narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Thursday, 6 May 2010

A Puta Da Augusta

Reconheceu a placa do carro do amante de longe. Ele parou em ponto morto no seu ponto de rua e ela disparou: 'Voltou, gostosão? pensava que você ia demorar depois de ontem!'. Ele foi direto ao ponto, mandou ela entrar no carro. Ela obedeceu, ele era cliente antigo, confiava nele porquê ele era o único que prometia uma eventual ajuda caso algo acontecesse, apesar de nunca ter feito nada por ela. Ela ouviu dele: 'Você viu a minha mulher ontem, não foi? Sabe onde a gente mora...'. 'Era a sua mulher, gostosão? Não sabia... Lindona, ela... Que pena que é ruim de cama, hein? Ha!'. Ele dirigiu em silêncio por 15 minutos, e ela, despreocupada, ia fumando um cigarro com o braço para fora da janela do carona. Pararam o carro em um acostamento de subúrbio qualquer, e ela ficou surpresa: 'Cansou do motel, gostosão? Tá ousado, hein? Ao ar livre? Gostei... O que é que você quer que eu faça hoje? te chupe, te ouça, te cavalgue... diz! eu faço o que você quiser, você sabe!'. Ele: 'vira de quatro, na frente de todo mundo! vou te humilhar hoje!'. 'Ok! vai fuuunnnndo, gostosão!'. Arrombou violentamente o cú daquela mulher da vida, mas vários pensamentos não deixavam aquele pinto tão ereto quanto ele queria. 'Quer uma ajuda antes, gostosão? Eu faço o que você quiser!'.... Ele mandou ela calar e olhar para frente. Puxou o gatilho em dois tempos como tinha treinado com um amigo de bairro, e disparou um só tiro na nuca da puta, à queima-roupa. Sua boca explodiu na hora com aquele tiro de 12, seu rosto já estava irreconhecível e a arcada dentária defeituosa. No disparo, a bala entrou na nuca, saiu pela boca, passou pelo vidro aberto do carro, e encravou na parede da calçada daquele acostamento deserto. Ele abriu a porta, chutou e deixou o corpo na calçada vazia e, enquanto ainda borrifava Veja X14 na mancha de sangue do estofado do veículo, falou com a boca cheia de saliva: 'Isso é para você nunca chegar perto da minha casa, ou triscar em ver minha mulher de longe, puta safada!'. Nem uma alma na rua se via, e ninguém iria aparecer. A puta que sempre acolhia aquele homem em crise foi pega de surpresa por supôr bondade no cliente com culpa. Ela olhou a mulher dele de longe numa rua por acaso, e nada tinha feito. Morreu naquela calçada publicamente humilhada, nua, xingada, e seria enterrada irreconhecível como indigente em um caixão sem direito a velório ou vidraça de rosto por ninguém sequer saber que ela estava morta. Ele voltou para casa, e dormiu abraçado a sua mulher, prometendo nunca deixá-la. Nem que fosse feliz com qualquer outra.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com