narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Saturday, 15 May 2010

A Entrega

Abriu os braços e deu-se ao ar, em cima de uma rua arco e alta, como aquelas que ficam sobre qualquer avenida grande paulista. O vento levava o seu rodopio e o seu cabelo ininhado. Ela sentia-se leve. Que diferença do dia anterior. Aquele dia negro. Seis baldeações de trevas no metrô da cidade dragão, que ou a cuspia na cara com fogo, ou a engolia com um sem fim de informação todos os dias. Pra lá e pra cá sem destino de novo no frio. Graças a tudo pelo novo dia. Graças! Agora rodopiava em cima da rua arco com a bexiga cheia de suco de laranja matinal. Sentia a felicidade de uma criança ao ser chamada pela mãe para comer inhame com galinha cozida às 17h de uma tarde de sol. Finalmente, teria o que comer. Uma felicidade de ter uma atenção qualquer. Entregou-se ao ar. Inspirou e expirou fundo. Viu sentido naquela trajetória toda. Se não tivesse desistido da vocação por um tempo, não teria entrado naquela função, que ofereceu aquele posto, naquela cidade nova, que lembrou-a da vocação, que a levou aquele grupo que levou-a a expirar e inspirar o novo. Fazia parte da entrega ao novo. Era pra ser assim. Tinha agora a certeza de que todos os seus momentos feitos cheios de entrega trouxeram e trariam as suas melhores experiências. E entregou-se sem resistir ao vento da rua arco da cidade nova.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com