narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Sunday, 16 May 2010

Um Sonho De Mulher Que Vivia Do Sonho

Flora vivia de sonhos. Uma pisciana de olhos pretos, com uma paralisia discreta e parcial no rosto e pele muitíssimo branca, que não acreditava em astrologia já que não tinha nada do espiritual associado ao seu signo solar e, por um adjetivo, dispensou o resto da descrição da sua personalidade. Roía todas as unhas das mãos e seu esmalte turquesa descascado nas pontas denunciava o seu desequilíbrio. Tinha acabado de se separar e ele foi designado a sair da casa do outrora dito casal. Ela ficou com tudo: objetos e lembranças. Ele sumiu do mapa. Afirmava quando tinha a chance que um homem novo ali naquela casa só dela, não entraria tão cedo. Admitia que vivia sonhando, e ficava desajeitada caso alguém mudasse o tema da conversa para qualquer palavra perto do sexual. Ficava em silêncio. Não tinha trejeitos vernaculares para discursar sobre qualquer assunto. E quando não sabia falar sobre um tópico, dava uma patada de negação achando uma besteira, ou afirmando que 'não gostava mesmo, não' daquilo que fosse o que ela não sabia. No todo, era muito pessimista. Negativa. Perguntava às amigas o tempo todo 'e isso vai dar certo?'. Não deixava a dúvida reinar por trinta minutos, nem para ver a resposta de um outro ser diante da insegurança. Ou insistia que 'não ia dar certo, não', logo de primeira. Nenhum traço de esperança em qualquer coisa fora do tradicional. Era cética, e somente uma confissão dela para que os outros percebessem que ela vivia de sonhos. Tinha sonhos secretos. Na real, tinha medo de verbalizá-los em voz alta, para que o vento não levasse seus desejos. Supersticiosa era a definição dela. Não tinha muitos amigos homens. Gostava da companhia das meninas e de falar de objetos coloridos, tecidos molinhos e admirar a harmonia dos visuais. Faltava uma densidade à Flora. Não que sua vida não tivesse sido rica de detalhes, sofrida de emoções... Apenas, não transmitia densidade, parecia uma superfícia plana de argila molhada, pronta a ser moldada. Bastava saber o que ela não gostava, e querer estar ao seu lado e seria fácil manobrá-la. Ela não surpreendia. Flora era enorme, um potencial gigante de mulher, mas se auto-denominava como auto-sabotadora. Fingia umas coisas para ela mesma, e em segredo descumpria a regra já que ninguém a recriminaria, somente ela mesma. E como ela não merecia o seu próprio respeito, o sofrimento não seria tão grande assim. Seus amores cada vez mais se tornavam platônicos, puro fruto de muita imaginação e nenhuma ação positiva. Era triste, negativa, sabotadora de si mesma, sem progresso, sonhadora, nervosa e de aparência dulcíssima. Um potencial enorme disperdiçado por ser apenas uma farsa e sempre puro sonho, sonho de ser uma mulher melhor.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com