narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Tuesday, 4 May 2010

O Dia Do Fim Do Mundo Velho

Heloísa já sabia quando seria o dia do fim do mundo. Cairia numa terça-feira, dia 03 de maio de 2011. Sabia que na madrugada desta terça que começaria tensa, todos estariam conformados com o começo da semana de trabalho. E, após a típica segunda-feira rainha do cansaço, o fim de tudo pegaria de surpresa a mais espiritual das mulheres e o mais entusiasmado dos homens. Seria pior ainda quando amanhecesse, e Heloísa, em um lampejo de idéia, pensaria que o Djavan cantou essa pedra final há décadas atrás. Ele estava certo. O desespero tomaria conta dos bípedes ao seu redor e o dilema final da vida de todos teria que se concretizar em minutos. Antes do fim. Vários bebês indesejados seriam deixados para trás em seus berços, e quem quisesse deixar algo grande do seu passado para trás teria essa única chance. Só precisaria perceber isso em um tempo, não dois. O seu amante teria a urgência de ouvir o seu 'eu te amo' em tom claro e se assim fosse clamado, esse amor viveria em um outro mundo. No novo mundo. No mundo passado à régua, destruído e modificado. Quem tivesse família em cidades portuárias como as de Santos e Recife, correria chorando e soluçando se decidisse continuar uma existência. A falta de areia nas praias faria com que as cidades fossem engolidas como as bordas das tijelas de empadas crescendo no forno alto. Muitos não teriam tempo de dizer adeus aos seus e sofreriam tanto que o futuro teria um início penoso. Mas, ainda assim seria futuro. Nada seria fácil, como não é fácil em nenhum recomeço pós-terrorismo. Os mais influentes teriam a chance de mudarem de ramo e ingressarem na carreira de líderes do novo mundo. Os que tivessem entre 16 e 24 anos de idade seriam encarregados de reproduzir novos humanos como profissão, e os clãs se formariam mais uma vez: dos negros, dos bons, dos brancos, dos agressivos, dos justos, dos artísticos. A personalidade definiria a conjunção dos novos grupos humanos. Heloísa tinha decidido que, cansada, não saberia reaventurar-se no novo sem o seu amor que não estava sempre à mão, e como não o tinha por perto naquela manhã de desespero, sem ele, ELE, mataria-se mergulhando no mar revolto, e bateria a cabeça em uma parede engolida pelo mesmo. Não cantaria suas próprias canções no mundo novo, e seu corpo encolheria afundado, espremido entre os escombros do mundo velho. Tudo pela falta do 'eu te amo' que ela não conseguiu gritar a quem queria naquele 03 de Maio de 2011, o tal dia do fim do mundo velho.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com