narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Saturday, 1 May 2010
Por Favor, Sim?
Inês, a escritora de literatura selvagem, destilava a pura percepção dos submundos os quais já viveu nas suas palavras. Vivia disso. Funcionava como um descarrego, despreendimento de cóleras, libertação dos pensamentos estagnados na mente agressiva. Quem a lia imaginava-a a mais raivosa, bruta, não-lapidada e estúpida das mulheres. Ela não sofria com isso. Idiotas são os que não ouvem bem, balbuciam algo e não vêem o que realmente alguém pode ser. Poderia sofrer por não se mostrar inteiramente, mas isso lhe cabia como defesa muito bem, e já que a face agressora existia predominante como um orixá de cabeça, ela não se envergonhava. Não estava mentindo, ainda era a sua verdade. Quando falava brutamente não tinha intenção de magoar. Só queria expressar-se e tinha o seu direito. Sentir emoção na fala dela, ou não, caberia à audiência dos seus textos. Alguém um dia expressou a sua mágoa e pediu que ela não o ofendesse tanto assim. Ela, por respeito, ou por carinho, parou o seu entorno de atividades, sentou-se ao seu lado, pegou o rosto tenso desse homem macho com as suas mãos finas e disse: 'eu nunca quis te magoar, você me lê e eu sou grata. eu tenho certeza de que você não me entende. eu não julgo você, sua vida, não existem carapuças armadas especialmente para você entre os meus dedos... são coincidências e eu só posso falar por mim. É o que eu faço, minha obrigação, pois ninguém mais falará. Nem você'. Beijou com ardor aquele homem que vez por outra chorava e tinha tanta culpa nas costas. Apesar das culpas não serem suas, ela somente o beijou com fervor para mostrá-lo que ele era importante. Beijou o mais doce dos seus ósculos. E ainda pediu perdão por tocar em suas feridas, que inversamente eram as delas. Olhou o mesmo nos olhos e disse: 'Por favor, sim?'. Não esperou uma resposta, e sim, nunca mais criticar alguém do qual gostava tanto. Ele e qualquer alguém só a precisariam ouvir, com atenção, e o botão da agressividade nunca seria acionado. Um botão, aliás, por si só muito destrutivo e perigoso. Mas, ele era ainda imprescindível e significava a sua sobrevivência.
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com