narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Tuesday, 11 May 2010

Mente Percussiva

Tinha uma dessas e queria colorir as conversas, como o percussionista coloria autonomamente as canções com seus sons aleatórios. Todos iam falar ou tocar, ela iria colorir tudo. Acusavam-na de dispersa. Tá, vai! Perdia o foco com bobagens, repetições, ficava difícil prestar atenção em figurinhas repetidas. Não podia ser diferente, não? Fazer um esforço? Tinha mesmo era vontade de repetir o amigo que ficava reacionário bêbado e gargalhava dizendo: 'não sou seu amigo, ou não presto atenção em você porquê você não é criativo'. Ao lado daquele anarquista subversivo, a resposta dada por ele ao perguntar do 'fazoquêvocêfazoquêporaqui' era: 'ela é uma artista e pronto!'. Não conseguia saber nomes precisos de filmes, diretores, atores, frases ditas, autores. Para ela, isso era resposta para perguntas de conhecimento geral em provas de jogos televisivos. Precisamente, no canal do SBT. Premeditação, para ela, era dez mil réis. Não queria premeditação em suas conversas, precisão. Queria rapidez na resposta, a puxada rápida do riso, rápido, rápido, rápido... Se demorasse, ela bocejava. Precisava de ação, suar, bater forte, bater tambor, ouvir alto e produzir sem restrição. Rabiscava papéis e depois revia aquelas palavras perguntando quem as tinha escrito. Ouvia umas gravações e perguntava quem cantou aquilo. Era ela e nem acreditava. Quando reconhecia sua própria letra cursiva de anos atrás ficava emocionada e se dava um alívio, alisava os próprios pêlos dos braços com um pouco de orgulho, piscando os olhos e rindo sozinha pelos cantos da boca. Ainda pensava. Diziam que ela era egoísta, isolada, defensiva, dura. E perdia a paciência nem ouvindo, porquê ela nem tinha parado para notar quem estava falando, nem tinha procurado achar defeitos em outros. Apenas, deixou os outros viverem suas vidas. E eles lá, comentando. Ela não corresponderia às expectativas. Estava concentrada em outras coisas, queria viver, aproveitar o sol, descobrir a cidade nova, ser feliz, conhecer mentes intrigantes. Pulsava energia, queria voar, tum-tum-tum, ka-ta-plá, ka-ta-plá. Percussiva. Só queria continuar a ser percussiva. Sozinha ou acompanhada.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com