narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Thursday, 6 May 2010
O Uso
Era um oportunista disfarçado de comunista. Aliás, não entendia nada de comunismo. Comunistas faziam a revolução, como os russos que falam alto na entrada das estações de metrô de Moscou, e instigam o confronto com os estrangeiros. Comunistas amam o confronto, a mudança. Não entendia nada da luta de classes, da união dos grupos. E ainda ele, no seu conforto, dizia-se comunista. Soava bonito ser um Trotsky. Qual Frida Khalo não se apaixonaria por ele? Ainda que outros fizessem arte, textos, e tanto outra coisa qualquer gratuitamente, ele queria utilizar a palavra de alguém como dele com o disfarce de um amor exacerbado por ela. Dizia: 'eu amo demais isso que você escreveu. vou pôr como meu, tá?'. Queria que todos dessem sua alma como domínio público, sem apego. E sugava o suco de todos. Também anulava o objeto do seu amor, fingindo afeição. Comia aquela mulher vulnerável na casa dela, deixava-a pensando nele, despejava nela suas preocupações diárias como um disfarce de amizade alicerce da relação, suas culpas como um toque de cumplicidade da relação dos dois. Nunca a deixava leve e pouco a via rir. E nem notava isso. Ao contrário, não propunha nenhum alívio àquela relação. Somente peso e mais vulnerabilidade: para ela, logicamente. Se ela aguentasse, seria digna da sua dedicação. Queria moldar aquela mente, achava-a crua, ainda que o atraísse. Às vezes, mandava ela tomar no cú, pro caralho, como o próprio 'Príncipe' de Maquiavel que se auto-denominava, porquê era 'maquiavélico'. Rimava até nisso. Era piegas, mas ela era que tinha defeitos. Desde o seu tom de voz, à postura, aos seus detalhes. Ironizava a dedicação de ouvidos dela a ele pedindo-a que corresse, fugisse dele. O domínio tinha que ser dele, o amor dela tinha que ser a ele, e também a palavra dela podia ser usada por ele, o aviso constante do perigo era dado somente por ele. Ela o serviria e ele não correria risco algum, sem oferecer nada de bom a ela. Afirmava que ninguém era criança ali, e a responsabilidade por aceitar era dela. Era isento de responsabilidades. Mas pensava ser comunista e ousado. Ela somente era um teste, um uso temporário. Ela era um cão sem dono, alguém que ele achou na rua da amargura e resolveu dar uma tigela de água, e um pedaço de carne. Mas, ela não poderia nunca esquecer que era um cão sem dono, daquele oportunista que mandava-a pro caralho se levasse um não dela. Ela uma vez pediu um tempo, e ele não deu, ela nunca teria tempo para ela ao lado dele. Ela conseguia ver todos os defeitos daquele oportunista fraco, e ainda assim amava-o. Era fiel ao seu sentimento à distância desde que decidiu ir embora, ao ser mandada pro caralho pela última vez. Chorou por confiar no oportunismo e ter dado uma chance ao amor. Voltou a ser forte e luminosa, magnética como sempre foi, como aço reluzente de reflexos alheios, um espelho de aço. Frio, forte, inquebrável, muito usável, espelhado e duro.
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com