de doação de uma palavra sequer mais rigoroso. No entanto, ele com aquela guitarra nas mãos ficava nu. Quer? Toma! Ele dava. Era um tapa na cara. De beleza, fricção, dedilhado, de tantas notas juntas em um solo. Quanta nota!!! Fechava os olhos e nem estava ali. Era ele, Stratocaster, palhetas e monitor alto. Sem sorriso, sem olho na platéia. Ele tinha ido. E todos assistiam aquele transe musical. Não seria difícil imaginar porquê muitos acham que música não é trabalho, e, sim, algo divino, dado gratuitamente a alguém no planetinha como dom. Saía do palco e a desconfiança chegava. Muitos se aproximavam, váriAs moscas e flores e ursos se aproximavam, e ele não queria apreciação exagerada pós-palco, taça de champagne. Não achava aquilo legal. Aquela apreciação fruto da luz de uma casa de shows que faz qualquer banana virar morango ao creme de chantilly. Ele só queria trocar uma idéia sem muita bajulação, sem sorrisos forçados, e do mesmo jeito do pré-palco. Trocar com troca! Ele já estava feliz em ter feito o que mais amava, fechar os olhos e ir embora dali por uma hora e meia. O guitarrista de pálpebras semi-cerradas e olhos revirando em notas era um generoso de pouco acesso. Porém, quando a sua atenção vinha era uma tocha de luz. Animava o ser mais encavernado do mundo, era de uma consideração emocionante. Queria fazer campanha de salvamento do outro. Ao ir embora, sentiam falta dele. Apertavam a mão dele com ardor em um 'voltaê, cara!' emocionado. Voltaê, cara! Voltaê! VOltaÊ!
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com