narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Monday, 10 May 2010

O Apego Ao Delicioso Sofrimento

Amália entendia disso. Como se libertaria de tanto sentimento chorado assim de uma hora para outra? Nem notava que um segundo tinha mil milésimos de segundos e que enquanto sentava em seu divã de feira em todas as esquinas da cidade, tudo mudava ao seu redor a cada um desses milésimos. Somente ela se escutava. Vez por outra, um cúmplice certo assinava embaixo, ficava ao seu lado, somente para induzir o sofrimento como forma de manipulação. Manipulação fantasiada de libertação, criatividade e loucura. Imagina esse cúmplice ver aquela Amália crescer, ser solar, ir adiante? Ele ficaria para trás, anos e anos ligando daquele mesmo número que nunca mudou, daquela casa sem movimento, para falar do passado. O telefone não pararia de tocar e ela não esqueceria de toda maneira, então, que lembrasse ela de tudo que ela sofreu sozinha. Da pessoa que morreu e já estava em outro plano, mas nem podia descansar com tanto apego. Dos que ficaram mal por serem abandonados enquanto Amália lembrava do morto, e nem foram notados, cuidados, ou tiveram atenção quando eram mais frágeis. Amália é que está ficando frágil e agora lembra de todos que ela nunca lembrou antes. E os esquecidos cansam-se, irritam-se com tanta emoção súbita. Rezavam por leveza e frescor na nova fase de vida presente. Porquê Amália demorou tanto em notar que ela não se movia, enquanto eles estavam ali pensando nela e esperando orgulhosos? O apego ao sofrimento passado era um personagem de Amália. E ela nem notava. Perdia mil e uma oportunidades de ser feliz. Até que, na noite mais fria, chegou a baixinha carrancuda de olhos reviráveis e disse: 'deixa isso ir! tá na hora de ir embora. isso impede teu talento, prende o que tem que ser visto. solta esse apego a esse sofrimento. liberta isso'. Amália não reagiu bem, jurou morte. Como deixar o pacto de sangue que fez com a dor? Aquela estranha... Também tinha pedido algo em troca ao sofrimento, e como obteve o favor, a verdade é que vendeu a alma. A mensagem fria e direta da carrancuda foi: 'observa esse apego ao sofrimento!'. E começou a pensar no apego com menos carinho do que antes, comprou um porco cor de rosa e começou a juntar dinheiro para comprar a sua alma de volta. Economizando de verdade.... Quebrar porcos rosa e gastar todo o dinheiro para depois reiniciar a economia com um novo porco rosa pronto a ter seu barro esfregado entre as mãos não era solução.... O difícil do apego ao sofrimento para Amália, era mesmo ver que ela nem conseguia ser feliz, quem dirá engordar porcos cor de rosa para comprar uma alma no futuro? Era o fracasso em cima do fracasso do fracasso flambado no mais puro sofrimento. E, consequentemente, delicioso.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com