narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Monday, 3 May 2010

Do Chão, Sim!

Foi menino no Sertão, e já tinha enrabado muita galinha de capoeira no quintal. Cresceu com pêlos ralos no queixo e buçando um bigode que nunca era completo mas com uma confiança em si mesmo assustadora, na cidade pequena do seu grande interior nordestino. Cria piamente que matava qualquer pomba com a sua rola. Era a bala que matou Kennedy, e todos os outros o côco do cavalo do bandido. Cresceu sendo protegido e todos o diziam com zelo: 'do chão, não! toma outro! não pega do chão, não!'. Que bom é ter uma auto-estima. E o Sertão ficou pequeno para aquele menino que virou moço e queria virar homem em outro lugar. Foi para a cidade grande do Sudeste, fazer um curso técnico de mecânica e sentiu o peso dos importantes de outro lugar. Teve que adaptar-se em tempo nulo. O cru da galinha, da pomba, da bala não eram mais importantes. Implicavam com o seu sotaque e ele irritava-se com frequência. Resignou-se por várias situações de sua vida, calou-se, comeu vários ratos na vida. Não tinha a importância que tinha no sertão, na sua terra natal, não era o filho do dono, e ninguém pedia encarecidamente água na sua porta, ou qualquer outro favor. Quem pedia favor agora era ele, as pessoas não o viam, não entendiam a sua espingarda, como ela era grande. As pessoas ao seu redor respeitavam a bomboniére na entrada do hall, o oferecimento de uma água ou um café, o cheiro de 'Bom Ar' no banheiro do restaurante, um manobrista à disposição, um guardador de volumes no estabelecimento, a dose de whisky 15 anos, um tom de voz sem alteração e pausado como o de Ana Maria Braga, cores alegres como as que usa Romero Britto, um porte chique como o de Sílvia Pfeifer, ser feliz como Xuxa ao fazer sexo somente com amor. Ele, ao contrário, nunca entendeu destas firulas. Fazia, subia, descia, limpava, movia, trepava, mas agora estava sozinho. E aprendeu em pouco tempo que tinha que ser do chão, sim! Sobrou o chão, a lição da vida e da luta da capoeira: chão e terra sempre como arte, arte de guerra. Não tinha o apoio de ninguém e sabia que fazia o que era da sua lei com lealdade. E queria experimentar qualquer coisa. Sim. A partir de então, do chão até, sim!

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com