narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Tuesday, 18 May 2010

Ele Livrou-Se Do Problema

Como livrou-se dos filhos. E tinha orgulho disso. Livrar-se de coisas e pessoas era igual a ser livre. Apontava o dedo na cara dos outros, gargalhando e dizia 'O-TÁ-RI-O! você acreditou em mim'. Jogava dizendo que a responsabilidade era deles pelo crédito dado. Gestos sórdidos disfarçados de nobreza eram a sua especialidade. Em toda chance que tinha, marcava a diferença e na sua cabeça era um ser universal. Falava do sotaque de outra pessoa como um paulista ignorante qualquer sem educação e não-conhecedor do Brasil, paraíbacearábahiaétudoamesmacoisa, porquê nunca tinha 'visto' em São Paulo um sotaque assim. Como assim? Explica-se: como se olhasse um negro e marcasse a diferença dizendo 'que pele negra diferente, linda! nunca tinha visto uma assim'. Ele somente arranjava um floreio para escarrar seus preconceitos. Odiava quem falava alto. ClassudoRemyMartin! E que não se ofendessem, pois era um elogio daquele grande ser. Era uma imagem velha, nua, decadente. Não era um macho, aliás, macho 'é lá no Nordeste'. Esqueceu do Rio Grande do Sul que tinha machos lindos. Era mesmo somente um machista. Marcava a diferença até se você fosse mulher. Mulher mais nova, então.... Na verdade, não respeitava o do sotaque, nem o negro, nem a mulher mais nova. Respeitava a Tiazinha, ou qualquer global. Statusquoqualoquê? Aí, curvava-se. Levava até tapa na cara. Gostava do biquinho da Carolina Dieckmann. Ali, era uma puta atriz. Talvez, pelo sobrenome estrangeiro que o fascinava, ou por ser loura. Tinha o sonho de aparecer na televisão. Queria os segredos das pessoas para manipulação de farmácia. Dizia que não queria que aquele que estava ao seu lado se sentisse abandonado, e aí mandava uma mensagem dizendo que o tinha deixado. Nem olhava no rosto. Bêbado olharia. Escrevia vizinho com 's', e era poeta-escritor. 'Estou pensando em contos...'. Rodin acode que tem um gênio pensando! Original pacaray! Pelo amor de Deus... Ah, ai de você se falasse em Deus perto dele. Ele não respeitava quem falava em Deus. Tão subversivo.. Dizia que era amigo, mas chegava na casa do que ia ao AA com uma lata de cerveja. Mostrava a droga ao que estava na abstinência refastelando-se naquilo e lambendo os dedos para mostrar como era bom. Chamava os em equilíbrio, sobreviventes de alucinados. E ninguém sofria tanto quanto ele. Que competição era aquela? Doente, você? Mal, você? Ele ficou primeiro. Se saia dessa, MEU! É meu! Incluía os sãos nas suas merdas, e ai deles se ficassem fracos. Aí, ele corria, fugia, tirava o cú dele da reta. Era um fraco, sim. Sabia disso. Não tinha coragem de sair de casa, para não perder a camamesafaxinachequeebanho. E, sim, não esqueçamos que ele não sabia nem dar um banho em ninguém. Nem para salvar a vida de alguém. Ligava e enchia todas as caixas de mensagens possíveis, de voz, de texto, de email. Quando era a vez dele atender o telefone, nada. 'Tô em silêncio', queria respeito. Tinha um fascínio pela emoção, mas todas eram falsas. Aquela cara repetida não emocionava nem um vira-lata. Fingia amor, soltava beijinhos piscando o olho, dava abracinhos, chamava de lindinha. Pura falsidade. Clichê em cima de clichê! Queria roubar palavras de uma que ele achava menina de rua, porquê ele tinha um blog de artista sem conteúdo, e ela podia emprestar conteúdo ao vazio dele. Blog de artista?! Pelo amor de Deus! Dizia que falar palavrão era uma liberação de energia. Deixava mensagens na caixa postal bêbado dizendo 'vá-se-fu-der! vá-to-mar-no-cú! vá-se-fu-der!' ao mesmo tempo que recebia o melhor amorgenerosoabertosuado do mundo. Quando recebia um palavrão como interjeição em frase voltada clamava pela elegância, 'vamos ser elegantes'. Não queria a porta dos fundos, mas livrou-se da caixa de batatas. Era um velho bêbado e achava-se o máximoplusmenthosiceexplosion falando de paixão, emoção, tesão. Estragava os 'ãos' com a mesmice, repetição. Vitrola enganchada! Não tinha obras-primas como outros velhos bêbados chamados de Vinícius, Baden, Bukowski. Era somente um empresário. Dizia ao independente que ele precisava da máquina para sobreviver. Dizia ao maquinado que ele precisava ser da rua. Mentia, abusava, expunha e dizia que era para o seu crescimento. Um puto professor! Merecia todo o desprezo imaginável. Queria ser a verdade. Verdade que tomava lexotan para apagar. Ha! Ali encarava a lama, mesmo! Ô... Cuspiu na cara da que amava-o e se voltou contra ela. Bem feito! Perdeu o carro. Desonesto, fingiu amor para alguém que nunca o tinha tido somente para ser superior, doador de amor aos menos humanos, aos duros, aos frios. E ninguém tinha pedido nada dele. O problema foi embora, mesmo. E ele voltou à sua mesmice. Legal!!! Que legal....

About Me

My photo
É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com