narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Tuesday, 18 May 2010

Proteu

para Lílian...


Era um tarólogo mineiro bipolar que teve o seu nome dado pela mãe, uma arqueóloga sensível chamada Renata. Não sabia se seu nome era uma dádiva ou um fardo. Assim como a lenda, as pessoas, e, principalmente, os seus amantes, aproximavam-se dele para saber os seus próprios destinos. Interesseiros. Só que antes do benefício, a bipolaridade impunha um obstáculo de seleção natural e somente os fortes conseguiriam ter o que queriam. Antes disso, vários teriam que mostrar se suportariam as suas monstruosidades, seus loucos instintos de defesa. Ele sempre mostrava a verdade, ou pelo menos o que ele, como oráculo, via adiante. Alice, uma musicista francesa, passou por Belo Horizonte e encantou-se com esse homem de nome fantástico após uma leitura de cartas. Nem a saída da carta Torre seria um obstáculo ao acontecimento daquele fascínio. Passou vergonhas imensas ao lado do bipolar que desfigurava-se em monstro e surtava em público. Aguentou as provas, e como prêmio, realizou o sonho de sua vida e terminou o seu disco de jazz em um estúdio brasileiro, como sempre almejou. Era o destino alcançado como previamente revelado. Alice acordou cedo numa segunda-feira qualquer ao tocar do telefone. Era Renata. Sensível e conformada, Renata revelou que Proteu tinha cercado-se de imagens de São Miguel Arcanjo e cortou os pulsos tirando a própria vida. Fez tudo em seu surto mais eficaz e silencioso, como um ato religioso, e ninguém o escutou. Renata a convidou para o velório do filho. Alice lembrou da Torre após a Estrela. Chegou ao recinto e olhou aquele caixão. Proteu dormia tranquilo. Não seria nunca mais monstro. Proteu tinha tido tantos inimigos, uns até juravam que nem 4 pessoas estariam por lá para levar o seu caixão. Não pensava ser querido. E o local estava lotado. Alice subiu ao altar e fez uma declaração de amor àquele que fez a sua música, o seu sonho realizar-se. Dizia que somente uns poucos conseguiram chegar no brilho daquele homem. Ela tinha tido muita sorte. Quis como última homenagem tocar a sua composição 'Proteu, Amor'. Pro amor dela, fechou os olhos e escutou como se ele a pudesse ver.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com