narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Friday, 28 May 2010

A Neta Do Escritor

Morava no apartamento 203 de um prédio caixote no centro e seguia há anos a sua carreira e vida disciplinar e acadêmica. A possibilidade de fechar-se em um apartamento e sair diretamente na boca do centro da cidade a rendia. Era o lugar certo para a morada daquela ora Coré, ora Perséfone. Oscilava entre períodos de depressão e normalidade, como qualquer mulher que trabalhava em proporções exageradas e nutria decepção pela vida moderna. Fazia uso do sobrenome materno por ter um pai e um avô transgressores no mundo literário, e assim então, evitar a perpetuação da outrora zombaria da infância vinda através daquele sobrenome paterno que atraía tantos julgamentos antecipados. Ao mesmo tempo que sentisse pena por ter aquela ligação com alguém que convidava ao constante ódio dos 'cortiçados de mente', tinha plena consciência de que não poderia nunca ser uma mulher qualquer por carregar aquela descendência. Amava escrever em silêncio e continha a sua verborragia por vezes, ainda que ali morasse a sua força. E por conter-se sentia-se atada. Camisa de força preta e falta de ar. Os de carapuça aos pés urgiam que ela a vestisse rapidamente caso a lessem. Umas velhas senhoras analisavam a sua escrita e diziam que 'aquelas palavras não eram criatividade, e sim loucura pura de uma mulher'. Pura assepsia de pensamento daquelas. Pura censura. Como aquelas senhoras, haviam muitos seres que confundiam escrita com personalidade, assim como personagem vilão com o intérprete do mesmo. Saía e ouvia ofensas, pois os que queriam um mundo em paz absoluta de classe média não cogitavam cortes de lâmina de gilette, peso, traição ou qualquer tristeza em meras palavras. Queriam ler sobre o amor e acreditar em final feliz, acima de tudo e de todos os outros. Seu dia a dia era simples. Vivia com muito pouco e começou a conversar com mendigos nas esquinas das ruas, pois eram mais dignos de uma palavra amiga do que qualquer outra pessoa que tivesse cursado apenas dois anos de uma faculdade qualquer e se julgavam empreendedores do mundo. Mendigos, gente simples, viajantes e vendedores de pipoca ou engraxates eram os que tinham as melhores conversas. Experimentou abdicar da limpeza e sujar-se por completo. Sentava em assentos de privadas públicas, não tomava banho todos os dias, transava sem camisinha com outros acadêmicos do campus universitário. E nada daquilo a fazia mais livre. Seu namorado era um arquiteto que fazia terapia em grupo e a enchia de beijos. Ele insistia para que ela escrevesse palavras positivas, e ela pensava que deveria livrar-se dele todas as vezes que ouvia aquele homem jovem falando repetecos. Perguntava-se porquê ele insistia em aparentar ter um ego feliz se precisava tanto daquela terapia para encarar suas neuras? Achava-o um mentiroso. Um mentiroso que a queria beijar por ela pensar mais que a estagiária do escritório dele, ou a menina gostosa da recepção. Aquele homem não a aceitava como ela era e aquele assunto nunca iria ter um ponto final: o da escrita positiva. Ultimamente, até notava que contentaria-se com o toque do seu quiropráta ao daquele jovem que a enchia de beijos estalados. Era um sinal muito forte, mas não queria tomar decisão alguma naquele momento. Ainda na sua rotina normal entre frutas, alfaces e caldo de carne ou galinha, estava sempre rodeada de livros. E nenhum livro tinha a realidade das suas conversas com os moradores de rua. Carismática, fazia amigos com facilidade e notava em duas semanas que a fórmula da amizade era falha. Fazia sete amigos em um dia e seria um milagre se um dentre estes se salvasse. Estalou, cansou, engatou a primeira marcha. Marcou uma viagem em segredo e aos poucos foi esvaziando o apartamento do centro. Sabia que não ia voltar tão cedo. Todos os únicos amigos dentre os sete cada estranhos diários que entraram em sua vida ganharam um livro e uma carta. O namorado não ganhou carta. Ganhou um bilhete por correios, programado para chegar três dias após a sua partida e que dizia 'não volto por falta do seus ouvidos. te cuida! bj.'. Aprendeu com os viajantes os segredos da estrada, com os moradores de rua a malícia dos ao relento, e fez um guia de sobrevivência para a sua nova jornada. Sentia falta do toque da massagem do estranho que a cuidava tão bem e do apartamento no centro, porém o adeus à rotina e à falta de ouvidos era o mais importante. Sem zombaria ou senhoras ao redor. Agora, poderia ser quem quisesse. Ou quem sempre quis ser.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com