narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.
Wednesday, 12 May 2010
Carol
Cansou de ser letra de Jorge Ben: simPÁtica! Olhou de soslaio aquele sentimento dito rasteiro que estava sempre lá como um preto velho protetor e deixou sua zenzice de lado. Disse 'vem cá, vamos fumar um cigarro e ter uma conversa'. O sentimento explicou que estava de saco cheio observando aquele movimento kundalini, ao som de Osho, cheirando a pavitra dhoop, com palavras de bondade e pedras de boas intenções do caralho a quatro. Perguntou se o que tinha acontecido tinha que ser mesmo esquecido, embrulhado em papel alumínio de zenzice. Só iria conservá-lo fresco como queijo minas. Nem parecia aquela que à primeira vista conheceu uma qualquer e perguntou 'quando vai tirar esse cabaço? já tá na hora'. O sentimento estava decepcionado com a Carol, Carol Bela! Já tinha esse nome e queria ser mais uma a mais? Instigou um 'levanta, POR-RA! pede pra sair!'. Carol levantou-se da mesa e foi acender o seu Free no bocal mais forte daquele fogão quatro bocas. Ah, ah... era assim que tinha que ser? Na lapada? Acabou o cigarro baforando-o todo ao olhar o teto infiltrado pelo vizinho de cima, aquele puto que escutava Beyoncé aos sábados. Tomou um banho e vestiu uma fio dental dançando sozinha ao espelho. Encarava aquelas tatuagens nos ombros e perguntava a si mesma 'que merda feita foi essa?'. Do auto-desprezo nascia a raiva. Dançou um disco inteiro de trance. Osho foi pra puta que o pariu com aquele turbante roxo e aquela barba que suada devia dar nojo. Parou de ser um sorriso agradável, um olho condescendente e começou a ser desconsiderada em seu dia a dia. Simples, deixou várias pessoas falando sozinha em plena conversa. Plácida, dizia 'eu acho uma merda!' ao final de cada exposição nova de idéia ouvida. Tentava sua faceta mais indiferente, seu lado egoísta sem culpa. Não queria mais ouvir música relaxante, queria perturbação. Estava vidrada na raiva. Com uma fissura de chupar saliva rápido para não babar de tesão naquele sentimento. E já estava tão louca de paixão que pensou em ter um filho, transformar o corpo, casar com aquilo inanimado que era tão mais instigante, pensou em mudar seu nome para Lorac. Conseguiu em um dia e meio o que anos de zenzice não lhe deram. A transcendência.
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- Maria Sobral
- É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com