narrativas, crônicas e prosas superficiais de pura verdade com um fundo de mentira; ou vice-versa.

Tuesday, 18 May 2010

François

Nasceu em La Rochelle, cidade próxima a Bordeaux, e seu melhor amigo era Philou Carlotti. Apaixonou-se aos 24 anos por uma pernambucana de 19 que driblava com exaustão um emprego, um estágio e uma universidade. Perguntava 'como você tem tanta energia?' com um tesão de olhos baixos apaixonados. Namoraram instantaneamente e por 3 semanas mais. François encheu a pernambucana de presentes: sempre perfumes ou livros. Franceses são como os russos e a mulher nunca paga nada. 'É a nossa cultura! Seja independente sozinha comprando a sua maquiagem!'. Tinha um ótimo gosto. Era um tipão alto, quase um beau garçon, mas não tanto. Comprou uma coleção bilíngue de poemas de Charles Baudelaire e na dedicatória pôs que 'la beauté n'appartient ni au bien, ni au mal'. A beleza é neutra. Está nos olhos de quem a vê. A paixão tomou conta de François e ele começou a se rebelar com ciúmes, desconfianças, perguntas sem sentido e um modo cada vez mais agressivo ao dizer 'você é tão popular, não?!'. A moça voltou-se contra a raiva e perguntou 'porquê isso?'. Ele respondeu com ironia em uma pergunta: 'você não sabe filosofia? amor é violência! você me tem nas mãos, não posso fazer nada, tirou a minha liberdade e eu quero matar você'. O romance não durou muito mais após essa declaração. Ele assustou a menina, ela ainda não aguentava o tranco da verdade da vida. Até tentaram uma reconciliação em um restaurante pequeno no bairro de Montmartre, seis meses após a separação física, mas François não suportou a distância entre La Rochelle e Recife. François casou-se com Sophie e tiveram dois filhos. Moram em Londres, são felizes. Encontrou-se com a pernambucana 11 anos depois em Brighton, sul da Inglaterra, e a disse sorrindo que ela era uma 'tempête'. A mulher tempestade tem até hoje um grande torcedor naquele que a conheceu tão jovem. O torcedor que a ensinou pela primeira vez uma verdadeira lição de amor e ódio.

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É cantora, compositora, atriz e jornalista nordestina. É seduzida por palavras, filmes, sons, chances de dar a cara ao tapa, decolagens de aviões, cheiro de suor masculino, canções complexas, debates verbais, pensamentos ilícitos, baboseira sem compromisso, microfones e canetas. Todos os vídeos têm a autorização da mesma para a sua própria atuação. Convidados nos vídeos não se responsabilizam pelo conteúdo dos textos da autora e assinaram autorização de uso de imagem. Comentários não são necessários. Aceita parcerias literárias e musicais. Contato: mariasobralmaria@gmail.com